domingo, 4 de janeiro de 2009

RESÍDUOS DO CORPO


De ti ficam as aves,
o rumor
de arderem altas;
ficam as águas,
à tona
a clara sombra
onde pousaram lábios;
fica o outono,
desatado beijo a beijo
sobre a palha;
ficam as nuvens,
a sede ainda
de um ramo de coral.
De Eugénio de Andrade

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

RECEITA DE MULHER


AS MUITO FEIAS que me perdoem
Mas beleza é fundamental.É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul como na República Popular Chinesa)
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa côr só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser,mas que se reflita
a desabroche
No olhar dos homens. É preciso,é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas
pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne:que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah,deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola
ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um
templo e
Seja leve como um rosto de nuvem :mas que seja
uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos
então
Nem se fala. que olhem com uma certa maldade inocente.
Uma bôca
Fresca (nuca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem,sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo porém o problema das saboneteiras:uma
mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha,e em seguida
A mulher se alteie em cálice,e que os seus seios
Sejam uma expressão greco-romana,mais que gótica ou
barrôca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima
de cinco velas
Sobretudo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista o grande latifúndio
dorsal.
Os membros que terminem como hastes,mas bem haja
um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas,lisas como a pétala e cobertas de
suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma
próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo,e a mulher não lembre
Flõres sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos
góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos,nos braços,
no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma
temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados,podendo eventualmente provocar
queimaduras
Do 1º grau. Os olhos que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro
de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio
alta
Ou caso baixa,que tenha a atitude moral dos altos
píncaros.
Ah,que a mulher dê sempre a impressão de que se
fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja,não
venha;parta,não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer
subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh,sobretudo
Que ela não perca nunca,não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias,a sua infinita
volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder a sua graça de ave;
e que exale sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
A sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna
dançarina
Do efêmero e eu sua incalculável imperfeição.
Constutua a coisa mais bela e mais perfeita de tôda a
criação inumerável.
De Vinicius de Moraes

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

UTOPIA



Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo,mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso,a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio,este rumo,esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?

De José Afonso

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

GOETZ


São os troncos troncos e um monte
puxado para o sol oblìquamente.
E a terra é de carvão,mar de raízes
e o sol dourado de limão,quse oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.

Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta,o espaço era verde acinzentado
E duas cordas ao lado,atravassadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.

A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multliplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul,praia vermelha,
voos de andorinha negros.


De António Ramos Rosa

FELIZ NATAL


Para todos
Desejo
Serenidade
Paz
Saúde
Para todos
Um beijo

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

OU ARCANJO OU LADRÃO


Ou arcanjo ou ladrão,
Devorador
De perfumes,
De corpos
E de mitos.
Rei nos países interditos.
Conviva solitário do festim
Em que a noite me chama à sua mesa,
Pescador de silêncios e jardins
Na cidade terrível e acesa.
Ou arcanjo ou ladrão. Destruidor
Da imagem do outro que transporto
Tatuada no peito.
Rosa de carne azul que me deslumbra
Quando penetro a noite com o sexo
Que a minha solidão tornou perfeito.
Assim vogo e arremeto pelos tempos,
Invisível Apolo citadino,
Falus de herói coroado de giestas,
Transgressor voluntário do destino,
Pé de cabra forçando o impossível,
Brisa azul esquivando-se entre os outros,
Com laivos de infinito nas passadas,
Lampejos de infinito nos olhos admiráveis
E flores de estrume a definir-me a testa
De Príncipe e Senhor dos intocáveis.

De Ary dos Santos

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

EM MEMÓRIA DE CHICO MENDES


Chegam notícias do Brasil,o Chico

Mendes foi assassinado,a morte

enrola-se agora nos primeiros frios,

nem sequer a tristeza tem sentido,

a bola continua em órbita,um dia

estoira,o universo ficará mais limpo.


De Eugénio de Andrade

Fotografia de Carlos Ruggi/se