quarta-feira, 22 de abril de 2009

1910 (INTERMÉDIO)


Aqueles meus olhos de mil novecentos e dez
não viram enterrar os mortos,
nem a feira de cinza do que chora de madrugada,
nem o coração que treme retirado como um hipocampo.

Aqueles meus olhos de mil novecentos e dez
viram a branca parede onde urinavam as meninas,
o focinho do touro,o cogumelo venenoso
e uma lua incompreensível que iluminava nos recantos
os pedaços de limão seco sob o negro duro das garrafas.

Aqueles meus olhos no pescoço do garrano,
no seio vazado de Santa Rosa adormecida,
nos telhados de amor,com gemidos e frescas mãos,
num jardim onde os gatos comiam as rãs.

Sótão onde o velho pó reúne estátuas e musgos.
Caixões que guardam silêncio de caranguejos devorados.
No sítio onde o sonho tropeçava na sua realidade.
Ali meus pequenos olhos.

Não me perguntem nada. Vi que as coisas
quando buscam seu curso encontram seu vazio.
Há uma dor de ocos pelo espaço sem ninguém
e,em meus olhos,criaturas vestidas - mas sem corpo!

De Frederico García Lorca (tradução de José Bento;ed. Relógio de Água)
Pintura de P.Picasso.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

ALTURAS DE MACCHU PICCHU


El ser como el maíz se desgranaba en el inacabable
granero de los hechos perdidos,de los acontecimientos
miserables,del uno al siete,al ocho,
y no una muerte,sino muchas muertes llegaba a cada uno:
cada día una muerte pequeña,polvo,gusano,lámpara
que se apaga en el lodo del suburbio,una pequeña muerte de alas gruesas
entraba en cada hombre como una corta lanza
y era el hombre asediado del pan o del cuchilo,
el ganadero: el hijo de los puertos,o el capitán oscuro del arado,
o el roedor de las calles espesas:
todos fallecieron esperando su muerte,su corta muerte diaria:
y su quebranto aciago de cada día era
como una copa negra que bebían temblando.

De Pablo Neruda

segunda-feira, 13 de abril de 2009

CREPÚSCULO EM NEW YORK


Com um gesto fulgurante o Arcanjo Gabriel
Abre de par em par o pórtico do poente
Sobre New York. A gigantesca espada de ouro
A faiscar simetria,ei-lo que monta guarda
A Heavens,Incorporations. Do crepúsculo
Baixam serenamente as pontes levadiças
De U.S.A. Sun até a ilha da Manhattan.
Agora é tudo anúncio,irradiação,promessa
Da Divina Presença. No imo da matéria
Os átomos aquietam-se e cria-se o vazio
Em cada coração de bicho,coisa e gente.

E o silêncio se deixa assim,profundamente...

Mas súbito sobe do abismo um som crestado
De saxofone,e logo a atroz polifonia
De cordas e metais,síncopas,arreganhos
De jazz negro,vindos de Fifty Second Street.
New York acorda para a noite.Oito milhões
De solitários se dissolvem pelas ruas
Sem manhã. New York entrega-se.

Do páramos
Balizas celestiais põem-se a brotar,vibrantes
À frente da parada,enquanto anjos em nylon
As asas de alumínio,as coxas palpitantes
Fluem langues da Grande Porta diamantina.
Cai o câmbio da tarde. O sublime Arquiteto
Satisfeito,do céu admira sua obra
A maquete genial reflete em cada vidro
O ôlho meigo de Deus a dardejar ternuras.
Como é bela New York! Aço e concreto armado
A erguer sempre mais alto eternas estruturas!
Deus sorri complacente. New York é muito bela!
Apesar do East Side, e da mancha amarela
De China Town, e da mancha escura do Harlem
New York é muito bela!

As primeiras estrelas
Afinam na amplidão cantilenas singelas...
Mas Deus,que mudou muito,desde que enriqueceu
Liga a chave que acende a Broadway e apaga o céu
Pois às constelações que no céu esparziu
Prefere hoje os ersatze sôbre La Guardia Field.


De Vinicius de Moraes

sábado, 4 de abril de 2009

LA COGIDA Y LA MUERTE


Às cinco horas da tarde.
Eram as cinco em ponto da tarde.
Um menino trouxe o lençol branco
às cinco horas da tarde.
Uma ceira de cal já preparada
às cinco horas da tarde.
Tudo o mais era morte,apenas morte
às cinco horas da tarde.

O vento levou os algodões
às cinco horas da tarde.
E o óxido semeou cristal e níquel
às cinco horas da tarde.
Já lutam a pomba e o leopardo
às cinco horas da tarde.
E uma coxa com um chifre desolado
às cinco horas da tarde.
Começaram os acordes de bordão
às cinco horas da tarde.
Os sinos de arsénico e o fumo
às cinco horas da tarde.
Pelas esquinas grupos de silêncio
às cinco horas da tarde.
E o touro sozinho coração acima!
às cinco horas da tarde.
Quando o suor de neve foi chegando
às cinco horas da tarde,
quando a praça se cobriu de iodo
às cinco horas da tarde,
a morte pôs ovos na ferida
às cinco horas da tarde.
Às cinco horas da tarde.
Às cinco horas em ponto da tarde.

Um ataúde com rodas é a cama
às cinco horas da tarde.
Ossos e flautas soam em seus ouvidos
às cinco horas da tarde.
O touro já mugia por sua fronte
às cinco horas da tarde.
Irisava-se o quarto de agonia
às cinco horas da tarde.
Trompa de lírio pelas verdes virilhas
às cinco horas da tarde.
As feridas queimavam como sóis
às cinco horas da tarde,
e a multidão quebrava as janelas
às cinco horas da tarde.
Às cinco horas da tarde.
Ai que terríveis cinco da tarde!
Eram as cinco em todos os relógios!
Eram as cinco em sombra da tarde!

De Frederico Garcia Lorca (tradução de José Bento)
Desenho de P.Picasso



quarta-feira, 1 de abril de 2009

O OBJECTO


NASCER com ele,
ponte a descer,
à água e ao pó.
Vivo,imóvel.
Nascer com ele,
sede e gomo,
sabê-lo,sumo,
olhar sem nome.
Nascer com ele,
soprá-lo,pluma,
chama de ar.
Nascer com ele,
envolto e nu,
o corpo elástico
- salto e silêncio.
Renovo o sopro
de árido vento:
áspide,gume,
vácuo de amor.
De António Ramos Rosa,in "Chama de ar",para Natércia Freire
Fotografia Reuters

domingo, 29 de março de 2009

A BRUXA


Com sete lagartos mortos

sete vasilhas de enxofre

sete lacraus sete corvos

sete anéis de pedra negra

sete cabras sem pescoço

sete bacias de sangue

sete agulhas de veneno

sete gatos sete figas

sete cruzes sete salgas

sete luas sete rezas

sete fogos para as almas

sete candeias acesas

em sete torcidas de algas.


De Ary dos Santos,in "Tempo da Lenda das Amendoeiras"(1964)

quarta-feira, 25 de março de 2009

OS ENJEITADOS


Carregando os caixões nos magros ombros

Enterrando na polpa das montanhas

Os tornozelos de aço,

Rasgando no ar fino agudas frestas

Caminham lentamente os enjeitados.


Escasseia-lhes emprego nas florestas

Nas bancas da cidade revoluta

E transportam a morte com cuidado.


Os pais ocultam-se em locais limites.

Levam aos ombros mitos sem limites

Com seus nomes em cera desenhados.


Ao pôr do sol escutaram a chamada

Que vinha sempre errada.

E sentaram-se à mesa num lugar

Entre desconhecidos e estrangeiros.


Vinha um sopro de lar

De uma língua de tempos derradeiros.


Os silêncios depois cavaram vales.

As margens sepultaram os seus leitos.

Escalaram as montanhas sem vontade.

Fabricaram metralha no seu peito.

Pediram filhos a planetas mortos.

Dormiram com saudades mutiladas.


Beberam sonhos pelo mesmo copo.

Fugiram das cidades em partilha.

Deram as mãos.Sentaram-se a chorar

No choro de uma ilha.


Chove-lhes fogo em dias de criança.

Chove-lhes fel em dias ensombrados.

Jovem povo sem esperança

Desde o ventre da mãe,os enjeitados.


Ocupados no mapa das viagens,

Exaltados no tempo de ir a Marte.

Todos heróis,políticos e pajens

De Herodes e Medeia,

Abrem os pais as veias.


No ar,jorra em cadeias de cadência,

O sangue colectivo de uma ausência.


De Natércia Freire

Fotografia de autor desconhecido:Roda dos Expostos ou Enjeitados,no Poço de Borratém