sexta-feira, 9 de julho de 2010

FIM DE SEMANA

Estirado na areia,a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou,de azul e areia,
para onde,aos milhares,nos abalançamos,
como quem,às pressas,o corpo semeia.
De Alexandre O'Neill

sexta-feira, 2 de julho de 2010

LAMENTO DE LUÍS DE CAMÕES NA MORTE DE ANTÓNIO,SEU ESCRAVO

    ... viveu em tanta pobreza,que se não tivera
    um jau,chamado António,que da Índia trouxe,
    que de noite pedia esmola para o ajudar a
    sustentar,não pudera aturar a vida.
    Como se viu,tanto que o jau morreu,
     não durará ele muitos meses.
     Pedro de Mariz

Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um.

- eu vi a terra limpa no teu rosto,
só no teu rosto e nunca em mais nenhum.

De Eugénio de Andrade

quarta-feira, 16 de junho de 2010

FEMININAS

Mulheres e cidades
Tem familiaridades
Um misto de prazer
E sutil crueldade
Atraem iguais e opostos
Tem beleza e horror
No mesmo rosto
São cheias de charme
E mau gosto
Protegem o criminoso
Mas tocam o alarme
As melhores são as que tem
Mais defeitos que qualidades
Uma simplicidade vaidosa
Uma validade espartana
Que acerta quando nos engana
E ri dos nossos equívocos
E nessa receita improvável
Nascem tão femininas
que seu grande mistério
é ter um coração habitável
Num frágil peito de menina.

De Gerson Deslandes,in Poetagem

domingo, 6 de junho de 2010

UM NOME

Di-lo-ei pela cor dos teus olhos,
pela luz
onde me deito;
di-lo-ei pelo ódio,pelo amor
com que toquei as pedras nuas,
por uns passos verdes de ternura,
pelas adelfas,
quando as adelfas nestas ruas
podem saber a morte;
pelo mar
azul,
azul-cantábrico,azul-bilbau,
quando amanhece;
di-lo-ei pelo sangue
violado
e limpo e inocente;
por uma árvore,
uma só árvore,di-lo-ei:
Guernica!

De Eugénio de Andrade

segunda-feira, 31 de maio de 2010

SONETO DE LA CARTA

Amor de mis entrañas,viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso,con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.

El aire es immortal,la piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna verte.

Pero yo te sufrí,rasgué mis venas,
tigre y paloma,sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.

Llena,pues,de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche del alma para siempre oscura.

De Frederico García Lorca

segunda-feira, 24 de maio de 2010

ELOGIO DE UMA CRIADA DE SERVIR

Mas quem és tu nobre sopeira
com os ralhos da criança
ainda há pouco?

Tu que pousas mãos de fada
entre os talheres
e percorres um reino
que se coze,aos poucos,

entre a hortaliça?

Tu mesmo avanças rápida
a esfregar os olhos
consegues da patroa
saídas,o namoro,as cartas.

Olha esses dedos
com seus aneis de peixe
nobre servente
com a capa dos bifes
e um pudim por coroa.

Olha esses cabelos
onde as flores de cebola
choram atadas pelo garfo
que trincha na cozinha.

Para aqui te estou falando
pois tu és a rainha
que descasca as batatas
e ouve concertina.

De Armando da Silva Carvalho

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A UM JOVEM SOLDADO

Jovem.
Coroam-lhe as giestas os cabelos,
Generosas e loiras como fora.
Jaz no imenso campo
E é um grito
Que o vento,que o incensa,
Chora.

Morto.
Seu corpo liso e belo que vivera
Como as papoilas acres,dorme agora.
E seu olhar azul é uma estrela
Que a terra,que o sepulta,
Ignora.

De Ary dos Santos