terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O ALBATRÓS


Que maravilha! Voa ele ainda?

Continua a subir,e co'as asas paradas!

Que é que o levanta e aguenta?

Qual é o seu fito,o seu curso,as suas rédeas?


Voou ao máximo - agora é o próprio céu

Que ergue ao alto o que voa triunfante:

Fica parado a pairar,

Esquecendo o triunfo e o que triunfa.


Como a estrela e a eternidade,

Vive agora em alturas de que a vida foge,

Com dó mesmo da inveja:

E alto voou mesmo quem só o vê pairar!


Ó pássaro Albatrós!

Um eterno desejo me impele pra as alturas.

Pensei em ti: e então correu

Lágrima após lágrima, - sim,amo-te!


De F.Nietzsche

sábado, 16 de fevereiro de 2008

A ÚLTIMA VIAGEM DE JAYME OVALLE


OVALLE não queria a Morte

Mas era dele tão querida

Que o amor da Morte foi mais forte

Que o amor de Ovalle à vida.


E foi assim que a Morte,um dia

Levou-o em bela carruagem

A viajar - ah,que alegria!

Ovalle sempre adora viagem.


Foram por montes e por vales

E tanto a Morte se aprazia

Que fosse o mundo só de Ovalles

E nunca mais ninguém morria.


A cada vez que a Morte,a sério

Com cicerônica prestança

Mostrava a Ovalle um cemitério

Ele apontava uma criança.


A Morte,em Londres e Paris

Levou-o à forca e à guilhotina

Porém em Roma,Ovalle quis

Tomar a sua cangebrina.


Mostrou-lhe a Morte as catacumbas

E suas ósseas prateleiras

Mas riu-se muito,tais zabumbas

Fazia Ovalle nas caveiras.


Mais tarde,Ovalle satisfeito

Declara à Morte,ambos de porre:

- Quero enterrar-me,que é um direito

Inalienável de quem morre!


Custou-lhe esforço sobre-humano

Chegar à última morada

De vez que a morte,a todo o pano

Queria dar uma esticada.


Diz o guardião do campo-santo

Que noite alta,ainda se ouvia

A voz da Morte,um tanto ou quanto

Que ria,ria,ria,ria...



De Vinicius de Moraes

Imagem:"Morte de Inês de Castro" de Columbano Bordalo Pinheiro

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

LIMITES DA HUMANIDADE



O poema anterior saiu sem identificação e sem imagens.

É um poema de J.W.GOETHE.

LIMITES DA HUMANIDADE

Quando o antiquíssimo
Pai sagrado
Com mão impassível
De nuvens troantes
Semeia sobre a Terra
Relâmpagos de bênção,
Beijo eu a última
Fímbria da sua túnica,
Temor filial
Fiel no peito.

Pois com Deuses
Não deve medir-se
Homem nenhum!
Ergue-se ele ao alto
Até tocar
Co'a cabeça os astros,
Nenhures se prendem
Os pés incertos,
E com ele brincam
Nuvens e ventos.

E se está com ossos
De rijo tutano
Sobre a Terra firme,
Inabalável,
Nem sequer chega
A poder comparar-se
Com o carvalho
Ou com a vide.

O que é que distingue
Os Deuses dos homens?
Que muitas vagas
Ante aqueles vagueiam,
Eterna torrente:
A nós ergue-nos a vaga,
Traga-nos a vaga,
E vamos pra o fundo.

Um estreito anel
Nos limita a vida,
E muitas gerações
Se alinham constantes
À cadeia infinda
Do seu existir.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

POEMA COM h PEQUENO


Cantarei o homem criador crucificado

em suas máquinas. Caçador caçado

por suas armas. Tocador tocado

por suas harpas.

Cantarei o homem vezes homem até ao infinito.

Cantarei o homem: esse mortal - imortal

meu amigo - inimigo. Meu irmão.


Cantarei o homem que transforma tudo

e tão difìcilmente se transforma.

Ele que se escreve com h pequeno

em todas as coisas que são grandes.


Cantarei o homem no plural.

Ele que é tão singular

tão impossível de ser outro

senão ele próprio: o homem.


Cantarei o homem vezes homem até à massa.

Cantarei a massa vezes massa até ao homem.


Porque não sei doutra guerra. Não sei doutra paz.

Não sei doutro poema que não seja o homem.


De MANUEL ALEGRE,in O CANTO E AS ARMAS

Poema seleccionado para representar Portugal na 10ª edição do festival cultural Printemps des Poètes,a realizar em Lyon,a 4 e 5 de Março(revista VISÃO)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

CORAGEM,AMIGO YORIK!...


Coragem,amigo Yorik!

E quando o teu pensamento te tortura,

como agora,

não lhe chames - "Deus"! Porque,longe disso,

ele não passa do teu próprio filho,

a tua carne e o teu sangue;

o que então te aflige e te atormenta

é só o teu garoto,esse patife!

- Ora experimenta dar-lhe uns bons açoites!


Em suma,amigo Yorik! Deixa a sombria

filosofia - e pra te segredar

aqui ao ouvido ainda uma sentença

à laia de mèzinha caseira

- a minha receita contra tal spleen -:

"Quem ama o seu "Deus",que o discipline".


De F.Nietzsche

domingo, 3 de fevereiro de 2008

PEDRA ATIRADA


Quando eu tiver a certeza

De que nada foi verdade,

E que dentro da tristeza

Da minha serenidade

Nunca o sonho foi beleza,

Nem a Poesia certeza,

Nem o Amor foi verdade...


Quando eu souber,bem a fundo,

Que era cinza a minha pele;

Que ninguém me viu no mundo

E que não passei por ele...


Quando,de brumas envolta,

Só vir casarões vazios,

E só as vozes,à solta,

Me despertem arrepios...


Quando o frio me despir

As ilusões que julguei,

As vitórias que criei,

Os movimentos sagrados,

E já nada me entristeça...

E nem na sombra,em retratos,

Eu sequer me reconheça

- Se nem retratos tirei! -

Nos olhos me apagarei.


Quando eu tiver a certeza

De que nada foi verdade:

Nem os Céus nem a Beleza,

Nem a minha imensidade,

Nem os braços que estendi,

Nem os espaços que viajei,

Nem ilhas que nunca vi,

Mas chão onde descansei,

Nem noites de danças lentas

Em que me vinham buscar

- Madrugadas nevoentas

De ir com Eles para o mar...


Nem esse gosto impreciso,

Ténue gosto de salgado,

Que há-de haver no Paraíso

Quando está longe o pecado...


Quando eu tiver a certeza

De que nada foi Verdade,

Pedra me sinta atirada

Entre as coisas sem idade.


De NATÉRCIA FREIRE