domingo, 3 de fevereiro de 2008

PEDRA ATIRADA


Quando eu tiver a certeza

De que nada foi verdade,

E que dentro da tristeza

Da minha serenidade

Nunca o sonho foi beleza,

Nem a Poesia certeza,

Nem o Amor foi verdade...


Quando eu souber,bem a fundo,

Que era cinza a minha pele;

Que ninguém me viu no mundo

E que não passei por ele...


Quando,de brumas envolta,

Só vir casarões vazios,

E só as vozes,à solta,

Me despertem arrepios...


Quando o frio me despir

As ilusões que julguei,

As vitórias que criei,

Os movimentos sagrados,

E já nada me entristeça...

E nem na sombra,em retratos,

Eu sequer me reconheça

- Se nem retratos tirei! -

Nos olhos me apagarei.


Quando eu tiver a certeza

De que nada foi verdade:

Nem os Céus nem a Beleza,

Nem a minha imensidade,

Nem os braços que estendi,

Nem os espaços que viajei,

Nem ilhas que nunca vi,

Mas chão onde descansei,

Nem noites de danças lentas

Em que me vinham buscar

- Madrugadas nevoentas

De ir com Eles para o mar...


Nem esse gosto impreciso,

Ténue gosto de salgado,

Que há-de haver no Paraíso

Quando está longe o pecado...


Quando eu tiver a certeza

De que nada foi Verdade,

Pedra me sinta atirada

Entre as coisas sem idade.


De NATÉRCIA FREIRE

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

OS MEDOS


(plagiado,em parte,de António Ferreira)


É a medo que escrevo.A medo penso,

A medo sofro e empreendo e calo.

A medo peso os termos quando falo,

A medo me renego,me convenço.


A medo amo.A medo me pertenço.

A medo repouso no intervalo

De outros medos.A medo é que resvalo

O corpo escrutador,inquieto,tenso.


A medo durmo.A medo acordo.A medo

Invento.A medo passo,a medo fico.

A medo meço o pobre,meço o rico.


A medo guardo confissão,segredo,

Dúvida,fé.A medo tudo.

Que já me querem cego,surdo,mudo.


De JOSÉ CUTILEIRO

in "Versos da Mão Esquerda"

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

KYRIE


Em nome dos que choram,

Dos que sofrem,

Dos que acendem na noite o facho da revolta

E que de noite morrem,

Com a esperança nos olhos e arames em volta.

Em nome dos que sonham com palavras

De amor e paz que nunca foram ditas,

Em nome dos que rezam em silêncio

E falam em silêncio

E estendem em silêncio as duas mãos aflitas,

Em nome dos que pedem em segredo

A esmola que os humilha e os destrói

E devoram as lágrimas e o medo

Quando a fome lhes dói.

Em nome dos que dormem ao relento

Numa cama de chuva com lençóis de vento

O sono da miséria,terrível e profundo,

Em nome dos teus filhos que esqueceste,

Filhos de Deus que nunca mais nasceste,

Volta outra vez ao mundo!


De José Carlos Ary dos Santos

sábado, 26 de janeiro de 2008

ÇÀ IRA!


Isto vai,caro amigo.

Não como nós queremos,é certo,

mas isto vai.


Por noites de insónia e alcatrão

por laranjas e lábios ressequidos

por desespero na voz e escuridão

isto vai,caro amigo.


Por mágoas acesas e relógios

pelo saber dos braços na alegria

pelo odor das plantas venenosas

isto vai,caro amigo.


Pelo cabo axial que liga a nossa esperança

pela luz dos cabelos,pelo sal

pela palavra remo,pela palavra ódio

isto vai,caro amigo.


Pela ternura e pela confiança

pela vontade e força,as nossas casas

pelo fervor com que inventamos (e depois

calamos)

isto vai,caro amigo.


Pelos carris do medo,pelas árvores

pela inocência e fome,pelos perigos

pelos sinais fraternos,pelas lágrimas

isto vai,caro amigo.


Pela rudeza do espaço

e em jardins falsíssimos


isto vai,caro amigo.


Desenho de Mestre Almada

Poema de JOÃO RUI DE SOUSA

in "Poesia Portuguesa do Pós-Guerra"

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

GUIA BREVE PARA UMA EXPOSIÇÃO DE JORGE MARTINS



Esta luz sobre os flancos

da pedra os seus cavalos

brancos

explosão solar dos cardos

ácida luz de areias

esta lâmina este grito

gume esperma

penetrando fendas frestas

esta luz amassada

na festa dos lábios

numa lágrima

nos espelhos

febre das lâmpadas

esta luz de rastos

lambendo a cal os pés

a cintura

esta luz à deriva

nos lençóis na espuma

exígua luz dolente

dividida

entre a música das mãos

e o silêncio do muro

esta luz tropeçando

desmaiando no escuro


(Julho,1976)

De EUGÉNIO DE ANDRADE

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

CANTIGAS


1/O VIANDANTE


Trago notícias da fome

que corre nos campos tristes:

soltou-se a fúria do vento

e tu,miséria,persistes.

Tristes notícias vos dou:

caíram espigas da haste,

foi-se o galope do vento

e tu,miséria,ficaste.

Foi-se a noite,foi-se o dia,

fugiu a cor às estrelas:

nesta negra solidão,

só tu,miséria,nos velas!



De CARLOS OLIVEIRA,in Mãe Pobres

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

SONETO DA DESPEDIDA


Uma lua no céu apareceu

Cheia e branca;foi quando,emocionada

A mulher a meu lado estremeceu

E se entregou sem que eu dissesse nada.


Larguei-as pela jovem madrugada

Ambas cheias e brancas e sem véu

Perdida uma,a outra abandonada

Uma nua na terra,outra no céu.


Mas não partira delas;a mais louca

Apaixonou-me o pensamento;dei-o

Feliz - eu de amor pouco e vida pouca


Mas que tinha deixado em meu enleio

Um sorriso de carne em sua boca

Uma gota de leite no seu seio.



De Vinicius de Moraes