O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas,rasgarás papeis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário,formatura,promoção,glória,
doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo na solidão.
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereces viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu,teu avô também.
Em ti mesmo muitas coisas já expirou,outras espreitam a morte,
mas estás vivo.Ainda uma vez vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar
o recurso da doença e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles...e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas,ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos,a calçada.
A vida é gorda,oleosa,mortal,sub-reptícia.
De Carlos Drummond de Andrade
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
NA LUZ A PRUMO
Se as mãos pudessem (as tuas,
as minhas) rasgar o nevoeiro,
entrar na luz a prumo.
Se a voz viesse. Não uma qualquer:
a tua,e na manhã voasse.
E de júbilo cantasse.
Com as tuas mãos,e as minhas,
pudesse entrar no azul,qualquer
azul: o do mar,
o do céu,o da rasteirinha canção
de água corrente. E com elas subisse.
(A ave,as mãos,a voz.)
E fossem chama. Quase.
De Eugénio de Andrade
as minhas) rasgar o nevoeiro,
entrar na luz a prumo.
Se a voz viesse. Não uma qualquer:
a tua,e na manhã voasse.
E de júbilo cantasse.
Com as tuas mãos,e as minhas,
pudesse entrar no azul,qualquer
azul: o do mar,
o do céu,o da rasteirinha canção
de água corrente. E com elas subisse.
(A ave,as mãos,a voz.)
E fossem chama. Quase.
De Eugénio de Andrade
domingo, 5 de dezembro de 2010
AO IDEAL
A quem como a ti amei eu,ó sombra amada!
Atraí-te a mim,pra dentro de mim - e desde então
quase me fiz eu sombra,e corpo tu.
Todavia,os meus olhos não aprendem,
afeitos a ver as coisas fora de si;
pra eles és sempre o eterno "fora-de-mim".
Ah,estes olhos põem-me fora de mim!
De F.Nietzsche
Atraí-te a mim,pra dentro de mim - e desde então
quase me fiz eu sombra,e corpo tu.
Todavia,os meus olhos não aprendem,
afeitos a ver as coisas fora de si;
pra eles és sempre o eterno "fora-de-mim".
Ah,estes olhos põem-me fora de mim!
De F.Nietzsche
domingo, 21 de novembro de 2010
SAUDADE DO SAMBA
Com um nervoso no pé
E uma aflição na mão
Sem saber direito o que é
Fui consultar o cirurgião
Que já veio marcando a sangria
Para aquele mesmo dia
Mas eu
Saí de fininho
Fui visitar minha tia
Num terreiro lá da Olaria
Onde ela dá plantão
Depois de ouvir meus lamentos
Me benzeu com todo o sentimento
De amor que tem pelos seus
Falou com todo o respeito
A receita em nome de Deus:
- Tu tá com tesão de samba
Saudade pegou de jeito
De samba na mão
De samba no pé
Não vejo outra solução
Aproveita que é sexta-feira
Vai para a gafieira
Mas leva tua mulher!
De Gerson Deslandes,in Poetagem
E uma aflição na mão
Sem saber direito o que é
Fui consultar o cirurgião
Que já veio marcando a sangria
Para aquele mesmo dia
Mas eu
Saí de fininho
Fui visitar minha tia
Num terreiro lá da Olaria
Onde ela dá plantão
Depois de ouvir meus lamentos
Me benzeu com todo o sentimento
De amor que tem pelos seus
Falou com todo o respeito
A receita em nome de Deus:
- Tu tá com tesão de samba
Saudade pegou de jeito
De samba na mão
De samba no pé
Não vejo outra solução
Aproveita que é sexta-feira
Vai para a gafieira
Mas leva tua mulher!
De Gerson Deslandes,in Poetagem
domingo, 7 de novembro de 2010
JOSÉ
E agora,José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora,José?
e agora,você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que fez versos,
que ama,protesta?
e agora,José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora,José?
E agora,José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José,e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro,José!
Sózinho no escuro
qual bicho-de-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha,José!
José,para onde?
De Carlos Drummond de Andrade(1902 - 1987)
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora,José?
e agora,você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que fez versos,
que ama,protesta?
e agora,José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora,José?
E agora,José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José,e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro,José!
Sózinho no escuro
qual bicho-de-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha,José!
José,para onde?
De Carlos Drummond de Andrade(1902 - 1987)
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
PALAVRAS
Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?
E das consoantes,que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?
Que lhes dirás,quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?
De Eugénio de Andrade
Ilustração retirada do blog "Oração e Trabalho"
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?
E das consoantes,que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?
Que lhes dirás,quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?
De Eugénio de Andrade
Ilustração retirada do blog "Oração e Trabalho"
terça-feira, 5 de outubro de 2010
SONETO DE INÊS
Dos olhos corre a água do Mondego
os cabelos parecem os choupais
Inês!Inês!Raínha sem sossego
dum rei que por amor não pode mais.
Amor imenso que também é cego
amor que torna os homens imortais.
Inês!Inês!Distância a que não chego
morta tão cedo por viver demais.
Os teus gestos são verdes os teus braços
são gaivotas poisadas no regaço
dum mar azul turquesa intemporal.
As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços
Inês!Inês!Inês de Portugal.
De Ary dos Santos
os cabelos parecem os choupais
Inês!Inês!Raínha sem sossego
dum rei que por amor não pode mais.
Amor imenso que também é cego
amor que torna os homens imortais.
Inês!Inês!Distância a que não chego
morta tão cedo por viver demais.
Os teus gestos são verdes os teus braços
são gaivotas poisadas no regaço
dum mar azul turquesa intemporal.
As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços
Inês!Inês!Inês de Portugal.
De Ary dos Santos
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