Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas,meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos,alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos,que um momento
Perscutaram nos meus,como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda,em triunfo,pétalas,de leve
Juncando o chão,na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze - quanta flor - ,do céu,
Sobre nós dois,sobre os nossos cabelos?
De Camilo Pessanha (Coimbra, 1867 - 1926)
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
SE...
Se é possível conservar a juventude
Respirando abraçado a um marco de correio;
Se a dentadura postiça se voltou contra a pobre senhora e a mordeu
Deixando-a em estado grave;
Se ao descer do avião a Duquesa do Quente
Pôs marfim a sorrir;
Se o Baú-Cheio tem acções nas minas de esterco;
Se na América um jovem de cem anos
Veio de longe ver o Presidente
A cavalo na mãe;
Se um bode recebe o próprio peso em aspirina
E a oferece aos hospitais do seu país;
Se o engenheiro sempre não era engenheiro
E a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;
Se reentrante,protuberante,perturbante,
Lola domina ainda os portugueses;
Se o Jorge(o "ponto" do Jorge!)tentou beber naquela noite
O presunto de Chaves por uma palhinha
E o Eduardo não lhe ficou atrás
Ao saír com a lagosta pela trela;
Se "ninguém me ama porque tenho mau hálito
E reviro os olhos como uma parva";
Se Mimi Travessuras já não vem a Lisboa
Cantar com o Alberto...
...Acaso o nosso destino,tac!,vai mudar?
De Alexandre O'Neill
Respirando abraçado a um marco de correio;
Se a dentadura postiça se voltou contra a pobre senhora e a mordeu
Deixando-a em estado grave;
Se ao descer do avião a Duquesa do Quente
Pôs marfim a sorrir;
Se o Baú-Cheio tem acções nas minas de esterco;
Se na América um jovem de cem anos
Veio de longe ver o Presidente
A cavalo na mãe;
Se um bode recebe o próprio peso em aspirina
E a oferece aos hospitais do seu país;
Se o engenheiro sempre não era engenheiro
E a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;
Se reentrante,protuberante,perturbante,
Lola domina ainda os portugueses;
Se o Jorge(o "ponto" do Jorge!)tentou beber naquela noite
O presunto de Chaves por uma palhinha
E o Eduardo não lhe ficou atrás
Ao saír com a lagosta pela trela;
Se "ninguém me ama porque tenho mau hálito
E reviro os olhos como uma parva";
Se Mimi Travessuras já não vem a Lisboa
Cantar com o Alberto...
...Acaso o nosso destino,tac!,vai mudar?
De Alexandre O'Neill
sábado, 28 de novembro de 2009
CHUVA
É quando a chuva cai,é quando
olhado devagar que brilha o corpo.
Para dizê-lo a boca é muito pouco,
era preciso que também as mãos
vissem esse brilho e o dissessem
a quem passa na rua,e cantassem.
Todas as palavras falam desse lume,
sabem à pele dessa luz molhada.
De Eugénio de Andrade
sábado, 21 de novembro de 2009
DE ARY
Em Portugal o mal é ancestral
tem raízes no sal tem ruído nasal
desde que uns olhos se partiram tristes
Esta nossa saudade lacrimal
é hoje um mineral:
otorrinolaringoestalactite.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
VENTO VENTO

Gosto do barulho do vento
Qualquer vento voador
Serve pro meu encantamento
Vento de chuva é o de calor
Vento mais fresco é o da flor
E aquele,frio de bater queixo
Traz a saudade de meu amor
E é nele que eu me deixo
Levar como se nada existisse
Como se andasse nu
E ninguém me visse
Como se eu fosse apenas alma
E essa nunca partisse
E a vida fosse como era antes
Gosto do vento
Somos velhos amantes
De Gerson Deslandes
sábado, 7 de novembro de 2009
NADA MAIS
Não há mais que inventar.
Não há mais que dizer.
A sintaxe está gasta.
As imagens estão gastas.
Mesmo a Morte está gasta
E todos os poetas
O deviam saber.
A moral está já gasta.
Gasta a anormalidade,
E a imoralidade,
E a amoralidade.
Gastos os sentimentos
E todos os tormentos,
Mais os grandes amores
E todos os pavores.
Gastos rios e serras,
Mais os erros das guerras.
Gasta a Ciência e a Arte.
Gastos,lutos,enterros,
Cemitérios,jazigos,
Lágrimas,desesperos,
Sacrilégios e perigos,
Crimes,roubos e monstros,
Lirismos e fardins,
Naufrágios,terramotos
E o dilúvio do Fim,
Planetas e vigílias
De mortes pressentidas,
Mais o amor das famílias,
Gastas todas as vidas!
Que tudo está já gasto
Porque morreste um dia.
Porque à tua paixão
Opuseram traição.
Aos teus braços de mel
Só opuseram fel.
Ao teu canto,ao teu riso
De ave do Paraíso,
Opuseram cegueiras,
- Monte das Oliveiras!
E se à minha paixão
Opuserem traição;
Se ao meu canto,aos meus risos,
Negarem Paraísos,
E cegarem meus olhos
Com pedradas certeiras,
Foi bem mais triste o teu
Monte das Oliveiras.
Todo o futuro é gasto
Porque morreste um dia.
Procurar-te,é bem pouco.
Achar-te,era demais.
Em mim,em qualquer ponto,
Te escondes e te esvais...
De Natércia Freire
Não há mais que dizer.
A sintaxe está gasta.
As imagens estão gastas.
Mesmo a Morte está gasta
E todos os poetas
O deviam saber.
A moral está já gasta.
Gasta a anormalidade,
E a imoralidade,
E a amoralidade.
Gastos os sentimentos
E todos os tormentos,
Mais os grandes amores
E todos os pavores.
Gastos rios e serras,
Mais os erros das guerras.
Gasta a Ciência e a Arte.
Gastos,lutos,enterros,
Cemitérios,jazigos,
Lágrimas,desesperos,
Sacrilégios e perigos,
Crimes,roubos e monstros,
Lirismos e fardins,
Naufrágios,terramotos
E o dilúvio do Fim,
Planetas e vigílias
De mortes pressentidas,
Mais o amor das famílias,
Gastas todas as vidas!
Que tudo está já gasto
Porque morreste um dia.
Porque à tua paixão
Opuseram traição.
Aos teus braços de mel
Só opuseram fel.
Ao teu canto,ao teu riso
De ave do Paraíso,
Opuseram cegueiras,
- Monte das Oliveiras!
E se à minha paixão
Opuserem traição;
Se ao meu canto,aos meus risos,
Negarem Paraísos,
E cegarem meus olhos
Com pedradas certeiras,
Foi bem mais triste o teu
Monte das Oliveiras.
Todo o futuro é gasto
Porque morreste um dia.
Procurar-te,é bem pouco.
Achar-te,era demais.
Em mim,em qualquer ponto,
Te escondes e te esvais...
De Natércia Freire
terça-feira, 3 de novembro de 2009
RETRATO DO PRONOME POSSESSIVO
O meu é teu. O teu é meu
e o nosso é nosso quando posso
dizer que um dente nos cresceu
roendo o mal até ao osso.
O teu é nosso. O nosso é teu.
O nosso é meu. O meu é nosso
e tudo o mais que aconteceu
é uma amêndoa sem caroço.
Dizem que sou. Dizem que faço
que tenho braços e pescoço
- que é da cabeça que desfaço
que é dos poemas que eu não ouço?
O meu é teu. O teu é meu
e o nosso,nosso quando posso
e sem o ver galgar o fosso
e sem o ver galgar o fosso.
De Ary dos Santos
domingo, 25 de outubro de 2009
CRISTÓBAL MIRANDA
Te conocí,Cristóbal,en las lanchas
de la bahía,cuando baja
el salitre,hacia el mar,en la quemante
vestidura de un día de Noviembre.
Recuerdo aquella extática apostura,
los cerros de metal,el agua quieta.
Y sólo el hombre de las lanchas,húmedo
de sudor,moviendo nieve.
Nieve de los nitratos,derramada
sobre los hombros del dolor,cayendo
a la barriga ciega de las naves.
Allí,paleros,héroes de una aurora
carcomida por ácidos,sujeta
a los destinos de la muerte,firmes,
recibiendo el nitrato caudaloso.
Cristóbal,este recuerdo para ti.
Para los camaradas de la pala,
a cuyos pechos entra el ácido
y las emanaciones asesinas,
hinchando como águilas aplastadas
los corazones,hasta que cae el hombre,
hasta que rueda el hombre hacia las calles,
hacia las cruces rotas de la pampa.
Bien,no digamos más,Cristóbal,ahora
este papel que te recuerda,a todos,
a los lancheros de bahía,al hombre
ennegrecido de los barcos,mis ojos
van con vosotros en esta jornada
y mi alma es una pala que levanta
cargando y descargando sangre y nieve,
junto a vosotros,vidas del desierto.
De Pablo Neruda (Palero-Tocopilla),in "Canto General"
de la bahía,cuando baja
el salitre,hacia el mar,en la quemante
vestidura de un día de Noviembre.
Recuerdo aquella extática apostura,
los cerros de metal,el agua quieta.
Y sólo el hombre de las lanchas,húmedo
de sudor,moviendo nieve.
Nieve de los nitratos,derramada
sobre los hombros del dolor,cayendo
a la barriga ciega de las naves.
Allí,paleros,héroes de una aurora
carcomida por ácidos,sujeta
a los destinos de la muerte,firmes,
recibiendo el nitrato caudaloso.
Cristóbal,este recuerdo para ti.
Para los camaradas de la pala,
a cuyos pechos entra el ácido
y las emanaciones asesinas,
hinchando como águilas aplastadas
los corazones,hasta que cae el hombre,
hasta que rueda el hombre hacia las calles,
hacia las cruces rotas de la pampa.
Bien,no digamos más,Cristóbal,ahora
este papel que te recuerda,a todos,
a los lancheros de bahía,al hombre
ennegrecido de los barcos,mis ojos
van con vosotros en esta jornada
y mi alma es una pala que levanta
cargando y descargando sangre y nieve,
junto a vosotros,vidas del desierto.
De Pablo Neruda (Palero-Tocopilla),in "Canto General"
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
ODE DE AMOR À FLORIANÓPOLIS

Bendita seja a trilha dos Naufragados,
Bendito seja o bar do Arantes,seus bilhetinhos,sua culinária e energia,
Bendita seja a Costa da Lagoa e o por do sol visto do Restaurante do Jajá,
Bendita a Barra da Lagoa na prainha,
Bendito TAMAR na Barra da Lagoa,
Bendita praia do Matadeiro e o ecológico bar do Marcão,
Bendito Spinoza no mercado,à tardinha,para ver os manezinhos pós-expediente e fazer novos amigos,
Bendito cineminha em qualquer sala Cinemark do Shopping Floripa,
Bendito seja o passeio no Ribeirão da Ilha,
Bendito centrão e a figueira da praça XV e o calçadão ao entardecer,
Bendita feirinha dominical na Lagoa e seus produtos naturebas,
Bendita UFSC e as universidades particulares,onde se pode conhecer gente de todo o Brasil e do mundo inteiro,
Bendito fato de poder subir à serra,ir a Lages e curtir a neve e o povo hospitaleiro,
Benditas massagens,sauna e águas termais públicas de Santo Amaro da Imperatriz,
Bendita e linda Guarda e seu mirante na última pousada,
Bendita praia da Rosa para ver as baleias,
Bendita praia Brava e sua angelitude fora da temporada,
Bendita trilha da Galheta,
Bendita ciclovia na avenida Beira-mar e as lindas gurias de byke,
Benditas exposições e cafezinho no Angeloni,
Bendita lojinha do presídio com suas redes artesanais feitas de madeira,
Bendita Casa Ecológica da UFSC,
Bendito shopizinho da Trindade e o bar da praça à tardinha,
Bendito o Kobrasol e o divino camarão à milanesa do Bocas,
Bendito seja o Morro das Pedras e o botequinho à beiramar,
Bendito "El Mexicano" para dançar e "John Bull" e seus shows maravilhosos,
Bendito casario e casa de artesanato ao lago da igreja em Santo António de Lisboa,assim como todos os artistas de Floripa e o seu imperdível café,
Bendita beleza de Sambaqui,
Bendita quietude da Cachoeira do Bom Jesus,
Bendita peixaria do Negrão,nos Ingleses,
Bendita abundância de comida no restaurante Terezas,em Canasvieiras,
Bendita beleza das imensas rochas na Armação,
Benditas dunas gigantes da Joaquina,
Bendito povo nativo que me acolheu com carinho,
Bendito seja Deus que me permitiu morar aqui,a dez metros do mar,nesta bela e Santa Catarina.
Amém.
Poema e fotografia de James Pizarro
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
LISBOA
terça-feira, 6 de outubro de 2009
PRESENÇA DE ULISSES
sábado, 3 de outubro de 2009
O OLHAR...
A claridade coroa-se de cinza,eu sei:
é sempre a tremer que levo o sol à boca.
O olhar desprende-se,cai de maduro.
Não sei que fazer de um olhar
que sobeja na árvore,
que fazer desse ardor
que sobra na boca,
no chão aguarda subir à nascente.
Não sei que destino é o da luz,
mas seja qual for
é o mesmo do olhar:há nele
uma poeira fraterna,
uma dor retardada,alguma sombra
fremente ainda
de calhandra assustada.
De Eugénio de Andrade
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
SONETO PRESENTE

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.
Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.
De Ary dos Santos
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
O ROMPIMENTO À BEIRA-LÁGRIMA
Enquanto a vela respirava,
Ela suspirava elan-
guescida.
Que esvaziava ela com a vela?
Que enchia eu com ela e com a vela?
Tão efluvial,meudeus,a despedida!
No empranchado dessa fragata,
numa panela (ou numa lata?)
a caldeirada
(ao lado,o vergas com o vinho)
que um ganga acocorado,enquanto assobiava,
mexia com um pauzinho.
De Alexandre O'Neill
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
PUNHO
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
A MULTIDÃO DAS SOMBRAS
domingo, 13 de setembro de 2009
RETRATO DE LUÍS DE CAMÕES

Não do mar meu Luís mas dessa mágoa
marchetada de tudo apartada de quem
não mais trouxer os olhos rasos de água
por esta terra de ninguém.
Não do mar meu Luís mas da raiz
da nossa amada pátria portuguesa
chulando o mal de bernardim
até à última grandeza.
Não do mar meu Luís mas da galega
couve do pranto aberta pranto raro
pranto tão canto que a cantar te quero
neste deserto de quem fala claro.
De Ary dos Santos
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
LOS HOMBRES DE PISAGUA

Pero la mano que te acaricia se detiene
junto al desierto,al borde de la costa maritima,
en un mundo azotado por la muerte.
Eres tú,Patria,eres ésta,éste es tu rostro?
Este martirio,esta corona roja
de alambres oxidados por el agua salobre?
Es Pisagua también tu rostro ahora?
Quién te hizo daño,cómo atravesaron
con un cuchillo tu desnuda miel?
Antes que a nadie,a ellos mi saludo,
a los hombres,al plinto de dolores,
a las mujeres,ramas de mañio,
a los niños,escuelas transparentes,
que sobre las arenas de Pisagua
fueron la patria perseguida,fueron
todo el honor de la tierra que amo.
Será el honor sagrado de mañana
haber sido arrojado a tus arenas,
Pisagua:haber sido de pronto
recogido a la noche del terror
por orden de un felón envilecido
y haber llegado a tu calcáreo infierno
por defender la dignidad del hombre.
....
De Pablo Neruda
domingo, 6 de setembro de 2009
SEI DE UMA PEDRA
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
FIM DE SEMANA

Estirado na areia,a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve para esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou,de azul e areia,
para onde,aos milhares,nos abalançamos,
como quem,às pressas,o corpo semeia.
De Alexandre O'Neill
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