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segunda-feira, 11 de abril de 2011

A MORTE DE CALAR

As viagens que sou prenderam-se em redomas
Ao corpo das palavras.À morte de calar.
Do alfabeto meu ignoro as cristalinas
Formas de aladas letras nestes versos finais.
São fantasmas de sol.São fantasmas de sede
Que chegam alta noite para nenhum lugar.

Decifro nas entranhas das trevas migradoras
O solstício da vida além da morte clara.
Mas quem me vem cegar,com setas voadoras,
Nega-me agora a paz das secretas paisagens.

Meus Irmãos de astronaves,guiadas por um morto,
Que me esperam e estão,que me cantam e falam.
Que na vazia Cruz crucificam meu corpo
E abandonam a flor,mesmo a meio da sala.
À janela rasgada,para as cinzentas águas,
Encostam-me,sem olhos,e deixam-me ficar.

       Não tenho nada mais a escrever sobre as ondas.
       E,mesmo que tivesse,ninguém leria o Mar.

De Natércia Freire

segunda-feira, 1 de março de 2010

COMO OS LOBOS

 
Fujo dos homens
Como os lobos fogem
          E não me sinto lobo.

Escondo-me em fojos
Como os lobos fazem
          E não me sinto lobo.

Ergo à Lua o meu uivo angustiado
           E não me sinto lobo.

Os meus ouvidos outros
Ouvem queixas
De lobos espectrais.
E não me sinto lobo.

Alvejaram-me a tiro
Entre os olhos leais
E não me sinto lobo.

Se estoiro como o lobo
Que também tem um astro
Repercutindo ânsias solitárias
Terríveis e humildes
Em esferas mudas várias
Deixo um rastro de sangue
Um invisível pasto
A vampiros humanos.

E assim na morte vamos
Lobos,irmãos,iguais.

De Natércia Freire

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

COMEM DE NOITE



Comem de noite pelos caixotes.
Comem de noite.
Grandes famílias,sob capotes
Que são açoites.

             Sob capotes de chuva e pranto,
             Pátrias perdidas.
             Chave na porta,a cama à espera,
             A fuga à terra das suas vidas.

Cumpriram sonhos e não mataram.
Cruzaram sangues e não traíram.
Filhos de humildes embarcações
Árvores soltas de Áfricas vivas.

               Quem corta fitas de liberdade
               A sua gruda em fundos poços.
               Sumam-se contas de ambiguidade:
               Milhares de mortes,milhões de ossos.

Antes que o tempo cobre a verdade
Crescem as teias entre as aranhas.

                E muitos comem pelos caixotes
                Enquanto engordam estranhas espanhas.


De Natércia Freire

sábado, 7 de novembro de 2009

NADA MAIS


Não há mais que inventar.
Não há mais que dizer.
A sintaxe está gasta.
As imagens estão gastas.
Mesmo a Morte está gasta
E todos os poetas
O deviam saber.

A moral está já gasta.
Gasta a anormalidade,
E a imoralidade,
E a amoralidade.

Gastos os sentimentos
E todos os tormentos,
Mais os grandes amores
E todos os pavores.
Gastos rios e serras,
Mais os erros das guerras.
Gasta a Ciência e a Arte.

Gastos,lutos,enterros,
Cemitérios,jazigos,
Lágrimas,desesperos,
Sacrilégios e perigos,
Crimes,roubos e monstros,
Lirismos e fardins,
Naufrágios,terramotos
E o dilúvio do Fim,
Planetas e vigílias
De mortes pressentidas,
Mais o amor das famílias,
Gastas todas as vidas!

Que tudo está já gasto
Porque morreste um dia.
Porque à tua paixão
Opuseram traição.
Aos teus braços de mel
Só opuseram fel.
Ao teu canto,ao teu riso
De ave do Paraíso,
Opuseram cegueiras,
-  Monte das Oliveiras!


E se à minha paixão
Opuserem traição;
Se ao meu canto,aos meus risos,
Negarem Paraísos,
E cegarem meus olhos
Com pedradas certeiras,
Foi bem mais triste o teu
Monte das Oliveiras.
Todo o futuro é gasto
Porque morreste um dia.


Procurar-te,é bem pouco.
Achar-te,era demais.
Em mim,em qualquer ponto,
Te escondes e te esvais...


De Natércia Freire


terça-feira, 6 de outubro de 2009

PRESENÇA DE ULISSES


...
- Procuro-te porque os Poetas não gostam de encontrar.
São poetas porque a Poesia lhes foge. Foge,Ulisses.Procuro-te,Poesia.
De Natércia Freire

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A MULTIDÃO DAS SOMBRAS


A multidão das sombras
As hostes das visões
Computadores cruéis
Mais os homens robots
Instalaram nos lares
Ouvidos espiões.
Em corações de corda
Em frios corações
Deitaram a paixão.
- Trituram as paixões.
Mas o massacre aguarda
As ordens implacáveis.
De Natércia Freire
Fotografia de dnmatos.blogspot.com

domingo, 2 de agosto de 2009

A CASA


A Casa. Há-de o meu ser
Afeiçoar-se à Casa.
Como a pedra ao escultor,
A palavra ao poeta.
Nos silêncios,no escuro,
Nos sonos e nos sonhos,
Sugada pela casa,
Estarei presente em tudo.

Os recados de luz,
Os contos de Chopin,
Recolhem-me no espaço,
Adejam-me sem data.

Um murmúrio de amor
Saltita na penumbra
Das vozes juvenis.
Junto do toucador
Há uma tarde feliz.

Espreito as sombras na hora
Em que a Casa é deserta
Alguém deixou no Tempo
A grande porta aberta...

O mármore,a madeira,
As flores,a terra,a água,
O pássaro cantor e as lanternas
Da escada,
Houve um dia em que sim,
Nasceram e ficaram
Como quem abre a luz
Numa sala arrumada.

A Casa vê o Tejo.
Debruça-se à varanda,
Quer-me levar consigo...

Não sou fácil nem mansa.

De Natércia Freire

sábado, 13 de junho de 2009

GEOMETRIA


Daria,
Por teus planos de cor e de agonia,
Minha suspensa,abstracta geometria,
Que me canta nas veias noite e dia.
Em troca,
Nada mais do que o deserto.
Mas deserto de luz ao longe e ao perto,
Entre sulcos de neve e céu aberto,
Entre o meu desacerto e o meu acerto...
En troca,as formas ágeis,diluídas,
Entre a memória e a história de outras vidas,
Entre a saudade e a dor adormecidas,
A correr sobre faces esbatidas...
Em troca,pouco mais do que o regresso
Às salas onde em espectro me conheço,
Aos campos e às igrejas do começo,
Às naves voadoras do silêncio.
Em troca
Do absurdo onde me quis,
Incompleta,confusa e infeliz,
E viajante amável de um país
De fantasmas e deuses navegantes.
Em troca
Do infinito que se afunda
E se perde num escuro sem penumbra,
E que ninguém,nem tu,poderás dar-me,
Toca!, campainhas de alarme,
Cristais,de luz e cor
Riscando os ares!
Esse é o Mundo!
- O perdido,impossível,morto Mundo,
Pelo qual te daria
Minha suspensa,abstracta geometria,
Que me golpeia as veias noite e dia.
De Natércia Freire

terça-feira, 5 de maio de 2009

AVISO AO POETA


Não procures o eterno,
O eterno sol,
Mas procura reter asa e momento.
Não o que volve em pulsação cansada,
Mas o que é nunca em vastidão e nada.

Não procures reter a mão estendida
Mas a que esconde a incógnita penumbra.
Chama as Irmãs da Morte
Como chamasses por Irmãs na Vida.
Tu sabes do Aviso que te envolve.

Tu sabes - ou não sabes? - dessa Grécia
Onde te deram a beber cicuta?
Tu sabes - ou não sabes? - da permuta
Entre o preço das auras e do pó?
Tu sabes o que viste e o que escolheste?
Tu sabes. E andas tonta,como a pomba
No altar do sacrifício a querer voar.
Tu sabes o que queres saber de mais
E conheces a próxima Estação.

Tu sabes tudo. E finges
Como a Esfinge
Que dormes o mistério do Deserto
E a dormir viverás.

Tu sabes o que viste e o que escolheste.
Tu te sabes. E sabes que morreste
E morrias em paz.


De Natércia Freire

quarta-feira, 25 de março de 2009

OS ENJEITADOS


Carregando os caixões nos magros ombros

Enterrando na polpa das montanhas

Os tornozelos de aço,

Rasgando no ar fino agudas frestas

Caminham lentamente os enjeitados.


Escasseia-lhes emprego nas florestas

Nas bancas da cidade revoluta

E transportam a morte com cuidado.


Os pais ocultam-se em locais limites.

Levam aos ombros mitos sem limites

Com seus nomes em cera desenhados.


Ao pôr do sol escutaram a chamada

Que vinha sempre errada.

E sentaram-se à mesa num lugar

Entre desconhecidos e estrangeiros.


Vinha um sopro de lar

De uma língua de tempos derradeiros.


Os silêncios depois cavaram vales.

As margens sepultaram os seus leitos.

Escalaram as montanhas sem vontade.

Fabricaram metralha no seu peito.

Pediram filhos a planetas mortos.

Dormiram com saudades mutiladas.


Beberam sonhos pelo mesmo copo.

Fugiram das cidades em partilha.

Deram as mãos.Sentaram-se a chorar

No choro de uma ilha.


Chove-lhes fogo em dias de criança.

Chove-lhes fel em dias ensombrados.

Jovem povo sem esperança

Desde o ventre da mãe,os enjeitados.


Ocupados no mapa das viagens,

Exaltados no tempo de ir a Marte.

Todos heróis,políticos e pajens

De Herodes e Medeia,

Abrem os pais as veias.


No ar,jorra em cadeias de cadência,

O sangue colectivo de uma ausência.


De Natércia Freire

Fotografia de autor desconhecido:Roda dos Expostos ou Enjeitados,no Poço de Borratém

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

CREPÚSCULO


Uma pátria de angústia
No lento anoitecer
Coroa o dia álgido
No verão de ardentes sóis.
Vão morrer os heróis.
A voz crepuscular
Dos campos e das ondas
Agoniza comigo.
E promete e promete
Imensas alquimias
Em braços de outros Dias.
Em bocas de outro Mar
Os deuses vão voltar.
Há quanto tempo eu estou
Marcada a fogo e ferro
Na paz do meu desterro
Na morte sem enterro.
Oiço-te,Mãe,na bruma
Tangendo às nossas filhas
Um instrumento de espuma
Forrado a sumaúma...
E ele,o meu ser de gelo,
O meu senhor de frio,
Amarra-me o cabelo
Aos flancos do navio.
De Natércia Freire
Fotografia de www.photocart.com

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O MUNDO QUE DEUS CRIOU


"O ideal português no mundo é o ideal do Mundo",Fernando Sylvan,escritor timorense,em sua homenagem


Se do choro das crianças

Ao coração trespassado por lanças,

Ai,por mais lanças

Que uma seara de agonia

E de gritos soluçados,

Aqui chegasse a infinita

Múrmura Noite de Morte

Ressuscitando nas vidas

Que sonham de olhos fechados

Em português se ouviria

O coro dos enjeitados.

Ai,meninos,como Anjos

Sonhando de olhos fechados.

E as noites se volvem dias

E os dias se volvem noites.

E a matar se fecham curvas

Nas ramadas entrançadas

De tanta dor,sangue e sede

De tanta dor,sangue e fome.

Nas promessas de verdade

Mulheres gemem em surdina

E o seu tormento se evade

Em brancos lutos,saudade,

De luas a gotejar sangue

(E o sangue como lume

É da cor do luar).

Vem do inferno entre gumes

Em prantos se desfaz

Vem do mistério entre lumes

Que apagam Amor e paz

Vem do inferno entre gumes

E em ruínas se desfaz


É mais uma voz que implora

A paz numa luz sem véus.

Parou o mundo? Parou,

O Mundo que Deus criou?


De Natércia Freire

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

CANÇÃO DO VERDADEIRO ABANDONO


Podem todos rir de mim,
Podem correr-me à pedrada,
Podem espreitar-me à janela
E ter a porta fechada.

Com palavras de ilusão
Não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
Não tem vislumbres de além.

Não sou irmã das estrelas,
Nem das pombas,nem dos astros.
Tenho uma dor consciente
De bicho que sofre as pedras
E se desloca de rastos.

De Natércia Freire
Gravura de Oswaldo Goeldi

terça-feira, 18 de novembro de 2008

NADA QUE TIVE ERA MEU


Nada que tive era meu.
Perdi estradas,perdi leito.
Na pedra onde me deito
Nada fala de alvos linhos.
Se,com cegos,me aventuro,
A caminhar rente aos muros,
É que meus olhos impuros
Sonham Cristo nos caminhos.

Nada que tive era meu
E o corpo não quero eu.
Podia servir de embalo,
Mas serve de sepultura.

Cemitério de asas finas,
Tange e plange aladas crinas,
Canto de praias sulinas
De infinitas amarguras...

De Natércia Freire
Pintura de Dali

domingo, 12 de outubro de 2008

ASSIM


Assim por muito mais e muito menos
Assim por heroísmo e cobardia.
Assim a tarde a noite no momento,
Assim pensar em mim quando vivias.

Assim os dedos longos nos cabelos
Dos mortos abraçados e cativos.
Assim esta miséria de estar viva
E não saber estar viva quando vivo.

Assim nas brancas árvores o tempo
Assim ter acabado o meu destino
E ler-me noutros versos,noutros nomes,
Assim desconhecer onde habito.

Assim por muito mais e muito menos
Se acaba,em vida,a vida ao suicida.

Assim por ser a hora mais cinzenta,
O desamparo assim da minha vida.

De Natércia Freire
Fotografia retirada de anomalias.weblog.com.pt

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

IMPROVISO


"Uma rosa depois da neve,

Não sei que fazer

de uma rosa no inverno.

Se não for para arder,

ser rosa no inverno de que serve?"

EUGÉNIO DE ANDRADE


A rosa é sempre a mensagem,

O fogo é sempre a viagem

Dos braços abrasados na miragem

Do calor de ocultos véus


Poeta!Poeta em astros

De altos lumes

De altos mastros

Lembranças de lumes castos

E de perfumadas bodas

Em teatros saudosos

Eternos bailes de roda...


Na sonhada perfeição

Dos leitos que a noite embala

Nos seus véus

De ocultos sagrados rios

Rios de amor ocultados

Na paixão dos bem-amados


Água,Luz.Murmúrio a dois,

No olhar adormecido.

Luz de um céu imaginado

No presente,no passado

Água,voz,canção de sóis.


De Natércia Freire

domingo, 8 de junho de 2008

SANTA MARIA LA BLANCA


Santa Maria La Blanca

Da Catedral de Toledo:

Que bem aqui ficarias

Debruçada no presépio,

Com o teu arzinho de névoa,

De mistério e de segredo,

Santa Maria La Blanca

Da Catedral de Toledo.


Soçobrava,ao sol da tarde,

El Tajo de corpo fino.

Corre o Tejo aqui à beira.

Vós não teríeis saudades,

Virgem Branca e meu menino.

Soçobrava,ao sol da tarde,

El Tajo de corpo fino.


Cantavam pássaros loucos

No claustro da catedral.

Também eu te cantaria,

Por seres a Virgem Maria

E ser noite de Natal.

Cantavam pássaros loucos

No claustro da catedral!


Com teu arzinho de névoa

Podias mostrar-te ao Mundo.

Com teus dedos de água pura

Podias banhar o Mundo,

Iluminar com teus passos

Os pinhais de todo o Mundo

Nesta noite de Natal.

Trazer o Reino dos Céus

Para os caminhos do Mundo

Porque os homens vão matar

O teu menino,no Mundo!


Porque esperas,Virgem Branca,

Da Catedral de Toledo?!

Porque sorris,Virgem Branca!?

Não sabes? Mataste o Medo?

Gabriel não disse tudo?

Para a Dor inda era cedo...

Mas que névoa no teu ar

De mistério e de segredo,

Santa Maria Blanca

Da Catedral de Toledo.


De Natércia Freire

sexta-feira, 9 de maio de 2008

OS INSTRUMENTOS


Desapareceram os símbolos das cidades.
Os instrumentos dos símbolos ainda não desapareceram.

É possível que,de repente,de leste a oeste,de oriente a ocidente,
Nas paredes,no ar,no solo,nos canteiros,
Nos velhos troncos de árvores,
Nos jogos de água viva,

Nas mudas bibliotecas,em livros esquecidos,
Nos palcos dos teatros,nas eléctricas luzes,
Nas orquestras sem pátria dos músicos planetas,

Se revelem sinais,locais de Ásias secretas.

Mas da cegueira à paz,vão ângulos de som.
Os vértices de amor,oscilam ténues fumos.

Os símbolos são homens,esventrados em explosões,
São Osíris dispersos.Deuses em negros versos.
Dos olhos sem retinas - que já todos desvelam,
Dos gestos essenciais - pelos quais todos choram,

Se compõe esta frente em marcha silenciosa,
De esotéricas vidas e histórias demolidas.

De superfícies brancas em sinfonias brancas,
De surdos e de loucos,orquestradas nas ondas.

Bronzes de águas abertas,nas cascatas libertas,
Dos países do Ar para os dias de Sombra.

Por visitar a Lua recebe-se a Loucura.
Por visitar a Luz,recebe-se a cegueira.

É preciso dormir como quem apodrece
E sossegar no pó,sem pena de ser só.

De Natércia Freire
Pintura de Rubens (O rapto da Europa)

sexta-feira, 11 de abril de 2008

DENTRO DOS POEMAS DE GARCIA LORCA


As mulheres de negro
Estão a olhar a forca...
Eu sou as mulheres
Dentro dos poemas
De Garcia Lorca.

Sou um tempo ambíguo
De misérias frouxas,
De fuligem,teias
E de feridas roxas.

Sou um tempo amargo
De terríveis vidas.
Cabem-me os terrores
E as asas partidas.

Sou um tempo escravo
De combinações.
Retratos de monstros,
Armam as visões.

Sou um tempo
Que não 'stá no Tempo.
Língua de água e fumo,
Solidão no vento.

Sou um tempo eterno
Que se volve Inferno
- Para além,eterno,
- Para aquém,eterno.
E dentro do tempo
Que ladeia a Vida,
Sou um tempo enfermo
De alma destruída...

Ai que lindos versos
Que aos poetas vêm!
Vão calçar-se de oiro,
Vão vestir-se bem.

Vão brincar cabeças
De outros animais.
E serão algozes
E serão ferozes
Como canibais...

De NATÉRCIA FREIRE

sexta-feira, 28 de março de 2008

AGIOTAS




Tempo de compras e vendas,

Tempo de vendas e compras.

Ai perfil, tempo de lendas

Ai Tempo, perfil de sombras.


As vendas dão suas rendas.

As rendas dão suas compras.

E o que se compra com lendas

Vende-se em somas redondas.


Lembra-te Morte das vendas

Das ofertas que não compras

Abre as cortinas. Arreda

Tuas clareiras sem sombras.


Por um espaço que desvendas.

Pelas misérias que sondas

Nos crimes dos camaradas

Que assinam, por sobre as ondas

Do amor,fuzilamentos,

Deportações, hediondas

Assinaturas de vendas

Ao preço de suas compras.


Pois que dormes,não acordas.

Mas se acordas,não entendas

O longo soar das cordas

O longo fluir das lendas.


Pois se entendes,paira em sombras.

Pois se os entendes, não vendas

À poesia de imaturos

A poesia dos mais puros.

Pois se os entendes, não vendas

Aos irmãos dos assassinos,

A poesia dos meninos.


Ó Morte que és imortal

E tens um reino sem Tempo

E separas a verdade

Da mentira a fogo lento,

Tu que segues fascinada

Os dias aventureiros,

Te deitas com os amantes

E com os santos primeiros,

Tu que possuis, possuída

Pela vida a tua morte,

Pela morte a tua vida,

Traça,no ar, os sinais

Dessas fugazes histórias,

Esconjura, ao som de metais,

Vermes,vómitos,vitórias

Desses anões ancestrais

Mercadores de velhos cais

Mas marinheiros jamais!


Agiotas,agiotas.



Fotografia de NILTON PAVIN