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sábado, 17 de janeiro de 2009

AS AMORAS


O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente,nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país,talvez
nem goste dele,mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
De Eugénio de Andrade

domingo, 4 de janeiro de 2009

RESÍDUOS DO CORPO


De ti ficam as aves,
o rumor
de arderem altas;
ficam as águas,
à tona
a clara sombra
onde pousaram lábios;
fica o outono,
desatado beijo a beijo
sobre a palha;
ficam as nuvens,
a sede ainda
de um ramo de coral.
De Eugénio de Andrade

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

EM MEMÓRIA DE CHICO MENDES


Chegam notícias do Brasil,o Chico

Mendes foi assassinado,a morte

enrola-se agora nos primeiros frios,

nem sequer a tristeza tem sentido,

a bola continua em órbita,um dia

estoira,o universo ficará mais limpo.


De Eugénio de Andrade

Fotografia de Carlos Ruggi/se

terça-feira, 4 de novembro de 2008

LÍNGUA DOS VERSOS


Língua;

língua de fala;

língua recebida lábio

a lábio; beijo

ou sílaba;

clara,leve,limpa;

língua

da água,da terra,da cal;

materna casa da alegria

e da mágoa;

dança do sol e do sal;

língua em que escrevo;

ou antes: falo.


De Eugénio de Andrade

Fotografia de amp

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

ARTE DOS VERSOS


Toda a ciência está aqui,
na maneira como esta mulher
dos arredores de Cantão,
ou dos campos de Alpedrinha,
rega quatro ou cinco leiras
de couves:mão certeira
com a água,
intimidade com a terra,
empenho do coração.
Assim se faz o poema.

De Eugénio de Andrade

domingo, 28 de setembro de 2008

LUGARES DO OUTONO


Outono,labirinto de silvas,
de sílabas,digo: pupila lenta,
rio de inumeráveis águas
e de amieiros onde canta
a derradeira luz das cigarras,
de vidro ainda,e leve, e branca.

De Eugénio de Andrade
Fotografia retirada de lua.weblog.pt

quinta-feira, 10 de julho de 2008

SOBRE OUTROS LÁBIOS


Eu crescia para o verão.

Para a água

antiquíssima da cal

crescia violento e nu.


Podiam ver-me crescer

rente ao vento,

podiam ver-me em flor,

exasperado e puro.


À beira do silêncio,

eu crescia para o ardor

calcinado dos cardos

e da sede.


Morre-se agora

entre contínuas chuvas,

os lábios só lembrados

de um verão sobre outros lábios.


De Eugénio de Andrade

Imagem retirada do blog A ESSÊNCIA DAS COISAS

sexta-feira, 27 de junho de 2008

RUPTURA


A noite fende --

o silêncio

escorre do muro.

De quanto os dedos

lembram ainda,

só o vento respira.


Já a minúscula

língua da erva

chama pela neve.


O silêncio

é o meu domínio:

a terra é leve.


De Eugénio de Andrade

segunda-feira, 16 de junho de 2008

HARMÓNIO


Como ladrão ou mulher

pública: vens de noite.

Trazes o harmónio,

a masculina

música roubada às fontes.

Não te esperava;só uma vez

te esperei tremendo de amor:

eu era tão pequeno

que não me viste.

Nem uma palavra ousas;

só os olhos suplicam que te roube

à morte,que devolva ao sol

a modesta desordem dos teus dias.

Que escute ao menos a pobre

e rouca e desamparada

música do teu pequeno harmónio.


De Eugénio de Andrade

sexta-feira, 23 de maio de 2008

DESDE A AURORA

Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,

entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:

vai entrar o vento ou o violento
aroma duma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:

é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu,desde a aurora,
eu - a terra - que te procuro.

terça-feira, 22 de abril de 2008

A PEQUENA PÁTRIA


A pequena pátria;a do pão;
a da água;
a da ternura,tanta vez
envergonhada;
a de nenhum orgulho nem humildade;
a que não cercava de muros
o jardim nem roubava
aos olhos o desajeitado voo
das cegonhas; a do cheiro quente
e acidulado da urina
dos cavalos; a dos amieiros
à sombra onde aprendi
que o sexo se compartilhava;
a pequena pátria da alma e do estrume
suculento morno mole;
a da flor múltipla e tão amada
do girassol.

De Eugénio de Andrade

sexta-feira, 21 de março de 2008

DIA MUNDIAL DA POESIA/ANUNCIAÇÃO DA PRIMAVERA


São as primeiras frésias do ano:

vieram da Holanda

para que a primavera entrasse

em janeiro pela casa dentro.

Com seu aroma e o vento solar

farei o lume,

farei o lume onde aquecer as mãos

e de chama em chama regressar

às oliveiras do sul lentas e claras,

ao azul estendido nas pedras nuas

da Cantareira,

aos pardais ardendo nos ramos

do crepúsculo com a luz derradeira.


De Eugénio de Andrade

Pintura "La Primavera" de Botticelli

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

APRENDIZAGEM DA POESIA


Durou muitos anos,aquele verão.

Crescíamos sem pressa com o trigo

e as abelhas. Com o sol

corríamos para a água,à noite

num verso de Shakespeare ou

na nossa boca uma estrela dançava.

Aprendíamos a amar,aprendíamos

a morrer. A todos os sentidos

pedíamos para escutar o rumor,

não do mundo,que ninguém abarca,

apenas da brancura duma folha

e outra folha ainda de papel.


De Eugénio de Andrade

Tela de Van Gogh