Da fruteira
não direi os frutos.
Que lá fiquem,
cerosos,
esferas (ou discos) para a luz funâmbula,
que não os esfaqueia
no quadro.
De Alexandre O'Neill
Óleo de Picasso
sábado, 4 de setembro de 2010
segunda-feira, 26 de julho de 2010
VERSOS
Versos?! Paguei-os. Alegria e raiva.
As palavras por vezes impotentes
outras vezes escorrendo sangue e seiva
ao morderem a vida com os dentes.
Poesia que és uns dias minha noiva
com seios de palavras complacentes.
Poesia que outras vezes grita e uiva
fêmea capaz de fecundar sementes.
Poesia minha amiga minha irmã
mulher da minha vida que inventei
para fazermos filhos amanhã.
Poesia minha força e meu castigo
meu incesto tão puro que nem sei
se é verdade que faço amor contigo.
De Ary dos Santos
Fotografia de Enrico Nawrath/Bayreuth Festival/EFE
As palavras por vezes impotentes
outras vezes escorrendo sangue e seiva
ao morderem a vida com os dentes.
Poesia que és uns dias minha noiva
com seios de palavras complacentes.
Poesia que outras vezes grita e uiva
fêmea capaz de fecundar sementes.
Poesia minha amiga minha irmã
mulher da minha vida que inventei
para fazermos filhos amanhã.
Poesia minha força e meu castigo
meu incesto tão puro que nem sei
se é verdade que faço amor contigo.
De Ary dos Santos
Fotografia de Enrico Nawrath/Bayreuth Festival/EFE
sexta-feira, 23 de julho de 2010
ERA UMA VEZ...
O que uma casa pensa de si
Se nunca foi moradia?
Nunca mais de alguns dias
Nunca mais que um feriado?
O que pensa de si o sobrado?
Que passou os natais fechados
E desfilou carnavais alugados
O que pensa de si a varanda
Que mesmo olhando pro oceano
Só tinha uma rede de pano
Para desbotar com os anos?
- Porque não nasci quitanda?
Teria talvez a esperança
De um dia virar mercado!
Ou continuar armazém
De secos e molhados.
O que pensou de nós aquela casa?
Quando a deixamos sozinha
Do dia pra noite?
Batemos asas como andorinhas
Em busca de outro verão
Virou só uma fotografia
Solar,do que não mais existe
Perdeu o mar na janela
O luar na soleira da porta
Ela nem é mais ela
E ninguém mais se importa
Como se a casa não tivesse coração
Hoje eu descobri,muito triste
Que coração,a casa tinha
Nós é que não.
De Gerson Deslandes
Se nunca foi moradia?
Nunca mais de alguns dias
Nunca mais que um feriado?
O que pensa de si o sobrado?
Que passou os natais fechados
E desfilou carnavais alugados
O que pensa de si a varanda
Que mesmo olhando pro oceano
Só tinha uma rede de pano
Para desbotar com os anos?
- Porque não nasci quitanda?
Teria talvez a esperança
De um dia virar mercado!
Ou continuar armazém
De secos e molhados.
O que pensou de nós aquela casa?
Quando a deixamos sozinha
Do dia pra noite?
Batemos asas como andorinhas
Em busca de outro verão
Virou só uma fotografia
Solar,do que não mais existe
Perdeu o mar na janela
O luar na soleira da porta
Ela nem é mais ela
E ninguém mais se importa
Como se a casa não tivesse coração
Hoje eu descobri,muito triste
Que coração,a casa tinha
Nós é que não.
De Gerson Deslandes
sexta-feira, 9 de julho de 2010
FIM DE SEMANA
Estirado na areia,a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou,de azul e areia,
para onde,aos milhares,nos abalançamos,
como quem,às pressas,o corpo semeia.
De Alexandre O'Neill
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou,de azul e areia,
para onde,aos milhares,nos abalançamos,
como quem,às pressas,o corpo semeia.
De Alexandre O'Neill
sexta-feira, 2 de julho de 2010
LAMENTO DE LUÍS DE CAMÕES NA MORTE DE ANTÓNIO,SEU ESCRAVO
... viveu em tanta pobreza,que se não tivera
um jau,chamado António,que da Índia trouxe,
que de noite pedia esmola para o ajudar a
sustentar,não pudera aturar a vida.
Como se viu,tanto que o jau morreu,
não durará ele muitos meses.
Pedro de Mariz
Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um.
- eu vi a terra limpa no teu rosto,
só no teu rosto e nunca em mais nenhum.
De Eugénio de Andrade
um jau,chamado António,que da Índia trouxe,
que de noite pedia esmola para o ajudar a
sustentar,não pudera aturar a vida.
Como se viu,tanto que o jau morreu,
não durará ele muitos meses.
Pedro de Mariz
Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um.
- eu vi a terra limpa no teu rosto,
só no teu rosto e nunca em mais nenhum.
De Eugénio de Andrade
quarta-feira, 16 de junho de 2010
FEMININAS
Mulheres e cidades
Tem familiaridades
Um misto de prazer
E sutil crueldade
Atraem iguais e opostos
Tem beleza e horror
No mesmo rosto
São cheias de charme
E mau gosto
Protegem o criminoso
Mas tocam o alarme
As melhores são as que tem
Mais defeitos que qualidades
Uma simplicidade vaidosa
Uma validade espartana
Que acerta quando nos engana
E ri dos nossos equívocos
E nessa receita improvável
Nascem tão femininas
que seu grande mistério
é ter um coração habitável
Num frágil peito de menina.
De Gerson Deslandes,in Poetagem
Tem familiaridades
Um misto de prazer
E sutil crueldade
Atraem iguais e opostos
Tem beleza e horror
No mesmo rosto
São cheias de charme
E mau gosto
Protegem o criminoso
Mas tocam o alarme
As melhores são as que tem
Mais defeitos que qualidades
Uma simplicidade vaidosa
Uma validade espartana
Que acerta quando nos engana
E ri dos nossos equívocos
E nessa receita improvável
Nascem tão femininas
que seu grande mistério
é ter um coração habitável
Num frágil peito de menina.
De Gerson Deslandes,in Poetagem
domingo, 6 de junho de 2010
UM NOME
Di-lo-ei pela cor dos teus olhos,
pela luz
onde me deito;
di-lo-ei pelo ódio,pelo amor
com que toquei as pedras nuas,
por uns passos verdes de ternura,
pelas adelfas,
quando as adelfas nestas ruas
podem saber a morte;
pelo mar
azul,
azul-cantábrico,azul-bilbau,
quando amanhece;
di-lo-ei pelo sangue
violado
e limpo e inocente;
por uma árvore,
uma só árvore,di-lo-ei:
Guernica!
De Eugénio de Andrade
pela luz
onde me deito;
di-lo-ei pelo ódio,pelo amor
com que toquei as pedras nuas,
por uns passos verdes de ternura,
pelas adelfas,
quando as adelfas nestas ruas
podem saber a morte;
pelo mar
azul,
azul-cantábrico,azul-bilbau,
quando amanhece;
di-lo-ei pelo sangue
violado
e limpo e inocente;
por uma árvore,
uma só árvore,di-lo-ei:
Guernica!
De Eugénio de Andrade
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