domingo, 21 de junho de 2009

O ÔNIBUS GRAYHOUND ATRAVESSA O NÔVO MÉXICO


TERRA SÊCA árvore sêca
E a bomba de gasolina
Casa sêca paiol sêco
E a bomba de gasolina
Serpente sêca na estrada
E a bomba de gasolina
Pássaro sêco no fio
(E a bomba de gasolina)
Do telégrafo: s.o.s.
E a bomba de gasolina
A pele sêca o olhar sêco
(E a bomba de gasolina
Do índio que não esquece
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina...
DeVinicius de Moraes

quinta-feira, 18 de junho de 2009

MORREU AO AMANHECER


Noite de quatro luas
e uma única árvore,
com uma única sombra
e um único pássaro.
Busco na minha carne as
pegadas de teus lábios.
Beija a nascente o vento
sem o tocar.
Levo o Não que me deste,
sobre a palma da mão,
como um limão de cera
quase branco.
Noite de quatro luas
e uma única árvore.
Na ponta de uma agulha
está meu amor -- girando!
De Frederico García Lorca
Fotografia "picada" de llena.com/blog/?m=200807

sábado, 13 de junho de 2009

GEOMETRIA


Daria,
Por teus planos de cor e de agonia,
Minha suspensa,abstracta geometria,
Que me canta nas veias noite e dia.
Em troca,
Nada mais do que o deserto.
Mas deserto de luz ao longe e ao perto,
Entre sulcos de neve e céu aberto,
Entre o meu desacerto e o meu acerto...
En troca,as formas ágeis,diluídas,
Entre a memória e a história de outras vidas,
Entre a saudade e a dor adormecidas,
A correr sobre faces esbatidas...
Em troca,pouco mais do que o regresso
Às salas onde em espectro me conheço,
Aos campos e às igrejas do começo,
Às naves voadoras do silêncio.
Em troca
Do absurdo onde me quis,
Incompleta,confusa e infeliz,
E viajante amável de um país
De fantasmas e deuses navegantes.
Em troca
Do infinito que se afunda
E se perde num escuro sem penumbra,
E que ninguém,nem tu,poderás dar-me,
Toca!, campainhas de alarme,
Cristais,de luz e cor
Riscando os ares!
Esse é o Mundo!
- O perdido,impossível,morto Mundo,
Pelo qual te daria
Minha suspensa,abstracta geometria,
Que me golpeia as veias noite e dia.
De Natércia Freire

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Excerto da "Carta a António Pereira,Senhor do Basto,Quando se Partiu para a Corte co`a Casa Toda"



Como eu vi correr pardaus
Por Cabeceiras de Basto,
cresceram cercas e gasto,
vi,por caminhos tão maus,
tal trilha e tamanho rasto.

Logo os meus olhos ergui
à casa antiga e à torre,
e disse comigo assi:
"Se Deus não nos val aqui,
perigoso imigo corre!"

Não me temo de Castela,
donde inda guerra não soa;
mas temo-me de Lisboa,
que,ao cheiro desta canela,
o Reino nos despovoa.

E que algum embique e caia,
(afora vá o mau agouro!)
falar por aquela praia
da grandeza de Cambraia,
Narsinga das torres d'ouro!

Ouves,Viriato,o estrago
que cá vai dos teus costumes?
Os leitos,mesas e os lumes,
todo cheira: eu óleos trago;
vem outros,trazem perfumes.

E ao bom trajo dos pastores,
com que saíste à peleja
dos Romãos tam vencedores,
são mudados os louvores;
não há quem t'haja enveja.

...

De Sá de Miranda
Publicado em "A Morte de Portugal",de Miguel Real(Campo das Letras)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

QUE VERGONHA,RAPAZES!


Que vergonha,rapazes! Nós pràqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no "diz que"
e a desnalgar a fêmea ("Vist'?Viii!")
Que miséria,meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me soergo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.
Desejo recalcado,com certeza...
Mas logo desço à rua,encontro o Roque
("O Roque abre-lhe a porta,nunca toque!")
e desabafo: - Ó Roque,com franqueza:
Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria,Snr. O'Neill! E... as varizes?
De Alexandre O'Neill

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O PESO DA SOMBRA


Atravessara o verão para te ver

dormir,e trazia doutros lugares

um sol de trigo na pupila;

às vezes a luz demora-se

em mãos fatigadas; não sei em qual

de nós explodiu uma súbita

juventude,ou cantava:

era mais fresco o ar.

Quem canta no verão espera ver o mar.


De Eugénio de Andrade
Fotografia retirada de botecoliterario.wordpress.com

domingo, 31 de maio de 2009

NÃO PASSAM MAIS


Em nome dos nossos braços
em nome das nossas mãos
em nome de quantos passos
deram os nossos irmãos.
Em nome das ferramentas
que nos magoaram os dedos
das torturas das tormentas
das sevícias dos degredos.
Em nome daquele nome
que herdámos dos nossos pais
em nome da sua fome
dizemos: não passam mais!

E em nome dos milénios
de prisão adicionada
em nome de tantos génios
com a voz amordaçada
em nome dos camponeses
com a terra confiscada
em nome dos Portugueses
com a carne estilhaçada
em nome daqueles nomes
escarrados nos tribunais
dizemos que há outros nomes
que não passam nunca mais!

Em nome do que nós temos
em nome do que nós fomos
revolução que fizemos
democracia que somos
em nome da unidade
linda flor da classe operária
em nome da liberdade
flor imensa e proletária
em nome desta vontade
de sermos todos iguais
vamos dizer a verdade
dizendo: não passam mais!

Em nome de quantos corpos
nossos filhos foram feitos.
Em nome de quantos mortos
vivem nos nossos direitos.
Em nome de quantos vivos
dão mais vida à nossa voz
não mais seremos cativos:
o trabalho somos nós.

Por isso tornos enxadas
canetas frezas dedais
são as nossas barricadas
que dizem: não passam mais!

E em nome das conquistas
vindas nos ventos de Abril
reforma agrária controlo
operário no meio fabril
empresas que são do estado
porque o seu dono é o povo
em nome de lado a lado
termos feito um país novo.

Em nome da nossa frente
e dos nossos ideais
diante de toda a gente
dizemos: não passam mais!

Em nome do que passámos
não deixaremos passar
o patrão que ultrapassámos
e que nos queria trespassar.
E por onde a gente passa
nós passamos a palavra:
Cada rua cada praça
é o chão que o povo lavra.
Passaremos adiante
com passo firme e seguro.
O passado é já bastante
vamos passar ao futuro.

De Ary dos Santos