"Passam varinas de gargantas sãs"
fraldiqueiros atrás de um bom regaço
bébés em quatro rodas e mamãs
com quem me faço.
Passa uma sobrancelha (ou uma andorinha?)
um joelho aprendiz
uma baraboleta (coitadina!)
presa nos dedos de um petiz.
Passa um chá de caridade pelo ar
a ver que asilo há-de ajudar
e a D.Pepa espanhola quase nua
que não passa de moda mas muda de rua.
Passa D.Alda de Carvalho e Castro
Tudela da Fonseca (ó respiração!)
Lopes e Silva e ainda Bastos
entre-parêntisis Bramão
Passa depressa ó João!
De Alexandre O'Neill
domingo, 3 de outubro de 2010
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
LICENÇA DE DORMIR
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
De Adélia Prado
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
domingo, 12 de setembro de 2010
FIM DE VERÃO
Há dias,há noites em que as águas se movem
lentas na minha memória.Movem-se?Daqui as vejo imóveis,com esse peso do verão sobre o corpo.Ninguém dirá que respiram,que não estão mortas,talvez corrompidas,pelo menos sufocadas pelas últimas poeiras,as mais cruéis.Contemplo-as,tão caladas na sua clausura - estremecidas águas! E tão expectantes,não à superfície,nas entranhas,nas suas raízes mais fundas,onde uma espécie de murmúrio se articula,modula na sombra,umas sílabas prenhes de silêncio se desprendem,rebentam à tona,ténues bolhas de ar,menos que suspiros ainda.Como esquecê-las ?
De Eugénio de Andrade
Fotografia em http://acasadopoeta.zip.net/
lentas na minha memória.Movem-se?Daqui as vejo imóveis,com esse peso do verão sobre o corpo.Ninguém dirá que respiram,que não estão mortas,talvez corrompidas,pelo menos sufocadas pelas últimas poeiras,as mais cruéis.Contemplo-as,tão caladas na sua clausura - estremecidas águas! E tão expectantes,não à superfície,nas entranhas,nas suas raízes mais fundas,onde uma espécie de murmúrio se articula,modula na sombra,umas sílabas prenhes de silêncio se desprendem,rebentam à tona,ténues bolhas de ar,menos que suspiros ainda.Como esquecê-las ?
De Eugénio de Andrade
Fotografia em http://acasadopoeta.zip.net/
sábado, 4 de setembro de 2010
NATUREZA MORTA
Da fruteira
não direi os frutos.
Que lá fiquem,
cerosos,
esferas (ou discos) para a luz funâmbula,
que não os esfaqueia
no quadro.
De Alexandre O'Neill
Óleo de Picasso
não direi os frutos.
Que lá fiquem,
cerosos,
esferas (ou discos) para a luz funâmbula,
que não os esfaqueia
no quadro.
De Alexandre O'Neill
Óleo de Picasso
segunda-feira, 26 de julho de 2010
VERSOS
Versos?! Paguei-os. Alegria e raiva.
As palavras por vezes impotentes
outras vezes escorrendo sangue e seiva
ao morderem a vida com os dentes.
Poesia que és uns dias minha noiva
com seios de palavras complacentes.
Poesia que outras vezes grita e uiva
fêmea capaz de fecundar sementes.
Poesia minha amiga minha irmã
mulher da minha vida que inventei
para fazermos filhos amanhã.
Poesia minha força e meu castigo
meu incesto tão puro que nem sei
se é verdade que faço amor contigo.
De Ary dos Santos
Fotografia de Enrico Nawrath/Bayreuth Festival/EFE
As palavras por vezes impotentes
outras vezes escorrendo sangue e seiva
ao morderem a vida com os dentes.
Poesia que és uns dias minha noiva
com seios de palavras complacentes.
Poesia que outras vezes grita e uiva
fêmea capaz de fecundar sementes.
Poesia minha amiga minha irmã
mulher da minha vida que inventei
para fazermos filhos amanhã.
Poesia minha força e meu castigo
meu incesto tão puro que nem sei
se é verdade que faço amor contigo.
De Ary dos Santos
Fotografia de Enrico Nawrath/Bayreuth Festival/EFE
sexta-feira, 23 de julho de 2010
ERA UMA VEZ...
O que uma casa pensa de si
Se nunca foi moradia?
Nunca mais de alguns dias
Nunca mais que um feriado?
O que pensa de si o sobrado?
Que passou os natais fechados
E desfilou carnavais alugados
O que pensa de si a varanda
Que mesmo olhando pro oceano
Só tinha uma rede de pano
Para desbotar com os anos?
- Porque não nasci quitanda?
Teria talvez a esperança
De um dia virar mercado!
Ou continuar armazém
De secos e molhados.
O que pensou de nós aquela casa?
Quando a deixamos sozinha
Do dia pra noite?
Batemos asas como andorinhas
Em busca de outro verão
Virou só uma fotografia
Solar,do que não mais existe
Perdeu o mar na janela
O luar na soleira da porta
Ela nem é mais ela
E ninguém mais se importa
Como se a casa não tivesse coração
Hoje eu descobri,muito triste
Que coração,a casa tinha
Nós é que não.
De Gerson Deslandes
Se nunca foi moradia?
Nunca mais de alguns dias
Nunca mais que um feriado?
O que pensa de si o sobrado?
Que passou os natais fechados
E desfilou carnavais alugados
O que pensa de si a varanda
Que mesmo olhando pro oceano
Só tinha uma rede de pano
Para desbotar com os anos?
- Porque não nasci quitanda?
Teria talvez a esperança
De um dia virar mercado!
Ou continuar armazém
De secos e molhados.
O que pensou de nós aquela casa?
Quando a deixamos sozinha
Do dia pra noite?
Batemos asas como andorinhas
Em busca de outro verão
Virou só uma fotografia
Solar,do que não mais existe
Perdeu o mar na janela
O luar na soleira da porta
Ela nem é mais ela
E ninguém mais se importa
Como se a casa não tivesse coração
Hoje eu descobri,muito triste
Que coração,a casa tinha
Nós é que não.
De Gerson Deslandes
sexta-feira, 9 de julho de 2010
FIM DE SEMANA
Estirado na areia,a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou,de azul e areia,
para onde,aos milhares,nos abalançamos,
como quem,às pressas,o corpo semeia.
De Alexandre O'Neill
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou,de azul e areia,
para onde,aos milhares,nos abalançamos,
como quem,às pressas,o corpo semeia.
De Alexandre O'Neill
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