quarta-feira, 14 de novembro de 2007

MANHÃ


- Bom dia. Diz-me um guarda.

Eu não ouço...apenas olho

das chaves o grande molho

parindo um riso na farda.


Vómito insuportável de ironia

Bom dia, porquê bom dia?


Olhe,senhor guarda

(no fundo a minha boca rugia)

aqui é noite,ninguém mora,

deite esse bom dia lá fora

porque lá fora é que é dia!


De LUÍS VEIGA LEITÃO,in NOITE DE PEDRA


terça-feira, 13 de novembro de 2007

OLHE AQUI,MR.BUSTER...


Este poema é dedicado a um americano

simpático,extrovertido e podre de rico,

em cuja casa estive poucos dias antes

da minha volta ao Brasil,depois de

cinco anos de Los Angeles,E.U.A.

Mr.Buster não podia compreender como é

que eu,tendo ainda o direito de permanecer

mais um ano na Califórnia,preferia,com

grande prejuízo financeiro,voltar para a

"Latin America",como dizia ele.

Eis aqui a explicação,que Mr.Buster certamente

não receberá,a não ser que esteja morto e esse

negócio de espiritismo funcione.

Olhe aqui,Mr.Buster:está muito certo

Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.

Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue

O Sr. tenha um casaco de friso do Partenon,e no quintal de sua casa em Hollywood

Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insónia.

Está muito certo que em ambas as residências

O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial

Por muitos anos a vir,e vacuum-cleaners com mais chupo

Que um beijo de Marilyn Monroe,e máquinas de lavar

Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto

tanto dinheiro em vão na guerra da Coreia.

Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas

E suas portas se abram com célula fotoeléctica.Está muito certo

Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filme de mocinho

Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi

Com alto-falantes espalhados por todos os andares inclusive nos banheiros

Está muito certo que a SrªBuster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell

E tenha dois psiquiatras:um em Nova Iorque,outro em Los Angeles,para as duas estações do ano.

Está muito certo,Mr.Buster - o Sr.ainda acabará governador do seu Estado

E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo,aço e consciências enlatadas.

Mas me diga sinceramente uma coisa,Mr.Buster:

O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?

O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?

O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?


De VINICIUS DE MORAES

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

O POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos.

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos.

De ALEXANDRE O'NEILL,in ABANDONO VIGIADO

A MEU FALECIDO IRMÃO MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE


Meu sacana de versos!Meu vadio.

Fazes falta ao Rossio.Falta ao Nicola.

Lisboa é uma sargeta.É um vazio.

E é raro o poeta que entre nós faz escola.


Mastigam ruminando o desafio.

São uns merdosos que nos pedem esmola.

Aos vinte anos cheiram a bafio

têm joanetes culturais na tola.


Que diria Camões nosso padrinho

ou o Primo Fernando que acarinho

como Pessoa viva à cabeceira?


O que me vale é que não estou sozinho

ainda se encontram alguns pés de linho

crescendo não sei como na estrumeira!


De JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS,in OBRA POÉTICA

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

NÃO


Não formar nenhuma ideia
Do que somos ou seremos
Mas entre as vozes que fogem
Precisar o que dizemos.
Dormir sonos ante-céus
Abismos que são infernos.
Dormir em paz.Dormir em paz,
Enfim a nota segura.
Lembrar pessoas e dias
Que me penetraram no espaço
De eventos primaveris.
E dar a mão aos espectros
Beijá-los lendas,perfis.
Amar a sombra,a penumbra
Correr janelas e véus.
Saber que nada é verdade.
Dizer amor ao deserto
Abraçar quem nos ignora
Dormir com quem não nos vê
Mas precisar do calor
De quem nunca nos encontra.

De NATÉRCIA FREIRE,in ANTOLOGIA POÉTICA

terça-feira, 6 de novembro de 2007

CAPITAL


Casas,carros,casas,casos.
Capital
encarcerada.
Colos,calos,cuspo,caspa.
Cautos,castas.Calvas,cabras.
Casos,casos...Carros,casa...
Capital
acumulado.
E capuzes.E capotas.
E que pêsames!Que passos!
Em que pensas?Como passas?
Capitães.E capatazes.
E cartazes.Que patadas!
E que chaves!Cofres,caixas...
Capital
acautelado.
Cascos,coxas,queixos,cornos.
Os capazes.Os capados.
Corpos.Corvos.Copos,copos.
Capital,
oh capital,
capital
decapitada!

De DAVID MOURÃO FERREIRA,in OS QUATRO CANTOS DO TEMPO

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

A QUE MORREU ÀS PORTAS DE MADRID


A que morreu às portas de Madrid,
com uma praga na boca
e a espingarda na mão,
teve a sorte que quis,
teve o fim que escolheu.
Nunca,passiva e aterrada,ela rezou.
E antes de flor,foi,como tantas,pomo.
Ninguém a virgindade lhe roubou
depois de um saque-antes a deu
a quem lha desejou,
na lama dum reduto,
sem náuseas,mas sem cio,
sob a manta comum,
a pretexto do frio.

Não quis na retaguarda aligeirar
entre champanhe,aos generais senis,
as horas de lazer.
Não quis,activa e boa,tricotar
agasalhos pueris,no sossego dum lar.

Não sonhou minorar,
num heroísmo branco,
de bicho de hospital,
a aflição dos aflitos.

Uma noite,às portas de Madrid,
com uma praga na boca,
e a espingarda na mão,
à hora tal,atacou e morreu.

Teve a sorte que quis.
Teve o fim que escolheu.

De REINALDO FERREIRA,in POEMAS