segunda-feira, 1 de novembro de 2010

PALAVRAS

Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?

E das consoantes,que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?

Que lhes dirás,quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?

De Eugénio de Andrade
Ilustração retirada do blog "Oração e Trabalho"

terça-feira, 5 de outubro de 2010

SONETO DE INÊS

Dos olhos corre a água do Mondego
os cabelos parecem os choupais
Inês!Inês!Raínha sem sossego
dum rei que por amor não pode mais.

Amor imenso que também é cego
amor que torna os homens imortais.
Inês!Inês!Distância a que não chego
morta tão cedo por viver demais.

Os teus gestos são verdes  os teus braços
são gaivotas poisadas no regaço
dum mar azul turquesa  intemporal.

As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços
Inês!Inês!Inês de Portugal.

De Ary dos Santos

domingo, 3 de outubro de 2010

CORTEJO

"Passam varinas de gargantas sãs"
fraldiqueiros atrás de um bom regaço
bébés em quatro rodas e mamãs
com quem me faço.

Passa uma sobrancelha (ou uma andorinha?)
um joelho aprendiz
uma baraboleta (coitadina!)
presa nos dedos de um petiz.

Passa um chá de caridade pelo ar
a ver que asilo há-de ajudar
e a D.Pepa espanhola quase nua
que não passa de moda mas muda de rua.

Passa D.Alda de Carvalho e Castro
Tudela da Fonseca (ó respiração!)
Lopes e Silva e ainda Bastos
entre-parêntisis Bramão

Passa depressa ó João!

De Alexandre O'Neill

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

LICENÇA DE DORMIR

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.


Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.


De Adélia Prado

domingo, 12 de setembro de 2010

FIM DE VERÃO

Há dias,há noites em que as águas se movem
lentas na minha memória.Movem-se?Daqui as vejo imóveis,com esse peso do verão sobre o corpo.Ninguém dirá que respiram,que não estão mortas,talvez corrompidas,pelo menos sufocadas pelas últimas poeiras,as mais cruéis.Contemplo-as,tão caladas na sua clausura - estremecidas águas! E tão expectantes,não à superfície,nas entranhas,nas suas raízes mais fundas,onde uma espécie de murmúrio se articula,modula na sombra,umas sílabas prenhes de silêncio se desprendem,rebentam à tona,ténues bolhas de ar,menos que suspiros ainda.Como esquecê-las ?

De Eugénio de Andrade
Fotografia em http://acasadopoeta.zip.net/

sábado, 4 de setembro de 2010

NATUREZA MORTA

Da fruteira
não direi os frutos.

Que lá fiquem,
cerosos,
esferas (ou discos) para a luz funâmbula,
que não os esfaqueia
no quadro.

De Alexandre O'Neill
Óleo de Picasso

segunda-feira, 26 de julho de 2010

VERSOS

Versos?! Paguei-os. Alegria e raiva.
As palavras por vezes impotentes
outras vezes escorrendo sangue e seiva
ao morderem a vida com os dentes.

Poesia que és uns dias minha noiva
com seios de palavras complacentes.
Poesia que outras vezes grita e uiva
fêmea capaz de fecundar sementes.

Poesia minha amiga minha irmã
mulher da minha vida que inventei
para fazermos filhos amanhã.

Poesia minha força e meu castigo
meu incesto tão puro que nem sei
se é verdade que faço amor contigo.

De Ary dos Santos
Fotografia de Enrico Nawrath/Bayreuth Festival/EFE