Mostrando postagens com marcador alexandre o'neill. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador alexandre o'neill. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A FORÇA DO HÁLITO

A força do hálito é como o que tem que ser.
E o que tem que ser tem muita força.

Vai(ou vem) um sujeito,abre a boca e eis que a gente,
que no fundo é sempre a mesma,
desmonta a tenda e vai halitar-se para outro lado,
que no fundo é sempre o mesmo.

Sovacos pompeando vinagres e bafios
não são nada - bah.... - em comparação
com certos hálitos que até parece que sobem do coração.

      Ai onde transpira agora
      o bom sovaco de outrora!

Virilhas colaborando com parêntesis ou cedilhas
são autênticas (e sem hálito!) maravilhas.
Quando muito alguns pingos nos refegos,nas braguilhas,
amoniacal bafor que suporta sem dor
aquele que está ao rés de tal teor.

Mas o mau hálito é pior que a palavra,
sobretudo se não for da tua lavra.

Da malvada,da cárie ou,meudeus,do infinito,
o mau hálito é sempre na narina,
como o baudelaireano,desesperado grito
da "charogne" que apodrecer não queria...

De Alexandre O'Neill

sábado, 28 de maio de 2011

PORTUGAL

Ó Portugal,se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde,Algarve de cal,
jerico tapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com o vento
testarudo,mas embolado e,afinal,amigo,
se fosses só o sal,o sol,o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanídios,
se fosses só a cegarrega do estio,dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado,a grila no lábio,
o calendário na parede,o emblema na lapela,
ó Portugal,se fosses só três sílabas
de plástico,que era mais barato!
                     *
Doceiras de Amarante,barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana,toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal:questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso,fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes,sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

De Alexandre O'Neill

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

TRÊS CARNEIROS DO TEJO

Nasce na serra de Albarracim,em Espanha,
entra-nos em casa pelo Ródão,
arremeda-nos a sua galadela,
depois acalma,vai deitando corpo,
e aqui,já todo ancho,o atravesso
diariamente,eu,o ribeirinho
que traz a mão na estiva de palavras
no outro lado e a cabeça algures.

Cada um com sua nuvem rente à boca,
que em alguns é o cúmulo da prosápia,
das leiras do sono nós todos arrancamos
pra Lisboa,a tão estremecida,
e ao barbeirinho opomos catadura
de quem está zangado com a vida.


E estamos.


                               *


Dragado de conversas,Tejo,darias mais calado
à nossa companhia,
mas calados só eu e a rapariga
que passou a noite a vadrulhar,
deu um pulo à tia e volta prà cidade
já quase na pele de outra pessoa,
retocado o bâton,aproveitada a olheira,
reposto o seio no lugar,tão sobranceiro!


É de dia caixeira,aposto eu.
Não vale que tu viste,digo eu.


                                  *


Ó Tejo nunca inaugurado,nesta praça
devia haver comércio,esplanadas,mesas
onde eu assentaria o cotovelo e,a cafés,
diria,versejando,quem não és.


Com as Dez Odes do Dr.Armindo,
que,aliás,são um poema lindo,
ó Tejo vaidosão tu transbordaste,
tu não te contiveste,tu não te aguentaste!
Mas eu,Tejo continuado,nesta praça
minist'rial que mais te posso dar,
a ti que vens de Albarracim,meu espanhol,
que passaste Almourol,
que passaste Pereira Gomes e Redol,
senão a frase sim ou não ouvida,
com este meu ouvido,com esta minha vida,
a um rapaz que,sem malícia,veio,
da sombra de sei lá de que sobreiro,
para dar em alguém,cá na cidade:


Ser da polícia,
dá cantina,barbeiro,autoridade.

De Alexandre O'Neill

domingo, 3 de outubro de 2010

CORTEJO

"Passam varinas de gargantas sãs"
fraldiqueiros atrás de um bom regaço
bébés em quatro rodas e mamãs
com quem me faço.

Passa uma sobrancelha (ou uma andorinha?)
um joelho aprendiz
uma baraboleta (coitadina!)
presa nos dedos de um petiz.

Passa um chá de caridade pelo ar
a ver que asilo há-de ajudar
e a D.Pepa espanhola quase nua
que não passa de moda mas muda de rua.

Passa D.Alda de Carvalho e Castro
Tudela da Fonseca (ó respiração!)
Lopes e Silva e ainda Bastos
entre-parêntisis Bramão

Passa depressa ó João!

De Alexandre O'Neill

sábado, 4 de setembro de 2010

NATUREZA MORTA

Da fruteira
não direi os frutos.

Que lá fiquem,
cerosos,
esferas (ou discos) para a luz funâmbula,
que não os esfaqueia
no quadro.

De Alexandre O'Neill
Óleo de Picasso

sexta-feira, 9 de julho de 2010

FIM DE SEMANA

Estirado na areia,a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou,de azul e areia,
para onde,aos milhares,nos abalançamos,
como quem,às pressas,o corpo semeia.
De Alexandre O'Neill

sexta-feira, 7 de maio de 2010

ANIMAIS DOENTES

Animais doentes as palavras
Também elas
Vespas formigas cabras
De trote difícil e miúdo
Gafanhotos alerta
Pombas vomitadas pelo azul
Bichos de conta bichos que fazem de conta
Pequeníssimas pulgas uma sílaba só
Lagartos melancólicos
Estúpidas galinhas corriqueiras
Tudo tão doente tão difícil
De manejar de lançar de provocar
De reunir
De fazer viver

Ou então as orgulhosas
Palavras raras
Plumas de cores incandescentes
Altos gritos no aviário
E o branco sem uso
Imaculado
De certas aves da solidão

Para dizer
Queria palavras tão reais como chamas
E tão precárias
Palavras que vivessem só o tempo de dizer a sua parte
No discurso de fogo
Logo extintas na combustão das próximas
Palavras que não esperassem
Em sal ou em diamante
O minuto ridículo precioso raro
De sangrar a luz a gota de veneno
Cativa das entranhas ociosas.

De Alexandre O'Neill

sexta-feira, 9 de abril de 2010

SOBRE UMA FOTOGRAFIA DE AUGUSTO CABRITA


Enxúndias ensacadas no cotim da farda,
papel de cartucho que quase se rasgava,
repressor-burocrata,descansavas à porta
do teu posto de escrita e de porrada.

No coldre,a pistola;na pança,a feijoada;
na perna,a polaina;no cérebro,o corrimento
que é mais que sensação,menos que pensamento.

E sob o teu rabo,a cadeira gemia
ao compasso da nalga que se deslocava
do suor que sobre o tampo produzia.

Nos campos,a manada trabalhava.

Quem te fotografava,de longe é que o fazia.
Estava de passagem para uma outra vida.

De Alexandre O'Neill

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

TOMA TOMA TOMA

Ainda prefiro os bonecos de cachaporra,
contundentes,contundidos,esmocados,
com vozes de cana rachada e um toma toma toma
de quem não usa a moca para coçar os piolhos,
mas para rachar as cabeças.

O padreca,o diabo,a criadita,
o tarata,a velha alcoviteira,o galã
e,às vezes,um verdadeiro rato branco trapezista,
tramavam para nós uma estafada estória
da nossa própria vida.

Mundo de pasta e de trapo
que armava barraca em qualquer canto
e sem contemplações pela moral de classe
nem as subtilezas de quem fica ileso
desancava os maus e beijocava os bons.

Ainda prefiro os bonecos de cachaporra.

Ainda hoje esbracejo e me esganiço como esses
matraquilhos da comédia humana.

De Alexandre O'Neill

sábado, 2 de janeiro de 2010

O SALVAMENTO DO FILHO


Vejo o filho levado pela mosca
e estremeço de horror!
Tirado do berço pela mosca,
aprende,aos ziguezagues,a ser vítima da mosca,
mas não chora: um homem nunca chora.

A mosca agiganta-se,o filho diminui.
Um ruído de ventoínha invade o quarto.
Passa por mim a mosca,passa em tromba.
Vi com estes que a terra há-de comer
meu róseo filho que sorria!

Ó meu filho arrebatado que inocência a tua!
Essa fera peluda vai sugar-te
e tu sorris fininho,entre divertido e assustado,
como se a tripulasses num carrocel de feira!

E eu para aqui,tão caçador de moscas
numa infância tão aferroada,
sem um gesto,sequer uma palavra...

Mas de repente a mão disparo
no mesmo assomo de colegial
perseguidor de moscas (era nas aulas de moral...)
e enquanto na direita a mosca se interroga,
na concha da mão esquerda o filho cai - e chora!

De Alexandre O'Neill

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

SE...


Se é possível conservar a juventude
Respirando abraçado a um marco de correio;
Se a dentadura postiça se voltou contra a pobre senhora e a mordeu
Deixando-a em estado grave;
Se ao descer do avião a Duquesa do Quente
Pôs marfim a sorrir;
Se o Baú-Cheio tem acções nas minas de esterco;
Se na América um jovem de cem anos
Veio de longe ver o Presidente
A cavalo na mãe;
Se um bode recebe o próprio peso em aspirina
E a oferece aos hospitais do seu país;
Se o engenheiro sempre não era engenheiro
E a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;
Se reentrante,protuberante,perturbante,
Lola domina ainda os portugueses;
Se o Jorge(o "ponto" do Jorge!)tentou beber naquela noite
O presunto de Chaves por uma palhinha
E o Eduardo não lhe ficou atrás
Ao saír com a lagosta pela trela;
Se "ninguém me ama porque tenho mau hálito
E reviro os olhos como uma parva";
Se Mimi Travessuras já não vem a Lisboa
Cantar com o Alberto...

...Acaso o nosso destino,tac!,vai mudar?


De Alexandre O'Neill

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O ROMPIMENTO À BEIRA-LÁGRIMA


Enquanto a vela respirava,

Ela suspirava elan-

guescida.


Que esvaziava ela com a vela?

Que enchia eu com ela e com a vela?


Tão efluvial,meudeus,a despedida!


No empranchado dessa fragata,

numa panela (ou numa lata?)

a caldeirada

(ao lado,o vergas com o vinho)

que um ganga acocorado,enquanto assobiava,

mexia com um pauzinho.


De Alexandre O'Neill

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

FIM DE SEMANA


Estirado na areia,a olhar o azul,

ainda me treme o parvalhão do corpo,

do que houve que fazer para ganhar o nosso,

do que houve para esburgar para limpar o osso,

do que houve que descer para alcançar o céu,

já não digo esse de Vossa Reverência,

mas este onde estou,de azul e areia,

para onde,aos milhares,nos abalançamos,

como quem,às pressas,o corpo semeia.


De Alexandre O'Neill

sexta-feira, 17 de julho de 2009

VELHOS / 2


O Mataboches,o que deixou os alemães passarem em sucessivas vagas,
para,depois,do seu buraco,os dizimar pelas costas,
está que não pode.
Reformado da fábrica onde,até há poucos anos,
apoveitando as espertinas de ex-gaseado,
guardava as larápias sombras da noite,
o Mataboches já nem à taberna vai.
A filha,antes de sair para o trabalho,
deixa-o sentado à janela,entre canário e sardinheira,
com um mata-moscas à mão.
E o Mataboches passeia o curto-alcance dos seus olhos
do amarelo ao rosa,
vigiando mosca e varejeira.
Às vezes apanha chuva e larga a rir
(por ser regado ao mesmo tempo que as sardinheiras?)
um riso que põe o canário,espavorido,
a harpejar as barras da gaiola.
Penugem amarela rodeia o Mataboches.
Ele não dá por nada;dá a filha,
que lhe ralha e lhe faz ciúmes com o Hilário,o canoro.
Passa-se,então,um curioso ritual:
a filha tira o canário da gaiola,diz-lhe:"Ele foi mau pró meu Hilário!",
e enquanto o pai se agita,regouga,troca e destroca
seus gestos de meio paralítico,
ela,com um olho no velho,beija o passarinho,
alisa-lhe as penas,quase o come.
E o ritual só acaba quando o Mataboches
mistura a sua baba com o seu ranho.
O Mataboches,o do C.E.P.,
peneira o ar com o mata-moscas
e erra a última mosca.
De Alexandre O'Neill

segunda-feira, 8 de junho de 2009

QUE VERGONHA,RAPAZES!


Que vergonha,rapazes! Nós pràqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no "diz que"
e a desnalgar a fêmea ("Vist'?Viii!")
Que miséria,meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me soergo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.
Desejo recalcado,com certeza...
Mas logo desço à rua,encontro o Roque
("O Roque abre-lhe a porta,nunca toque!")
e desabafo: - Ó Roque,com franqueza:
Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria,Snr. O'Neill! E... as varizes?
De Alexandre O'Neill

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O MORTO


O morto,assim barbeado,
assim vestido,calçado,
está pronto a ser enterrado,
está pronto a ser olvidado,
que ele agora é uma coisa,
é de fora para dentro.
Só aos vivos falta o tempo.
A ele não,que é uma coisa.
Não tem lazer,que fazer,
nem aflição ou dívida.
Qualquer destino lhe serve
à maravilha.
E tanto se lhe daria
ser o defunto na sala,
como carcaça na vala
ou objecto de poesia.
Mas não se esquecem os vivos
de condimentar o morto.
Para que dele não fique
mais que o osso?
De Alexandre O'Neill

quinta-feira, 5 de março de 2009

LEGO


Está tudo conformado

ao triste proprietário.

Mecânicas ovelhas,

na erva de plástico,

têm pastor de pilhas

e cão pré-fabricado.

Flores marginam esse

às peças-soltas do prado.

Eléctricas abelhas,

obreiras sem contrato,

daquele herbário extraem

um mel supermercado.

A malhada,no estábulo,

quase manga de alpaca

(é A VACA,sabias?),

dá leite engarrafado.

No céu (para colorir)

a nuvem (pontual),

aguarda a vez de ser

chovida no nabal,

enquanto o Sol dardeja

na eira proverbial.

Já tudo afeiçoado

ao bom do proprietário

(ervas,bichos,moral),

ele conta com os seus

e espera sempre em Deus.


("- Deste corda ao pardal?")


De Alexanre O'Neill

segunda-feira, 2 de março de 2009

AS VOLTAS DA POESIA


Borborigmo a expensas da dobrada.

Para uns,é a alma alcanceada:

para outros,quilo tão ronceiro

que lhes dá resmoneio o dia inteiro,

a conversa visceral fiada

que os versos são,primeiro.


Em qualquer dos casos,venham mas é versos,

bem tirados,acabados,tesos,

que a dobrada,essa,se por lá traquina,

é para coisa que se veja,chula ou fina.


De Alexandre O'Neill

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

PERFILADOS DE MEDO


Perfilados de medo,agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos,do que não seremos.

Perfilados de medo,sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos,os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...

De Alexandre O'Neill

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

PARA VINICIUS


Há muita gente ainda por aí(tenho medo que aumente!) que de ti o que quer é o catorze,quer dizer o soneto, e rejeita teu outro meio de comunicar,que afinal é o mesmo:tocantar.
Perceba,por uma vez,essa gentalha,que o Vinicius poeta e o Vinicius sambista são da mesma igualha!
São
o operário
em construção.
Abração
Alexandre O'Neill