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sábado, 11 de junho de 2011

SOBRE O CAMINHO

Nada.

Nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila
         dos pássaros
te dirão a palavra.

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença.

Não colecciones dejectos o teu destino és tu.

Despe-te
não há outro caminho.

De Eugénio de Andrade

quarta-feira, 4 de maio de 2011

AS ROSAS

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.

De Eugénio de Andrade
Fotografia de António Dias

segunda-feira, 21 de março de 2011

DESDE A AURORA

Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,

entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:

vai entrar o vento ou o violento
aroma duma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:

é tempo de colher:a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu,desde a aurora,
eu - a terra - que te procuro.

De Eugénio de Andrade

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

NA LUZ A PRUMO

Se as mãos pudessem (as tuas,
as minhas) rasgar o nevoeiro,
entrar na luz a prumo.
Se a voz viesse. Não uma qualquer:
a tua,e na manhã voasse.
E de júbilo cantasse.
Com as tuas mãos,e as minhas,
pudesse entrar no azul,qualquer
azul: o do mar,
o do céu,o da rasteirinha canção
de água corrente. E com elas subisse.
(A ave,as mãos,a voz.)
E fossem chama. Quase.

De Eugénio de Andrade

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

PALAVRAS

Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?

E das consoantes,que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?

Que lhes dirás,quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?

De Eugénio de Andrade
Ilustração retirada do blog "Oração e Trabalho"

domingo, 12 de setembro de 2010

FIM DE VERÃO

Há dias,há noites em que as águas se movem
lentas na minha memória.Movem-se?Daqui as vejo imóveis,com esse peso do verão sobre o corpo.Ninguém dirá que respiram,que não estão mortas,talvez corrompidas,pelo menos sufocadas pelas últimas poeiras,as mais cruéis.Contemplo-as,tão caladas na sua clausura - estremecidas águas! E tão expectantes,não à superfície,nas entranhas,nas suas raízes mais fundas,onde uma espécie de murmúrio se articula,modula na sombra,umas sílabas prenhes de silêncio se desprendem,rebentam à tona,ténues bolhas de ar,menos que suspiros ainda.Como esquecê-las ?

De Eugénio de Andrade
Fotografia em http://acasadopoeta.zip.net/

sexta-feira, 2 de julho de 2010

LAMENTO DE LUÍS DE CAMÕES NA MORTE DE ANTÓNIO,SEU ESCRAVO

    ... viveu em tanta pobreza,que se não tivera
    um jau,chamado António,que da Índia trouxe,
    que de noite pedia esmola para o ajudar a
    sustentar,não pudera aturar a vida.
    Como se viu,tanto que o jau morreu,
     não durará ele muitos meses.
     Pedro de Mariz

Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um.

- eu vi a terra limpa no teu rosto,
só no teu rosto e nunca em mais nenhum.

De Eugénio de Andrade

domingo, 6 de junho de 2010

UM NOME

Di-lo-ei pela cor dos teus olhos,
pela luz
onde me deito;
di-lo-ei pelo ódio,pelo amor
com que toquei as pedras nuas,
por uns passos verdes de ternura,
pelas adelfas,
quando as adelfas nestas ruas
podem saber a morte;
pelo mar
azul,
azul-cantábrico,azul-bilbau,
quando amanhece;
di-lo-ei pelo sangue
violado
e limpo e inocente;
por uma árvore,
uma só árvore,di-lo-ei:
Guernica!

De Eugénio de Andrade

terça-feira, 23 de março de 2010

PROCURO-TE

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh,a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e um corpo estendido.

Procuro-te:fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti,e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes de a morte se aproximar,procuro-te.
Nas ruas,nos barcos,na cama,
com amor,com ódio,ao sol,à chuva,
de noite,de dia,triste,alegre - procuro-te.

De Eugénio de Andrade

domingo, 24 de janeiro de 2010

HARMONIA DO MUNDO



Canta no quintal do vizinho,o galo.
Tu e ele fazem parte da mesma harmonia,são irmãos nessa fome de viver. A vida tem uma só expressão,essa onde o galo canta,essa onde tu o escutas comovido,sabendo que a noite não o pode conter.
É este comércio subtil de lábios e fontes,este coral de sapos e ralos,que não pode morrer,mesmo que um dia o galo deixe de cantar,ou tu de o ouvir,meu querido Horácio.

De Eugénio de Andrade

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

BOULEVARD DELESSERT

Quando vivia em Paris,certa manhã fui despertado por três ou quatro pombos a bicar a vidraça da janela.Fui abrir,e um deles mais afoito entrava para o meu quarto,enquanto eu ia à cozinha procurar qualquer coisa para lhe dar.Enchi uma tijela de arroz,na esperança de o encontrar,embora não tivesse fechado a janela.Lá estava ainda,para minha alegria.Experimentei dar-lhe os grãos na mão,aceitou,e a sua confiança tornou-me também confiante.Quando saí,dei os bons dias à porteira com voz clara e fiz uma festa nos cabelos a um garoto vesgo e feio,que podia ser filho do Sartre,mas que seria neto dela,ou afilhado,já não me lembro.Regressei a casa,depois de comprar milho,pensando no meu visitante matinal.O meu pombo voltou,e durante uma semana vivemos um pequeno idílio feito de trocas simples:eu dava-lhe a mão-cheia de milho,ele deixava-me o excremento no peitoril da janela - não era nada do outro mundo,mas a dona da casa não gostava.Achava aquela relação anormal(talvez preferisse ser ela a receber o milho,matinalmente),e não deixou de mo fazer sentir.Nessa mesma noite deve ter acendido uma vela a Santo António de que era devota,e pedido com fervor a sua intervenção,porque na manhã seguinte o pombo não apareceu.Nem em nenhuma outra das que se lhe seguiram.
Não voltei a Paris,cidade que detesto.


De Eugénio de Andrade(29.12.85)

sábado, 28 de novembro de 2009

CHUVA



É quando a chuva cai,é quando
olhado devagar que brilha o corpo.
Para dizê-lo a boca é muito pouco,
era preciso que também as mãos
vissem esse brilho e o dissessem
a quem passa na rua,e cantassem.
Todas as palavras falam desse lume,
sabem à pele dessa luz molhada.

De Eugénio de Andrade

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

LISBOA


Esta névoa sobre a cidade,o rio,

as gaivotas doutros dias,barcos,gente

apressada ou com o tempo todo para perder,

esta névoa onde começa a luz de Lisboa,

rosa e limão sobre o Tejo,esta luz de água,

nada mais quero de degrau em degrau.


De Eugénio de Andrade

sábado, 3 de outubro de 2009

O OLHAR...


A claridade coroa-se de cinza,eu sei:
é sempre a tremer que levo o sol à boca.

O olhar desprende-se,cai de maduro.
Não sei que fazer de um olhar
que sobeja na árvore,
que fazer desse ardor

que sobra na boca,
no chão aguarda subir à nascente.
Não sei que destino é o da luz,
mas seja qual for

é o mesmo do olhar:há nele
uma poeira fraterna,
uma dor retardada,alguma sombra
fremente ainda

de calhandra assustada.

De Eugénio de Andrade

domingo, 6 de setembro de 2009

SEI DE UMA PEDRA


Sei de uma pedra onde me sentar

à sombra de setembro

e vou falar dos girassóis,

essa flor quase de areia

que ombro a ombro com o sol

faz do peso da solidão

o ardor

e a glória dos grandes dias de verão.


De Eugénio de Andrade

Fotografia retirada de "floresnaweb"

domingo, 26 de julho de 2009

O MAR


O mar. O mar novamente à minha porta.
Vi-o pela primeira vez nos olhos
de minha mãe,onda após onda,
perfeito e calmo depois,
contra as falésias,já sem bridas.
Com ele nos braços,quanta,
quanta noite dormira,
ou ficara acordado ouvindo
seu coração de vidro bater no escuro,
até a estrela do pastor
atravessar a noite talhada a pique
sobre o meu peito.
Este mar,que de tão longe me chama,
que levou na ressaca,além dos meus navios?
De Eugénio de Andrade
Fotografia de JR

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O PESO DA SOMBRA


Atravessara o verão para te ver

dormir,e trazia doutros lugares

um sol de trigo na pupila;

às vezes a luz demora-se

em mãos fatigadas; não sei em qual

de nós explodiu uma súbita

juventude,ou cantava:

era mais fresco o ar.

Quem canta no verão espera ver o mar.


De Eugénio de Andrade
Fotografia retirada de botecoliterario.wordpress.com

domingo, 10 de maio de 2009

VERÃO SOBRE O CORPO


...
Entre os amieiros escondíamos a roupa e nus os olhos caíam sobre a tímida erecção o sexo ladeado já por uma sombra leve e crespa diáfano labirinto dos dedos corríamos pela relva assim os cães se perseguiam se lambem uns aos outros caíamos sobre a boca entre as pernas um rumor de saliva uma áspera doçura pois era o tempo dos medronhos.

Entre a poeira que o rebanho levanta,onde vais,meu ténue rapazinho,o coração de águas estreitas,um pássaro que o costil estrangulou ainda quente por dentro da camisa..

Como se houvesse um incêndio de giestas para atravessar,eu não dormia.
....

excertos de Eugénio de Andrade

segunda-feira, 9 de março de 2009

CORPO


É quando a chuva cai,é quando
olhado devagar que brilha o corpo.
Para dizê-lo a boca é muito pouco,
era preciso que também as mãos
vissem esse brilho e o dissessem
a quem passa na rua,e cantassem.
Todas as palavras falam desse lume,
sabem à pele dessa luz molhada.
De Eugénio de Andrade
Pintura de Bonfanti Maurizio(2007)

domingo, 15 de fevereiro de 2009

É ASSIM


É assim:
a gente despede-se,vai-se
embora amaldiçoando a terra,
carrega amargura que nem o diabo
aguenta; com o tempo vai
esquecendo injustiças,mágoas,
injúrias,morrendo por regressar
ao cheiro da palha seca,ao calor
animal do estábulo,
ao sonho do quintalório
com três alqueires de milho ao sol
e dois pinheiros bravos - -
porque não há no mundo
outro lugar onde
enfim dê tanto gosto chafurdar.
De Eugénio de Andrade