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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

TRÊS ADEREÇOS RECEBIDOS COMO HERANÇA

A Peliça
Catarina da Rússia,minha prima
pela fronteira travessa,
deixou-me,além do gosto pela esgrima
com a moral avessa,
um casaco de marta sibilina
que desabafa muita viscondessa.

O Chicote
Meu tetravô polaco que era conde
de Nãossesabedonde
legou-me em testamento
uma lança de vento
e um chicote cossaco

uma lança que lanço quando invento
um galope que páro quando estaco.

O Espelho
Meu padrinho de crisma,Dom Quixote,
que morreu ainda eu era criança,
deixou-me em usufruto
Sancho Pança.

De Ary dos Santos

terça-feira, 5 de outubro de 2010

SONETO DE INÊS

Dos olhos corre a água do Mondego
os cabelos parecem os choupais
Inês!Inês!Raínha sem sossego
dum rei que por amor não pode mais.

Amor imenso que também é cego
amor que torna os homens imortais.
Inês!Inês!Distância a que não chego
morta tão cedo por viver demais.

Os teus gestos são verdes  os teus braços
são gaivotas poisadas no regaço
dum mar azul turquesa  intemporal.

As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços
Inês!Inês!Inês de Portugal.

De Ary dos Santos

segunda-feira, 26 de julho de 2010

VERSOS

Versos?! Paguei-os. Alegria e raiva.
As palavras por vezes impotentes
outras vezes escorrendo sangue e seiva
ao morderem a vida com os dentes.

Poesia que és uns dias minha noiva
com seios de palavras complacentes.
Poesia que outras vezes grita e uiva
fêmea capaz de fecundar sementes.

Poesia minha amiga minha irmã
mulher da minha vida que inventei
para fazermos filhos amanhã.

Poesia minha força e meu castigo
meu incesto tão puro que nem sei
se é verdade que faço amor contigo.

De Ary dos Santos
Fotografia de Enrico Nawrath/Bayreuth Festival/EFE

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A UM JOVEM SOLDADO

Jovem.
Coroam-lhe as giestas os cabelos,
Generosas e loiras como fora.
Jaz no imenso campo
E é um grito
Que o vento,que o incensa,
Chora.

Morto.
Seu corpo liso e belo que vivera
Como as papoilas acres,dorme agora.
E seu olhar azul é uma estrela
Que a terra,que o sepulta,
Ignora.

De Ary dos Santos

segunda-feira, 19 de abril de 2010

CATINGA DE INIMIGO

Minha senhora da cruz vermelha
    crucificada na cruz gamada
trazeis-me novas da minha orelha?

                  Ai  é cortada!

     Minha senhora visitadora
    da minha vida tão desairada
trazeis-me novas da minha cova?

                 Ai é cavada!

      Minha senhora retardadora
     desta vingança sempre adiada
trazeis-me novas da minha hora?

                Ui é suada!

De Ary dos Santos

quinta-feira, 4 de março de 2010

A BRUXA (2)

As tetas são balofas almofadas
recheadas de esterco e de patranhas
da boca fogem bichas trituradas
pelo próprio veneno das entranhas.

As pernas são varizes sustentadas
pela putrefacção das bastas banhas
os olhos duas ratas esfomeadas
e as mãos peludas  tal como as aranhas.

Nasce do estrume e vive para o estrume
a língua peçonhenta larga fel
e é uma corda que ela-própria-puxa.

Sai-lhe da boca pus e azedume
tem pústulas espalhadas pela pele
e é filha de si própria. É uma bruxa.

De Ary dos Santos

domingo, 31 de janeiro de 2010

O BOMBISTA

Flamejante auriflama incendiada
patriótica face entumecida
com dentes de coroa cariada
e alma nacional  -  apodrecida.

Galões de oficial. Na face armada
um sorriso de arcanjo genocida
mais os comendadores da comendada
comandita que nos comanda a vida.

Olhar alarve  mas não inocente
na mão aberta  a palma democrata
na mão escondida a saudação fascista.

É fácil perceber que nem é gente
é um simples piolho que se cata
é um filho da puta  é um bombista.

De Ary dos Santos

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

NATAL


Tu que dormes na calçada de relento
Numa cama de chuvas com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão,do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um Homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher 
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poder comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que não vês na montra a tua fome que eu nem sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um Homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher


De Ary dos Santos
contributo de Manuela Curado

sábado, 21 de novembro de 2009

DE ARY



Em Portugal o mal é ancestral
tem raízes no sal   tem ruído nasal
desde que uns olhos se partiram                tristes
                    Esta nossa saudade lacrimal
                    é hoje um mineral:
                    otorrinolaringoestalactite.

                     


terça-feira, 3 de novembro de 2009

RETRATO DO PRONOME POSSESSIVO



O meu é teu. O teu é meu
e o nosso é nosso quando posso
dizer que um dente nos cresceu
roendo o mal até ao osso.

O teu é nosso. O nosso é teu.
O nosso é meu. O meu é nosso
e tudo o mais que aconteceu
é uma amêndoa sem caroço.

Dizem que sou. Dizem que faço
que tenho braços e pescoço
- que é da cabeça que desfaço
que é dos poemas que eu não ouço?

O meu é teu. O teu é meu
e o nosso,nosso quando posso
e sem o ver  galgar o fosso
e sem o ver  galgar o fosso.

De Ary dos Santos

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

SONETO PRESENTE


Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.

De Ary dos Santos

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

PUNHO


Por isso o punho ponho
em vez do sonho
no rascunho.
Por isso a soco saco
o que é de facto:
Uma mulher com ancas de cidade
uma prensa um ruído uma cilada.
O que for outro nome
o que se possa
dizer escrevendo nada.
De Ary dos Santos

domingo, 13 de setembro de 2009

RETRATO DE LUÍS DE CAMÕES


Não do mar meu Luís mas dessa mágoa
marchetada de tudo apartada de quem
não mais trouxer os olhos rasos de água
por esta terra de ninguém.

Não do mar meu Luís mas da raiz
da nossa amada pátria portuguesa
chulando o mal de bernardim
até à última grandeza.

Não do mar meu Luís mas da galega
couve do pranto aberta pranto raro
pranto tão canto que a cantar te quero
neste deserto de quem fala claro.

De Ary dos Santos

quarta-feira, 29 de julho de 2009

MEU CAMARADA E AMIGO


Revejo tudo e redigo
meu Camarada e Amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.
É por dentro desta selva
desta raiva deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.
Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.
Calculo até os moinhos
puxados a óleo e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
---mas um poeta só fala
por sofrimento total!
Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde não me revejo
é o que eu sofro o meu país.
De Ary dos Santos

domingo, 31 de maio de 2009

NÃO PASSAM MAIS


Em nome dos nossos braços
em nome das nossas mãos
em nome de quantos passos
deram os nossos irmãos.
Em nome das ferramentas
que nos magoaram os dedos
das torturas das tormentas
das sevícias dos degredos.
Em nome daquele nome
que herdámos dos nossos pais
em nome da sua fome
dizemos: não passam mais!

E em nome dos milénios
de prisão adicionada
em nome de tantos génios
com a voz amordaçada
em nome dos camponeses
com a terra confiscada
em nome dos Portugueses
com a carne estilhaçada
em nome daqueles nomes
escarrados nos tribunais
dizemos que há outros nomes
que não passam nunca mais!

Em nome do que nós temos
em nome do que nós fomos
revolução que fizemos
democracia que somos
em nome da unidade
linda flor da classe operária
em nome da liberdade
flor imensa e proletária
em nome desta vontade
de sermos todos iguais
vamos dizer a verdade
dizendo: não passam mais!

Em nome de quantos corpos
nossos filhos foram feitos.
Em nome de quantos mortos
vivem nos nossos direitos.
Em nome de quantos vivos
dão mais vida à nossa voz
não mais seremos cativos:
o trabalho somos nós.

Por isso tornos enxadas
canetas frezas dedais
são as nossas barricadas
que dizem: não passam mais!

E em nome das conquistas
vindas nos ventos de Abril
reforma agrária controlo
operário no meio fabril
empresas que são do estado
porque o seu dono é o povo
em nome de lado a lado
termos feito um país novo.

Em nome da nossa frente
e dos nossos ideais
diante de toda a gente
dizemos: não passam mais!

Em nome do que passámos
não deixaremos passar
o patrão que ultrapassámos
e que nos queria trespassar.
E por onde a gente passa
nós passamos a palavra:
Cada rua cada praça
é o chão que o povo lavra.
Passaremos adiante
com passo firme e seguro.
O passado é já bastante
vamos passar ao futuro.

De Ary dos Santos

domingo, 17 de maio de 2009

O OBJECTO


Para Tomaz Kim

Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa dum cão.

Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo forem janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?

E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.

E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.

E se o prato for de merda
e o literato for da esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão

Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são.

De Ary dos Santos


terça-feira, 28 de abril de 2009

AOS MORTOS-VIVOS DO TARRAFAL


Ao cabo de Cabo Verde
dobrado o cabo da guerra
quando o mar sabia a sede
e o sangue cheirava a terra
acabou por ser mais forte
a esperança perseguida
porque aconteceu a morte
sem que se acabasse a vida.

Ao cabo de Cabo Verde
no campo do Tarrafal
é que o futuro se ergue
verde-rubro Portugal
é que o passado se perde
na tumba colonial.
Ao cabo de Cabo Verde
não morreu o ideal.

Entre o chicote e a malária
entre a fome e as bilioses
os mártires da classe operária
recuperam suas vozes.
E vêm dizer aqui
do cabo de Cabo Verde
que não morrem ali
porque a esperança não se perde.

Bento Gonçalves torneiro
ainda trabalhas o ferro
deste povo verdadeiro
sem a ferrugem do erro.

Caldeira de nome Alfredo
fervilham no teu caixão
contra o ódio e contra o medo
gérmens de trigo e de pão.

E tu também Araújo
e tu também Castelhano
e também cada marujo
que morreu a todo o pano.

Todos vivos!Todos nossos!
vinte trinta cem ou mil
nenhum de vós é só ossos
sois todos cravos de Abril!

No campo do Tarrafal
no sítio da frigideira
hasteava Portugal
a sua maior bandeira.

Bandeira feita em segredo
com as agulhas das dores
pois o tempo do degredo
mudava o sentido às cores:
o verde de Cabo Verde
o chão da reforma agrária
e o Sol vermelho esta sede
duma água proletária.

Do cabo de Cabo Verde
chegam tão vivos os mortos
que um monumento se ergue
para cama dos seus corpos.
Pois se o sono é como o vento
que motiva um golpe de asa
é a vida o monumento
dos que voltaram a casa.

De Ary dos Santos

domingo, 29 de março de 2009

A BRUXA


Com sete lagartos mortos

sete vasilhas de enxofre

sete lacraus sete corvos

sete anéis de pedra negra

sete cabras sem pescoço

sete bacias de sangue

sete agulhas de veneno

sete gatos sete figas

sete cruzes sete salgas

sete luas sete rezas

sete fogos para as almas

sete candeias acesas

em sete torcidas de algas.


De Ary dos Santos,in "Tempo da Lenda das Amendoeiras"(1964)

quinta-feira, 12 de março de 2009

O CIO DA POESIA


É no verão das palavras
no suor
das coisasamassadas
no calor
de coxas esculturais e bem-amadas
que o poeta traz o cesto das entradas.

Um cabaz de morangos um almude
de vinho novo e grave um alaúde
de arcanjos e marujos profetas;
- é sempre o quarto da saúde
quando se acende a luz dos poetas.

Quando ela nasce tudo o mais se cala
navios nos pinhais pinheiros nas florestas
filhos no sémen dos pais aromas dentro das giestas;
- só quando o cio é demais
é que o parto tem arestas

Quando a sibila das cores
abre as pernas às palavras
os poetas têm dores
como crianças que ladram.
E fazem sulcos na carne
golpes dentro da ternura
até chegarem ao cerne
da primavera mais dura.

Então acendem-se os poemas
feitos de poesia pura.

De Ary dos Santos
Pintura de Dali

domingo, 1 de fevereiro de 2009

PAVANA PARA UMA BURGUESA DEFUNTA

A cabeça de vaca de minha tia mais velha
repousa em guerra lenta no cemitério maior.
Rói-lhe o bicho das contas a fímbria da orelha.
Rói-lhe o rato da raiva as narinas sem cor.

Repousa em paz. Raposa que na toca
fareja a galinhola e o fricassé.
Já não mija mas cheira
já não vive mas ousa
ser a santa que foi ser o estrume que é.

A cabeça de vaca de minha tia refoga
nas lágrimas burguesas da família enlatada
cozinha-lhe a memória um viuvo de toga
descasca-lhe a cebola uma filha frustrada.

A cabeça de vaca de minha tia meneia
o sim-sim o não-não dos outros semivivos
na família a razão de se morrer a meias
é a exalação dos suspiros cativos.

Se não fosse o desgosto se não fosse a gordura
o retrato na sala o buraco no ventre
se não fosse de força tinha feito a escritura
nem sequer houve tempo para o oiro dos dentes.

Minha tia mastiga minha tia castiga
na saleta do inferno as almas dos criados:
- não me limpaste o pó a campa tem urtigas
atrasaste o jantar dos condenados.

A cabeça de vaca de minha tia sem nome
coze no fogo brando do que é passar à história.
Dissolve-se na boca resolve-se na fome
do senhor que a devora em sua santa glória.



De Ary dos Santos