Mostrando postagens com marcador ary dos santos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ary dos santos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

MORTE E TRANSFIGURAÇÃO


Cinzas,vergões,renúncias,cicatrizes,



Laceram-nos a esperança,mas dão outra.



Essa em que a dor nos faz criar raízes,



Árvore e fruto duma seiva nova.






Dos abismos da ira levantamos



As vozes,os protestos e as trombetas.



Só nos ouvimos quando nos calamos



E em vez de arautos nos tornamos poetas.






Cantores das coisas que nos doem,magos



Da nossa angústia,frémito das águas



Onde nos debruçamos,onde nós,






Narcisos do que é grande e impossível,



Nos transformamos por amor da voz



Enquanto a imagem nos parece inútil.






De Ary dos Santos



sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

OU ARCANJO OU LADRÃO


Ou arcanjo ou ladrão,
Devorador
De perfumes,
De corpos
E de mitos.
Rei nos países interditos.
Conviva solitário do festim
Em que a noite me chama à sua mesa,
Pescador de silêncios e jardins
Na cidade terrível e acesa.
Ou arcanjo ou ladrão. Destruidor
Da imagem do outro que transporto
Tatuada no peito.
Rosa de carne azul que me deslumbra
Quando penetro a noite com o sexo
Que a minha solidão tornou perfeito.
Assim vogo e arremeto pelos tempos,
Invisível Apolo citadino,
Falus de herói coroado de giestas,
Transgressor voluntário do destino,
Pé de cabra forçando o impossível,
Brisa azul esquivando-se entre os outros,
Com laivos de infinito nas passadas,
Lampejos de infinito nos olhos admiráveis
E flores de estrume a definir-me a testa
De Príncipe e Senhor dos intocáveis.

De Ary dos Santos

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A FACA


A palavra será faca
o sentido será gume
a imagem será chama
mas a matéria é o lume.

Lume dos nervos riscados
pelo fósforo do medo
lume dos dentes cerrados
pela goma dum segredo.

Lume das faces de cera
lume dos dedos de cal
lume golpe lume pedra
lume silêncio metal.

Lume que se acende a frio
e nos devora por dentro
lume agulha lume fio
da faca do pensamento.

Lume navalha que rasga
o ventre da solidão
vingança de quem se gasta
queimando frases em vão.

Lume lembrança das coisas
que nos arderam na voz
cinza viva que nos corta
e nos separa de nós.

De Ary dos Santos

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

VIAGEM


Persegue-me na noite a voz do impossível,

Rebentam-me aos ouvidos as ampolas de sangue.

Avanço devagar para a hidra intangível

Que dorme no horizonte do lado do levante.

Fascinam-me o mistério do seu rosto sem nome,

O muro de silêncio que a separa de mim,

A jornada no escuro,os perigos,os escombros,

As barreiras de sombra a que vou pondo fim.


Avanço devagar para a hidra que dorme

O seu sono latente na véspera de mim.


E percorro países como esqueço palavras

E atravesso rios como desprezo leis

E pairo nas alturas com as costas voltadas

Aos séculos de pasmo que para trás deixei.


Avanço devagar para a hidra que dorme

O seu sono de pedra num abismo sem fundo.


É a hora em que a terra não gira,

Em que o vento não corre.

É o tempo do homem descobrir o mundo.


De Ary dos Santos

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A DENTADURA


(aos Exmos. Sisos Pro-Tese)

As palavras concretas
são autopoetas
autorroedoras
autodigestivas
mas não auto-sangue
mas não autovivas.
As palavras setas
são como os poetas
velobicicletas
que pedalampasmam
que pedalotentam
pelas viasvidas
que pedalamdentam
que pedalam asnam
comendo violetas
mastigando urtigas.
As palavras poetas
dispostas aos ramos
de rosas selectas
nas antologias.
As palavras ostras
da literatura
num colar de pérolas
de puericultura.
As palavras nastros
as palavras lastros
que fazem dos astros
uma dentadura.

De Ary dos Santos

terça-feira, 15 de julho de 2008

OS CÃES DA INFÂNCIA


São os cães da infância os cães dementes


ladrando-me às canelas do passado


cães mordendo-me a vida com os dentes


ferrados no meu sexo atormentado.




Paguei cada minuto do presente


com vergões de amor próprio vergastado


porém só fala quem se não consente


vencido temeroso ou amarrado.




Contra cães uivo. Não me fico assim.


Não tenho pai nem mãe. Nasci de mim


macho e fêmea gerando o desespero.




Lutar é tudo quanto sou capaz.


Não me pari para viver em paz.


Tudo o que sou é menos do que eu quero.

domingo, 22 de junho de 2008

NA MESA DO SANTO OFÍCIO


Tu lhes dirás,meu amor,que nós não existimos.

Que nascemos da noite,das árvores,das nuvens.

Que viemos,amámos,pecámos e partimos

Como a água das chuvas.


Tu lhes dirás,meu amor,que ambos nos sorrimos

Do que dizem e pensam

E que a nossa aventura,

É no vento que passa que a ouvimos,

É no nosso silêncio que perdura.


Tu lhes dirás,meu amor,que nós não falaremos

E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.

Tu lhes dirás,meu amor,se for preciso,

Que nos espreguiçaremos na fogueira.


De Ary dos Santos

sexta-feira, 13 de junho de 2008

CANTO FRANCISCANO


Por onde passaste tu

que não soubeste passar?

Pela sandália do tempo

pelo cílio do luar

pelo cilício do vento

pelo tímpano do mar?

Por onde passaste tu

que não soubeste passar?


Por onde passaste tu

que me ficaste cá dentro

tenaz do fogo divino

irmão pinho ou aloendro?

Por onde passaste tu

que me ficaste cá dentro?


Pois bem: nos campos da fome

ou nos caminhos do frio

se eu encontrasse o teu nome

lançava-te o desfio:

por onde passaste tu

pétala viva dos pobres

irmão dos cardos dos cerdos

rei das chagas e dos podres

- por onde passaste tu

não passaram minhas dores!


Nasci da mãe que não tive

do pai que nunca terei

e aquilo que sobrevive

é o irmão que não sei:

uma espécie de fogueira

de corpo que me deslumbra.

Tudo o mais à minha beira

é uma réstia de sombra.

- Por onde passaste tu

com artelhos de penumbra?


Eis-me. Eis-me: Incendiado

por não saber perdoar.

Meu irmão passa de lado:

- Eu sei como hei-de passar.


De Ary dos Santos

Na comemoração do Dia de Santo António de Lisboa

terça-feira, 29 de abril de 2008

O FUTURO


Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.

De Ary dos Santos

terça-feira, 15 de abril de 2008

SONETO ESCRITO NA MORTE DE TODOS OS ANTIFASCISTAS ASSASSINADOS PELA PIDE


Vararam-te no corpo e não na força
e não importa o nome de quem eras
naquela tarde foste apenas corça
indefesa morrendo às mãos das feras.

Mas feras é demais.Apenas hienas
tão pútridas tão fétidas tão cães
que na sombra farejam as algemas
do nome agora morto que tu tens.

Morreste às mãos da tarde mas foi cedo.
Morreste porque não às mãos do medo
que a todos pôs calados e cativos.

Por essa tarde havemos de vingar-te
por essa morte havemos de cantar-te:
Para nós não há mortos. Só há vivos.

de Ary dos Santos
Gravura de José Dias Coelho(assassinado pela PIDE em 19.12.61),retratando o assassinato de Catarina Eufemia

segunda-feira, 31 de março de 2008

NONA SINFONIA


É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.

Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas sagradas impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.

De José Carlos Ary dos Santos

sábado, 8 de março de 2008

dia da mulher/BALADA A UMA VELHINHA


Num banco de jardim uma velhinha

está só com a sombrinha

que é o seu pano de fundo.

Num banco de jardim uma velhinha

está sózinha,não há coisa

mais triste neste mundo.

E apenas fez ternura,não fez pena

não fez dó,

pois tem no rosto um resto de

frescura.

Já coseu alpergatas e

bandeiras

verdadeiras.

Amargou a pobreza até ao fundo.

Dos ossos fez mesas e as

cadeiras,

as maneiras

que a fazem estar sentada sobre o

mundo.

No jardim ela

à trepadeira das canseiras

das rugas onde o tempo

é mais profundo.

Num banco de jardim uma velhinha

nunca mais estará sózinha,

o futuro está com ela,

e abrindo ao sol o negro da

sombrinha,poidinha,

o sol vem namorá-la da janela.

Se essa velhinha fosse

a mãe que eu quero,

a mãe que eu tinha,

não havia no mundo outra mais

bela.

Num banco de jardim uma velhinha

faz desenhos nas pedrinhas

que,afinal,são como eu.

Sabe que as dores que tem também

são minhas,

são moinhas do filho a desbravar

que Deus lhe deu.

E,em volta do seu banco,os

malmequeres e as andorinhas

provam que a minha mãe nunca

morreu.


De Ary dos Santos

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O POEMA ORIGINAL


Original é o poeta

que se origina a si mesmo

que numa sílaba é seta

noutra pasmo ou cataclismo

o que se atira ao poema

como se fosse ao abismo

e faz um filho às palavras

na cama do romantismo.

Original é o poeta

capaz de escrever em sismo.


Original é o poeta

de origem clara e comum

que sendo de toda a parte

não é de lugar algum.

O que gera a própria arte

na força de ser só um

por todos a quem a sorte

faz devorar em jejum.

Original é o poeta

que de todos for só um.


Original é o poeta

expulso do paraíso

por saber compreender

o que é o choro e o riso;

aquele que desce à rua

bebe copos quebra nozes

e ferra em quem tem juízo

versos brancos e ferozes.

Original é o poeta

que é gato de sete vozes.


Original é o poeta

que chega ao despudor

de escrever todos os dias

como se fizesse amor.


Esse que despe a poesia

como se fosse mulher

e nela emprenha a alegria

de ser um homem qualquer.


De Ary dos Santos

Imagem retirada de www.guia.heu.nona.br