Com um nervoso no pé
E uma aflição na mão
Sem saber direito o que é
Fui consultar o cirurgião
Que já veio marcando a sangria
Para aquele mesmo dia
Mas eu
Saí de fininho
Fui visitar minha tia
Num terreiro lá da Olaria
Onde ela dá plantão
Depois de ouvir meus lamentos
Me benzeu com todo o sentimento
De amor que tem pelos seus
Falou com todo o respeito
A receita em nome de Deus:
- Tu tá com tesão de samba
Saudade pegou de jeito
De samba na mão
De samba no pé
Não vejo outra solução
Aproveita que é sexta-feira
Vai para a gafieira
Mas leva tua mulher!
De Gerson Deslandes,in Poetagem
domingo, 21 de novembro de 2010
domingo, 7 de novembro de 2010
JOSÉ
E agora,José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora,José?
e agora,você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que fez versos,
que ama,protesta?
e agora,José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora,José?
E agora,José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José,e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro,José!
Sózinho no escuro
qual bicho-de-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha,José!
José,para onde?
De Carlos Drummond de Andrade(1902 - 1987)
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora,José?
e agora,você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que fez versos,
que ama,protesta?
e agora,José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora,José?
E agora,José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José,e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro,José!
Sózinho no escuro
qual bicho-de-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha,José!
José,para onde?
De Carlos Drummond de Andrade(1902 - 1987)
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
PALAVRAS
Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?
E das consoantes,que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?
Que lhes dirás,quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?
De Eugénio de Andrade
Ilustração retirada do blog "Oração e Trabalho"
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?
E das consoantes,que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?
Que lhes dirás,quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?
De Eugénio de Andrade
Ilustração retirada do blog "Oração e Trabalho"
terça-feira, 5 de outubro de 2010
SONETO DE INÊS
Dos olhos corre a água do Mondego
os cabelos parecem os choupais
Inês!Inês!Raínha sem sossego
dum rei que por amor não pode mais.
Amor imenso que também é cego
amor que torna os homens imortais.
Inês!Inês!Distância a que não chego
morta tão cedo por viver demais.
Os teus gestos são verdes os teus braços
são gaivotas poisadas no regaço
dum mar azul turquesa intemporal.
As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços
Inês!Inês!Inês de Portugal.
De Ary dos Santos
os cabelos parecem os choupais
Inês!Inês!Raínha sem sossego
dum rei que por amor não pode mais.
Amor imenso que também é cego
amor que torna os homens imortais.
Inês!Inês!Distância a que não chego
morta tão cedo por viver demais.
Os teus gestos são verdes os teus braços
são gaivotas poisadas no regaço
dum mar azul turquesa intemporal.
As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços
Inês!Inês!Inês de Portugal.
De Ary dos Santos
domingo, 3 de outubro de 2010
CORTEJO
"Passam varinas de gargantas sãs"
fraldiqueiros atrás de um bom regaço
bébés em quatro rodas e mamãs
com quem me faço.
Passa uma sobrancelha (ou uma andorinha?)
um joelho aprendiz
uma baraboleta (coitadina!)
presa nos dedos de um petiz.
Passa um chá de caridade pelo ar
a ver que asilo há-de ajudar
e a D.Pepa espanhola quase nua
que não passa de moda mas muda de rua.
Passa D.Alda de Carvalho e Castro
Tudela da Fonseca (ó respiração!)
Lopes e Silva e ainda Bastos
entre-parêntisis Bramão
Passa depressa ó João!
De Alexandre O'Neill
fraldiqueiros atrás de um bom regaço
bébés em quatro rodas e mamãs
com quem me faço.
Passa uma sobrancelha (ou uma andorinha?)
um joelho aprendiz
uma baraboleta (coitadina!)
presa nos dedos de um petiz.
Passa um chá de caridade pelo ar
a ver que asilo há-de ajudar
e a D.Pepa espanhola quase nua
que não passa de moda mas muda de rua.
Passa D.Alda de Carvalho e Castro
Tudela da Fonseca (ó respiração!)
Lopes e Silva e ainda Bastos
entre-parêntisis Bramão
Passa depressa ó João!
De Alexandre O'Neill
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
LICENÇA DE DORMIR
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
De Adélia Prado
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
domingo, 12 de setembro de 2010
FIM DE VERÃO
Há dias,há noites em que as águas se movem
lentas na minha memória.Movem-se?Daqui as vejo imóveis,com esse peso do verão sobre o corpo.Ninguém dirá que respiram,que não estão mortas,talvez corrompidas,pelo menos sufocadas pelas últimas poeiras,as mais cruéis.Contemplo-as,tão caladas na sua clausura - estremecidas águas! E tão expectantes,não à superfície,nas entranhas,nas suas raízes mais fundas,onde uma espécie de murmúrio se articula,modula na sombra,umas sílabas prenhes de silêncio se desprendem,rebentam à tona,ténues bolhas de ar,menos que suspiros ainda.Como esquecê-las ?
De Eugénio de Andrade
Fotografia em http://acasadopoeta.zip.net/
lentas na minha memória.Movem-se?Daqui as vejo imóveis,com esse peso do verão sobre o corpo.Ninguém dirá que respiram,que não estão mortas,talvez corrompidas,pelo menos sufocadas pelas últimas poeiras,as mais cruéis.Contemplo-as,tão caladas na sua clausura - estremecidas águas! E tão expectantes,não à superfície,nas entranhas,nas suas raízes mais fundas,onde uma espécie de murmúrio se articula,modula na sombra,umas sílabas prenhes de silêncio se desprendem,rebentam à tona,ténues bolhas de ar,menos que suspiros ainda.Como esquecê-las ?
De Eugénio de Andrade
Fotografia em http://acasadopoeta.zip.net/
Assinar:
Postagens (Atom)





