Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,
entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:
vai entrar o vento ou o violento
aroma duma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:
é tempo de colher:a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.
Sou eu,desde a aurora,
eu - a terra - que te procuro.
De Eugénio de Andrade
segunda-feira, 21 de março de 2011
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
TRÊS CARNEIROS DO TEJO
Nasce na serra de Albarracim,em Espanha,
entra-nos em casa pelo Ródão,
arremeda-nos a sua galadela,
depois acalma,vai deitando corpo,
e aqui,já todo ancho,o atravesso
diariamente,eu,o ribeirinho
que traz a mão na estiva de palavras
no outro lado e a cabeça algures.
Cada um com sua nuvem rente à boca,
que em alguns é o cúmulo da prosápia,
das leiras do sono nós todos arrancamos
pra Lisboa,a tão estremecida,
e ao barbeirinho opomos catadura
de quem está zangado com a vida.
E estamos.
*
Dragado de conversas,Tejo,darias mais calado
à nossa companhia,
mas calados só eu e a rapariga
que passou a noite a vadrulhar,
deu um pulo à tia e volta prà cidade
já quase na pele de outra pessoa,
retocado o bâton,aproveitada a olheira,
reposto o seio no lugar,tão sobranceiro!
É de dia caixeira,aposto eu.
Não vale que tu viste,digo eu.
*
Ó Tejo nunca inaugurado,nesta praça
devia haver comércio,esplanadas,mesas
onde eu assentaria o cotovelo e,a cafés,
diria,versejando,quem não és.
Com as Dez Odes do Dr.Armindo,
que,aliás,são um poema lindo,
ó Tejo vaidosão tu transbordaste,
tu não te contiveste,tu não te aguentaste!
Mas eu,Tejo continuado,nesta praça
minist'rial que mais te posso dar,
a ti que vens de Albarracim,meu espanhol,
que passaste Almourol,
que passaste Pereira Gomes e Redol,
senão a frase sim ou não ouvida,
com este meu ouvido,com esta minha vida,
a um rapaz que,sem malícia,veio,
da sombra de sei lá de que sobreiro,
para dar em alguém,cá na cidade:
Ser da polícia,
dá cantina,barbeiro,autoridade.
De Alexandre O'Neill
entra-nos em casa pelo Ródão,
arremeda-nos a sua galadela,
depois acalma,vai deitando corpo,
e aqui,já todo ancho,o atravesso
diariamente,eu,o ribeirinho
que traz a mão na estiva de palavras
no outro lado e a cabeça algures.
Cada um com sua nuvem rente à boca,
que em alguns é o cúmulo da prosápia,
das leiras do sono nós todos arrancamos
pra Lisboa,a tão estremecida,
e ao barbeirinho opomos catadura
de quem está zangado com a vida.
E estamos.
*
Dragado de conversas,Tejo,darias mais calado
à nossa companhia,
mas calados só eu e a rapariga
que passou a noite a vadrulhar,
deu um pulo à tia e volta prà cidade
já quase na pele de outra pessoa,
retocado o bâton,aproveitada a olheira,
reposto o seio no lugar,tão sobranceiro!
É de dia caixeira,aposto eu.
Não vale que tu viste,digo eu.
*
Ó Tejo nunca inaugurado,nesta praça
devia haver comércio,esplanadas,mesas
onde eu assentaria o cotovelo e,a cafés,
diria,versejando,quem não és.
Com as Dez Odes do Dr.Armindo,
que,aliás,são um poema lindo,
ó Tejo vaidosão tu transbordaste,
tu não te contiveste,tu não te aguentaste!
Mas eu,Tejo continuado,nesta praça
minist'rial que mais te posso dar,
a ti que vens de Albarracim,meu espanhol,
que passaste Almourol,
que passaste Pereira Gomes e Redol,
senão a frase sim ou não ouvida,
com este meu ouvido,com esta minha vida,
a um rapaz que,sem malícia,veio,
da sombra de sei lá de que sobreiro,
para dar em alguém,cá na cidade:
Ser da polícia,
dá cantina,barbeiro,autoridade.
De Alexandre O'Neill
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
TRÊS ADEREÇOS RECEBIDOS COMO HERANÇA
A Peliça
Catarina da Rússia,minha prima
pela fronteira travessa,
deixou-me,além do gosto pela esgrima
com a moral avessa,
um casaco de marta sibilina
que desabafa muita viscondessa.
O Chicote
Meu tetravô polaco que era conde
de Nãossesabedonde
legou-me em testamento
uma lança de vento
e um chicote cossaco
uma lança que lanço quando invento
um galope que páro quando estaco.
O Espelho
Meu padrinho de crisma,Dom Quixote,
que morreu ainda eu era criança,
deixou-me em usufruto
Sancho Pança.
De Ary dos Santos
Catarina da Rússia,minha prima
pela fronteira travessa,
deixou-me,além do gosto pela esgrima
com a moral avessa,
um casaco de marta sibilina
que desabafa muita viscondessa.
O Chicote
Meu tetravô polaco que era conde
de Nãossesabedonde
legou-me em testamento
uma lança de vento
e um chicote cossaco
uma lança que lanço quando invento
um galope que páro quando estaco.
O Espelho
Meu padrinho de crisma,Dom Quixote,
que morreu ainda eu era criança,
deixou-me em usufruto
Sancho Pança.
De Ary dos Santos
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
O ÚLTIMO DIA DO ANO
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas,rasgarás papeis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário,formatura,promoção,glória,
doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo na solidão.
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereces viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu,teu avô também.
Em ti mesmo muitas coisas já expirou,outras espreitam a morte,
mas estás vivo.Ainda uma vez vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar
o recurso da doença e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles...e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas,ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos,a calçada.
A vida é gorda,oleosa,mortal,sub-reptícia.
De Carlos Drummond de Andrade
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas,rasgarás papeis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário,formatura,promoção,glória,
doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo na solidão.
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereces viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu,teu avô também.
Em ti mesmo muitas coisas já expirou,outras espreitam a morte,
mas estás vivo.Ainda uma vez vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar
o recurso da doença e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles...e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas,ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos,a calçada.
A vida é gorda,oleosa,mortal,sub-reptícia.
De Carlos Drummond de Andrade
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
NA LUZ A PRUMO
Se as mãos pudessem (as tuas,
as minhas) rasgar o nevoeiro,
entrar na luz a prumo.
Se a voz viesse. Não uma qualquer:
a tua,e na manhã voasse.
E de júbilo cantasse.
Com as tuas mãos,e as minhas,
pudesse entrar no azul,qualquer
azul: o do mar,
o do céu,o da rasteirinha canção
de água corrente. E com elas subisse.
(A ave,as mãos,a voz.)
E fossem chama. Quase.
De Eugénio de Andrade
as minhas) rasgar o nevoeiro,
entrar na luz a prumo.
Se a voz viesse. Não uma qualquer:
a tua,e na manhã voasse.
E de júbilo cantasse.
Com as tuas mãos,e as minhas,
pudesse entrar no azul,qualquer
azul: o do mar,
o do céu,o da rasteirinha canção
de água corrente. E com elas subisse.
(A ave,as mãos,a voz.)
E fossem chama. Quase.
De Eugénio de Andrade
domingo, 5 de dezembro de 2010
AO IDEAL
A quem como a ti amei eu,ó sombra amada!
Atraí-te a mim,pra dentro de mim - e desde então
quase me fiz eu sombra,e corpo tu.
Todavia,os meus olhos não aprendem,
afeitos a ver as coisas fora de si;
pra eles és sempre o eterno "fora-de-mim".
Ah,estes olhos põem-me fora de mim!
De F.Nietzsche
Atraí-te a mim,pra dentro de mim - e desde então
quase me fiz eu sombra,e corpo tu.
Todavia,os meus olhos não aprendem,
afeitos a ver as coisas fora de si;
pra eles és sempre o eterno "fora-de-mim".
Ah,estes olhos põem-me fora de mim!
De F.Nietzsche
domingo, 21 de novembro de 2010
SAUDADE DO SAMBA
Com um nervoso no pé
E uma aflição na mão
Sem saber direito o que é
Fui consultar o cirurgião
Que já veio marcando a sangria
Para aquele mesmo dia
Mas eu
Saí de fininho
Fui visitar minha tia
Num terreiro lá da Olaria
Onde ela dá plantão
Depois de ouvir meus lamentos
Me benzeu com todo o sentimento
De amor que tem pelos seus
Falou com todo o respeito
A receita em nome de Deus:
- Tu tá com tesão de samba
Saudade pegou de jeito
De samba na mão
De samba no pé
Não vejo outra solução
Aproveita que é sexta-feira
Vai para a gafieira
Mas leva tua mulher!
De Gerson Deslandes,in Poetagem
E uma aflição na mão
Sem saber direito o que é
Fui consultar o cirurgião
Que já veio marcando a sangria
Para aquele mesmo dia
Mas eu
Saí de fininho
Fui visitar minha tia
Num terreiro lá da Olaria
Onde ela dá plantão
Depois de ouvir meus lamentos
Me benzeu com todo o sentimento
De amor que tem pelos seus
Falou com todo o respeito
A receita em nome de Deus:
- Tu tá com tesão de samba
Saudade pegou de jeito
De samba na mão
De samba no pé
Não vejo outra solução
Aproveita que é sexta-feira
Vai para a gafieira
Mas leva tua mulher!
De Gerson Deslandes,in Poetagem
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