sexta-feira, 7 de maio de 2010

ANIMAIS DOENTES

Animais doentes as palavras
Também elas
Vespas formigas cabras
De trote difícil e miúdo
Gafanhotos alerta
Pombas vomitadas pelo azul
Bichos de conta bichos que fazem de conta
Pequeníssimas pulgas uma sílaba só
Lagartos melancólicos
Estúpidas galinhas corriqueiras
Tudo tão doente tão difícil
De manejar de lançar de provocar
De reunir
De fazer viver

Ou então as orgulhosas
Palavras raras
Plumas de cores incandescentes
Altos gritos no aviário
E o branco sem uso
Imaculado
De certas aves da solidão

Para dizer
Queria palavras tão reais como chamas
E tão precárias
Palavras que vivessem só o tempo de dizer a sua parte
No discurso de fogo
Logo extintas na combustão das próximas
Palavras que não esperassem
Em sal ou em diamante
O minuto ridículo precioso raro
De sangrar a luz a gota de veneno
Cativa das entranhas ociosas.

De Alexandre O'Neill

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A MINHA HORTALICEIRA

Vem às vezes bater à minha porta
a velhinha mais linda cá do Bairro.
Vem trazer os mimos da sua fresca horta;
e tem um bater tão doce de meiguice...
- "Trago laranjas finas,meu senhor!
    Ajude-me a baixar o cesto,por favor..."

E eu,que sou filho do trigo e dos favos de mel,
que fui a defumar na flor da laranjeira,
fico enlevado naquele olhar tão doce
a contar laranjas como se anjo fosse
a contar por brincadeira...

- (Anjos não sabem somar,cabeça tonta!
   Nasceram com tudo já somado.
   - Pois não,mas faz de conta).
- Um quarteirão,não foi que disse?
- Vinte e cinco e mais uma para o Samuel.

De Lopes Sebastião

segunda-feira, 26 de abril de 2010

PROMETEU

Abafai meus gritos com mordaças,
maior será minha ânsia de gritá-los!

Amarrai meus pulsos com grilhões,
maior será minha ânsia de quebrá-los!

Rasgai a minha carne!
Triturai meus ossos!

O meu sangue será minha bandeira
e meus ossos o cimento duma outra humanidade.

Que aqui ninguém se entrega
- isto é vencer ou morrer -
é na vida que se perde
que há mais ânsia de viver!

De Joaquim Namorado

quarta-feira, 21 de abril de 2010

ABRIL DAS ONDAS

Nos sonhos vê-se o mar
sonhamos com o mar
em Abril
questão complicada 
que
a vida
descomplica
no mês de chuvas e flores
abril águas mil
primavera
rebentos de tudo
flores
amores
sonhos com os mares
ondas indomáveis
mesmo
numa rebentação rebelde
amores
mares
rebeldes
sonhos de abril
o das águas mil
com ondas
com mar
com amar

segunda-feira, 19 de abril de 2010

CATINGA DE INIMIGO

Minha senhora da cruz vermelha
    crucificada na cruz gamada
trazeis-me novas da minha orelha?

                  Ai  é cortada!

     Minha senhora visitadora
    da minha vida tão desairada
trazeis-me novas da minha cova?

                 Ai é cavada!

      Minha senhora retardadora
     desta vingança sempre adiada
trazeis-me novas da minha hora?

                Ui é suada!

De Ary dos Santos

sexta-feira, 9 de abril de 2010

SOBRE UMA FOTOGRAFIA DE AUGUSTO CABRITA


Enxúndias ensacadas no cotim da farda,
papel de cartucho que quase se rasgava,
repressor-burocrata,descansavas à porta
do teu posto de escrita e de porrada.

No coldre,a pistola;na pança,a feijoada;
na perna,a polaina;no cérebro,o corrimento
que é mais que sensação,menos que pensamento.

E sob o teu rabo,a cadeira gemia
ao compasso da nalga que se deslocava
do suor que sobre o tampo produzia.

Nos campos,a manada trabalhava.

Quem te fotografava,de longe é que o fazia.
Estava de passagem para uma outra vida.

De Alexandre O'Neill

terça-feira, 23 de março de 2010

PROCURO-TE

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh,a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e um corpo estendido.

Procuro-te:fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti,e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes de a morte se aproximar,procuro-te.
Nas ruas,nos barcos,na cama,
com amor,com ódio,ao sol,à chuva,
de noite,de dia,triste,alegre - procuro-te.

De Eugénio de Andrade