A quem como a ti amei eu,ó sombra amada!
Atraí-te a mim,pra dentro de mim - e desde então
quase me fiz eu sombra,e corpo tu.
Todavia,os meus olhos não aprendem,
afeitos a ver as coisas fora de si;
pra eles és sempre o eterno "fora-de-mim".
Ah,estes olhos põem-me fora de mim!
De F.Nietzsche
domingo, 5 de dezembro de 2010
domingo, 21 de novembro de 2010
SAUDADE DO SAMBA
Com um nervoso no pé
E uma aflição na mão
Sem saber direito o que é
Fui consultar o cirurgião
Que já veio marcando a sangria
Para aquele mesmo dia
Mas eu
Saí de fininho
Fui visitar minha tia
Num terreiro lá da Olaria
Onde ela dá plantão
Depois de ouvir meus lamentos
Me benzeu com todo o sentimento
De amor que tem pelos seus
Falou com todo o respeito
A receita em nome de Deus:
- Tu tá com tesão de samba
Saudade pegou de jeito
De samba na mão
De samba no pé
Não vejo outra solução
Aproveita que é sexta-feira
Vai para a gafieira
Mas leva tua mulher!
De Gerson Deslandes,in Poetagem
E uma aflição na mão
Sem saber direito o que é
Fui consultar o cirurgião
Que já veio marcando a sangria
Para aquele mesmo dia
Mas eu
Saí de fininho
Fui visitar minha tia
Num terreiro lá da Olaria
Onde ela dá plantão
Depois de ouvir meus lamentos
Me benzeu com todo o sentimento
De amor que tem pelos seus
Falou com todo o respeito
A receita em nome de Deus:
- Tu tá com tesão de samba
Saudade pegou de jeito
De samba na mão
De samba no pé
Não vejo outra solução
Aproveita que é sexta-feira
Vai para a gafieira
Mas leva tua mulher!
De Gerson Deslandes,in Poetagem
domingo, 7 de novembro de 2010
JOSÉ
E agora,José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora,José?
e agora,você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que fez versos,
que ama,protesta?
e agora,José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora,José?
E agora,José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José,e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro,José!
Sózinho no escuro
qual bicho-de-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha,José!
José,para onde?
De Carlos Drummond de Andrade(1902 - 1987)
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora,José?
e agora,você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que fez versos,
que ama,protesta?
e agora,José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora,José?
E agora,José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José,e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro,José!
Sózinho no escuro
qual bicho-de-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha,José!
José,para onde?
De Carlos Drummond de Andrade(1902 - 1987)
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
PALAVRAS
Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?
E das consoantes,que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?
Que lhes dirás,quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?
De Eugénio de Andrade
Ilustração retirada do blog "Oração e Trabalho"
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?
E das consoantes,que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?
Que lhes dirás,quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?
De Eugénio de Andrade
Ilustração retirada do blog "Oração e Trabalho"
terça-feira, 5 de outubro de 2010
SONETO DE INÊS
Dos olhos corre a água do Mondego
os cabelos parecem os choupais
Inês!Inês!Raínha sem sossego
dum rei que por amor não pode mais.
Amor imenso que também é cego
amor que torna os homens imortais.
Inês!Inês!Distância a que não chego
morta tão cedo por viver demais.
Os teus gestos são verdes os teus braços
são gaivotas poisadas no regaço
dum mar azul turquesa intemporal.
As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços
Inês!Inês!Inês de Portugal.
De Ary dos Santos
os cabelos parecem os choupais
Inês!Inês!Raínha sem sossego
dum rei que por amor não pode mais.
Amor imenso que também é cego
amor que torna os homens imortais.
Inês!Inês!Distância a que não chego
morta tão cedo por viver demais.
Os teus gestos são verdes os teus braços
são gaivotas poisadas no regaço
dum mar azul turquesa intemporal.
As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços
Inês!Inês!Inês de Portugal.
De Ary dos Santos
domingo, 3 de outubro de 2010
CORTEJO
"Passam varinas de gargantas sãs"
fraldiqueiros atrás de um bom regaço
bébés em quatro rodas e mamãs
com quem me faço.
Passa uma sobrancelha (ou uma andorinha?)
um joelho aprendiz
uma baraboleta (coitadina!)
presa nos dedos de um petiz.
Passa um chá de caridade pelo ar
a ver que asilo há-de ajudar
e a D.Pepa espanhola quase nua
que não passa de moda mas muda de rua.
Passa D.Alda de Carvalho e Castro
Tudela da Fonseca (ó respiração!)
Lopes e Silva e ainda Bastos
entre-parêntisis Bramão
Passa depressa ó João!
De Alexandre O'Neill
fraldiqueiros atrás de um bom regaço
bébés em quatro rodas e mamãs
com quem me faço.
Passa uma sobrancelha (ou uma andorinha?)
um joelho aprendiz
uma baraboleta (coitadina!)
presa nos dedos de um petiz.
Passa um chá de caridade pelo ar
a ver que asilo há-de ajudar
e a D.Pepa espanhola quase nua
que não passa de moda mas muda de rua.
Passa D.Alda de Carvalho e Castro
Tudela da Fonseca (ó respiração!)
Lopes e Silva e ainda Bastos
entre-parêntisis Bramão
Passa depressa ó João!
De Alexandre O'Neill
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
LICENÇA DE DORMIR
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
De Adélia Prado
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
domingo, 12 de setembro de 2010
FIM DE VERÃO
Há dias,há noites em que as águas se movem
lentas na minha memória.Movem-se?Daqui as vejo imóveis,com esse peso do verão sobre o corpo.Ninguém dirá que respiram,que não estão mortas,talvez corrompidas,pelo menos sufocadas pelas últimas poeiras,as mais cruéis.Contemplo-as,tão caladas na sua clausura - estremecidas águas! E tão expectantes,não à superfície,nas entranhas,nas suas raízes mais fundas,onde uma espécie de murmúrio se articula,modula na sombra,umas sílabas prenhes de silêncio se desprendem,rebentam à tona,ténues bolhas de ar,menos que suspiros ainda.Como esquecê-las ?
De Eugénio de Andrade
Fotografia em http://acasadopoeta.zip.net/
lentas na minha memória.Movem-se?Daqui as vejo imóveis,com esse peso do verão sobre o corpo.Ninguém dirá que respiram,que não estão mortas,talvez corrompidas,pelo menos sufocadas pelas últimas poeiras,as mais cruéis.Contemplo-as,tão caladas na sua clausura - estremecidas águas! E tão expectantes,não à superfície,nas entranhas,nas suas raízes mais fundas,onde uma espécie de murmúrio se articula,modula na sombra,umas sílabas prenhes de silêncio se desprendem,rebentam à tona,ténues bolhas de ar,menos que suspiros ainda.Como esquecê-las ?
De Eugénio de Andrade
Fotografia em http://acasadopoeta.zip.net/
sábado, 4 de setembro de 2010
NATUREZA MORTA
Da fruteira
não direi os frutos.
Que lá fiquem,
cerosos,
esferas (ou discos) para a luz funâmbula,
que não os esfaqueia
no quadro.
De Alexandre O'Neill
Óleo de Picasso
não direi os frutos.
Que lá fiquem,
cerosos,
esferas (ou discos) para a luz funâmbula,
que não os esfaqueia
no quadro.
De Alexandre O'Neill
Óleo de Picasso
segunda-feira, 26 de julho de 2010
VERSOS
Versos?! Paguei-os. Alegria e raiva.
As palavras por vezes impotentes
outras vezes escorrendo sangue e seiva
ao morderem a vida com os dentes.
Poesia que és uns dias minha noiva
com seios de palavras complacentes.
Poesia que outras vezes grita e uiva
fêmea capaz de fecundar sementes.
Poesia minha amiga minha irmã
mulher da minha vida que inventei
para fazermos filhos amanhã.
Poesia minha força e meu castigo
meu incesto tão puro que nem sei
se é verdade que faço amor contigo.
De Ary dos Santos
Fotografia de Enrico Nawrath/Bayreuth Festival/EFE
As palavras por vezes impotentes
outras vezes escorrendo sangue e seiva
ao morderem a vida com os dentes.
Poesia que és uns dias minha noiva
com seios de palavras complacentes.
Poesia que outras vezes grita e uiva
fêmea capaz de fecundar sementes.
Poesia minha amiga minha irmã
mulher da minha vida que inventei
para fazermos filhos amanhã.
Poesia minha força e meu castigo
meu incesto tão puro que nem sei
se é verdade que faço amor contigo.
De Ary dos Santos
Fotografia de Enrico Nawrath/Bayreuth Festival/EFE
sexta-feira, 23 de julho de 2010
ERA UMA VEZ...
O que uma casa pensa de si
Se nunca foi moradia?
Nunca mais de alguns dias
Nunca mais que um feriado?
O que pensa de si o sobrado?
Que passou os natais fechados
E desfilou carnavais alugados
O que pensa de si a varanda
Que mesmo olhando pro oceano
Só tinha uma rede de pano
Para desbotar com os anos?
- Porque não nasci quitanda?
Teria talvez a esperança
De um dia virar mercado!
Ou continuar armazém
De secos e molhados.
O que pensou de nós aquela casa?
Quando a deixamos sozinha
Do dia pra noite?
Batemos asas como andorinhas
Em busca de outro verão
Virou só uma fotografia
Solar,do que não mais existe
Perdeu o mar na janela
O luar na soleira da porta
Ela nem é mais ela
E ninguém mais se importa
Como se a casa não tivesse coração
Hoje eu descobri,muito triste
Que coração,a casa tinha
Nós é que não.
De Gerson Deslandes
Se nunca foi moradia?
Nunca mais de alguns dias
Nunca mais que um feriado?
O que pensa de si o sobrado?
Que passou os natais fechados
E desfilou carnavais alugados
O que pensa de si a varanda
Que mesmo olhando pro oceano
Só tinha uma rede de pano
Para desbotar com os anos?
- Porque não nasci quitanda?
Teria talvez a esperança
De um dia virar mercado!
Ou continuar armazém
De secos e molhados.
O que pensou de nós aquela casa?
Quando a deixamos sozinha
Do dia pra noite?
Batemos asas como andorinhas
Em busca de outro verão
Virou só uma fotografia
Solar,do que não mais existe
Perdeu o mar na janela
O luar na soleira da porta
Ela nem é mais ela
E ninguém mais se importa
Como se a casa não tivesse coração
Hoje eu descobri,muito triste
Que coração,a casa tinha
Nós é que não.
De Gerson Deslandes
sexta-feira, 9 de julho de 2010
FIM DE SEMANA
Estirado na areia,a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou,de azul e areia,
para onde,aos milhares,nos abalançamos,
como quem,às pressas,o corpo semeia.
De Alexandre O'Neill
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou,de azul e areia,
para onde,aos milhares,nos abalançamos,
como quem,às pressas,o corpo semeia.
De Alexandre O'Neill
sexta-feira, 2 de julho de 2010
LAMENTO DE LUÍS DE CAMÕES NA MORTE DE ANTÓNIO,SEU ESCRAVO
... viveu em tanta pobreza,que se não tivera
um jau,chamado António,que da Índia trouxe,
que de noite pedia esmola para o ajudar a
sustentar,não pudera aturar a vida.
Como se viu,tanto que o jau morreu,
não durará ele muitos meses.
Pedro de Mariz
Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um.
- eu vi a terra limpa no teu rosto,
só no teu rosto e nunca em mais nenhum.
De Eugénio de Andrade
um jau,chamado António,que da Índia trouxe,
que de noite pedia esmola para o ajudar a
sustentar,não pudera aturar a vida.
Como se viu,tanto que o jau morreu,
não durará ele muitos meses.
Pedro de Mariz
Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um.
- eu vi a terra limpa no teu rosto,
só no teu rosto e nunca em mais nenhum.
De Eugénio de Andrade
quarta-feira, 16 de junho de 2010
FEMININAS
Mulheres e cidades
Tem familiaridades
Um misto de prazer
E sutil crueldade
Atraem iguais e opostos
Tem beleza e horror
No mesmo rosto
São cheias de charme
E mau gosto
Protegem o criminoso
Mas tocam o alarme
As melhores são as que tem
Mais defeitos que qualidades
Uma simplicidade vaidosa
Uma validade espartana
Que acerta quando nos engana
E ri dos nossos equívocos
E nessa receita improvável
Nascem tão femininas
que seu grande mistério
é ter um coração habitável
Num frágil peito de menina.
De Gerson Deslandes,in Poetagem
Tem familiaridades
Um misto de prazer
E sutil crueldade
Atraem iguais e opostos
Tem beleza e horror
No mesmo rosto
São cheias de charme
E mau gosto
Protegem o criminoso
Mas tocam o alarme
As melhores são as que tem
Mais defeitos que qualidades
Uma simplicidade vaidosa
Uma validade espartana
Que acerta quando nos engana
E ri dos nossos equívocos
E nessa receita improvável
Nascem tão femininas
que seu grande mistério
é ter um coração habitável
Num frágil peito de menina.
De Gerson Deslandes,in Poetagem
domingo, 6 de junho de 2010
UM NOME
Di-lo-ei pela cor dos teus olhos,
pela luz
onde me deito;
di-lo-ei pelo ódio,pelo amor
com que toquei as pedras nuas,
por uns passos verdes de ternura,
pelas adelfas,
quando as adelfas nestas ruas
podem saber a morte;
pelo mar
azul,
azul-cantábrico,azul-bilbau,
quando amanhece;
di-lo-ei pelo sangue
violado
e limpo e inocente;
por uma árvore,
uma só árvore,di-lo-ei:
Guernica!
De Eugénio de Andrade
pela luz
onde me deito;
di-lo-ei pelo ódio,pelo amor
com que toquei as pedras nuas,
por uns passos verdes de ternura,
pelas adelfas,
quando as adelfas nestas ruas
podem saber a morte;
pelo mar
azul,
azul-cantábrico,azul-bilbau,
quando amanhece;
di-lo-ei pelo sangue
violado
e limpo e inocente;
por uma árvore,
uma só árvore,di-lo-ei:
Guernica!
De Eugénio de Andrade
segunda-feira, 31 de maio de 2010
SONETO DE LA CARTA
Amor de mis entrañas,viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso,con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.
El aire es immortal,la piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna verte.
Pero yo te sufrí,rasgué mis venas,
tigre y paloma,sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.
Llena,pues,de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche del alma para siempre oscura.
De Frederico García Lorca
en vano espero tu palabra escrita
y pienso,con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.
El aire es immortal,la piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna verte.
Pero yo te sufrí,rasgué mis venas,
tigre y paloma,sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.
Llena,pues,de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche del alma para siempre oscura.
De Frederico García Lorca
segunda-feira, 24 de maio de 2010
ELOGIO DE UMA CRIADA DE SERVIR
Mas quem és tu nobre sopeira
com os ralhos da criança
ainda há pouco?
Tu que pousas mãos de fada
entre os talheres
e percorres um reino
que se coze,aos poucos,
entre a hortaliça?
Tu mesmo avanças rápida
a esfregar os olhos
consegues da patroa
saídas,o namoro,as cartas.
Olha esses dedos
com seus aneis de peixe
nobre servente
com a capa dos bifes
e um pudim por coroa.
Olha esses cabelos
onde as flores de cebola
choram atadas pelo garfo
que trincha na cozinha.
Para aqui te estou falando
pois tu és a rainha
que descasca as batatas
e ouve concertina.
De Armando da Silva Carvalho
com os ralhos da criança
ainda há pouco?
Tu que pousas mãos de fada
entre os talheres
e percorres um reino
que se coze,aos poucos,
entre a hortaliça?
Tu mesmo avanças rápida
a esfregar os olhos
consegues da patroa
saídas,o namoro,as cartas.
Olha esses dedos
com seus aneis de peixe
nobre servente
com a capa dos bifes
e um pudim por coroa.
Olha esses cabelos
onde as flores de cebola
choram atadas pelo garfo
que trincha na cozinha.
Para aqui te estou falando
pois tu és a rainha
que descasca as batatas
e ouve concertina.
De Armando da Silva Carvalho
sexta-feira, 14 de maio de 2010
A UM JOVEM SOLDADO
Jovem.
Coroam-lhe as giestas os cabelos,
Generosas e loiras como fora.
Jaz no imenso campo
E é um grito
Que o vento,que o incensa,
Chora.
Morto.
Seu corpo liso e belo que vivera
Como as papoilas acres,dorme agora.
E seu olhar azul é uma estrela
Que a terra,que o sepulta,
Ignora.
De Ary dos Santos
Coroam-lhe as giestas os cabelos,
Generosas e loiras como fora.
Jaz no imenso campo
E é um grito
Que o vento,que o incensa,
Chora.
Morto.
Seu corpo liso e belo que vivera
Como as papoilas acres,dorme agora.
E seu olhar azul é uma estrela
Que a terra,que o sepulta,
Ignora.
De Ary dos Santos
sexta-feira, 7 de maio de 2010
ANIMAIS DOENTES
Animais doentes as palavras
Também elas
Vespas formigas cabras
De trote difícil e miúdo
Gafanhotos alerta
Pombas vomitadas pelo azul
Bichos de conta bichos que fazem de conta
Pequeníssimas pulgas uma sílaba só
Lagartos melancólicos
Estúpidas galinhas corriqueiras
Tudo tão doente tão difícil
De manejar de lançar de provocar
De reunir
De fazer viver
Ou então as orgulhosas
Palavras raras
Plumas de cores incandescentes
Altos gritos no aviário
E o branco sem uso
Imaculado
De certas aves da solidão
Para dizer
Queria palavras tão reais como chamas
E tão precárias
Palavras que vivessem só o tempo de dizer a sua parte
No discurso de fogo
Logo extintas na combustão das próximas
Palavras que não esperassem
Em sal ou em diamante
O minuto ridículo precioso raro
De sangrar a luz a gota de veneno
Cativa das entranhas ociosas.
De Alexandre O'Neill
Também elas
Vespas formigas cabras
De trote difícil e miúdo
Gafanhotos alerta
Pombas vomitadas pelo azul
Bichos de conta bichos que fazem de conta
Pequeníssimas pulgas uma sílaba só
Lagartos melancólicos
Estúpidas galinhas corriqueiras
Tudo tão doente tão difícil
De manejar de lançar de provocar
De reunir
De fazer viver
Ou então as orgulhosas
Palavras raras
Plumas de cores incandescentes
Altos gritos no aviário
E o branco sem uso
Imaculado
De certas aves da solidão
Para dizer
Queria palavras tão reais como chamas
E tão precárias
Palavras que vivessem só o tempo de dizer a sua parte
No discurso de fogo
Logo extintas na combustão das próximas
Palavras que não esperassem
Em sal ou em diamante
O minuto ridículo precioso raro
De sangrar a luz a gota de veneno
Cativa das entranhas ociosas.
De Alexandre O'Neill
segunda-feira, 3 de maio de 2010
A MINHA HORTALICEIRA
Vem às vezes bater à minha porta
a velhinha mais linda cá do Bairro.
Vem trazer os mimos da sua fresca horta;
e tem um bater tão doce de meiguice...
- "Trago laranjas finas,meu senhor!
Ajude-me a baixar o cesto,por favor..."
E eu,que sou filho do trigo e dos favos de mel,
que fui a defumar na flor da laranjeira,
fico enlevado naquele olhar tão doce
a contar laranjas como se anjo fosse
a contar por brincadeira...
- (Anjos não sabem somar,cabeça tonta!
Nasceram com tudo já somado.
- Pois não,mas faz de conta).
- Um quarteirão,não foi que disse?
- Vinte e cinco e mais uma para o Samuel.
De Lopes Sebastião
a velhinha mais linda cá do Bairro.
Vem trazer os mimos da sua fresca horta;
e tem um bater tão doce de meiguice...
- "Trago laranjas finas,meu senhor!
Ajude-me a baixar o cesto,por favor..."
E eu,que sou filho do trigo e dos favos de mel,
que fui a defumar na flor da laranjeira,
fico enlevado naquele olhar tão doce
a contar laranjas como se anjo fosse
a contar por brincadeira...
- (Anjos não sabem somar,cabeça tonta!
Nasceram com tudo já somado.
- Pois não,mas faz de conta).
- Um quarteirão,não foi que disse?
- Vinte e cinco e mais uma para o Samuel.
De Lopes Sebastião
Assinar:
Postagens (Atom)



















