quinta-feira, 5 de março de 2009

LEGO


Está tudo conformado

ao triste proprietário.

Mecânicas ovelhas,

na erva de plástico,

têm pastor de pilhas

e cão pré-fabricado.

Flores marginam esse

às peças-soltas do prado.

Eléctricas abelhas,

obreiras sem contrato,

daquele herbário extraem

um mel supermercado.

A malhada,no estábulo,

quase manga de alpaca

(é A VACA,sabias?),

dá leite engarrafado.

No céu (para colorir)

a nuvem (pontual),

aguarda a vez de ser

chovida no nabal,

enquanto o Sol dardeja

na eira proverbial.

Já tudo afeiçoado

ao bom do proprietário

(ervas,bichos,moral),

ele conta com os seus

e espera sempre em Deus.


("- Deste corda ao pardal?")


De Alexanre O'Neill

segunda-feira, 2 de março de 2009

AS VOLTAS DA POESIA


Borborigmo a expensas da dobrada.

Para uns,é a alma alcanceada:

para outros,quilo tão ronceiro

que lhes dá resmoneio o dia inteiro,

a conversa visceral fiada

que os versos são,primeiro.


Em qualquer dos casos,venham mas é versos,

bem tirados,acabados,tesos,

que a dobrada,essa,se por lá traquina,

é para coisa que se veja,chula ou fina.


De Alexandre O'Neill

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

SENTIMENTO HUMANO


Vós, ó Deuses,grandes Deuses

No vasto céu,lá em cima,

Se vós nos désseis na terra

Mente firme,ânimo bom,

Oh! como vos deixaríamos

O vasto céu lá em cima!


De J.W.Goethe

domingo, 22 de fevereiro de 2009

RETRATO À SUA MANEIRA (João Cabral de Melo Neto)


MAGRO entre pedras

Calcárias possível

Pergaminho para

A anotação gráfica



O grafito Grave

Nariz poema o

Fêmur fraterno

Radiografável a



Olho nu Árido

Como o deserto

E além Tu

Irmão totem aedo



Exato e provável

No friso do tempo

Adiante Ave

Camarada diamante!
De Vinicius de Moraes


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

AR LIVRE


Ar livre que não respiro!
Ou são pela asfixia?
Miséria de cobardia
Que não arromba a janela
Da sala onde a fantasia
Estiola e fica amarela!
Ar livre,digo-vos eu!
Ou estamos nalgum museu
De manequins de cartão?
Abaixo! E ninguém se importe!
Antes o caos que a morte...
De par em par,pois então?!
Ar livre! Correntes de ar
Por toda a casa empestada!
(Vendavais na terra inteira,
A própria dor arejada,
- E nós nesta borralheira
De estufa calafetada!)
Ar livre! Que ninguém canta
Ar livre! Que ninguém canta
Com a corda na garganta,
Tolhido da inspiração!
Fora do ventre da mãe
Desligado do cordão!
Ar livre,sem restrições!
Ou há pulmões,
Ou não há!
Fechem as outras riquezas
Mas tenham fartas as mesas
Do ar que a vida nos dá!
De Miguel Torga,in "Cântico do Homem"
Fotografia de Fotoplatforma.pl

domingo, 15 de fevereiro de 2009

É ASSIM


É assim:
a gente despede-se,vai-se
embora amaldiçoando a terra,
carrega amargura que nem o diabo
aguenta; com o tempo vai
esquecendo injustiças,mágoas,
injúrias,morrendo por regressar
ao cheiro da palha seca,ao calor
animal do estábulo,
ao sonho do quintalório
com três alqueires de milho ao sol
e dois pinheiros bravos - -
porque não há no mundo
outro lugar onde
enfim dê tanto gosto chafurdar.
De Eugénio de Andrade

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

CREPÚSCULO


Uma pátria de angústia
No lento anoitecer
Coroa o dia álgido
No verão de ardentes sóis.
Vão morrer os heróis.
A voz crepuscular
Dos campos e das ondas
Agoniza comigo.
E promete e promete
Imensas alquimias
Em braços de outros Dias.
Em bocas de outro Mar
Os deuses vão voltar.
Há quanto tempo eu estou
Marcada a fogo e ferro
Na paz do meu desterro
Na morte sem enterro.
Oiço-te,Mãe,na bruma
Tangendo às nossas filhas
Um instrumento de espuma
Forrado a sumaúma...
E ele,o meu ser de gelo,
O meu senhor de frio,
Amarra-me o cabelo
Aos flancos do navio.
De Natércia Freire
Fotografia de www.photocart.com