segunda-feira, 25 de abril de 2011

45 ANOS DEPOIS

Quarenta e cinco anos depois
o mundo deu muitas voltas
atravessámos muitos sóis
e deixámos pontas soltas
gostámos
sofremos
combatemos
resistimos e ganhámos
vale a pena viver
e em dose dupla comemorar
esta nossa data de liberdade
para ti
minha querida
rosas do campo com verdade.
25 de Abril de 1966

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A MORTE DE CALAR

As viagens que sou prenderam-se em redomas
Ao corpo das palavras.À morte de calar.
Do alfabeto meu ignoro as cristalinas
Formas de aladas letras nestes versos finais.
São fantasmas de sol.São fantasmas de sede
Que chegam alta noite para nenhum lugar.

Decifro nas entranhas das trevas migradoras
O solstício da vida além da morte clara.
Mas quem me vem cegar,com setas voadoras,
Nega-me agora a paz das secretas paisagens.

Meus Irmãos de astronaves,guiadas por um morto,
Que me esperam e estão,que me cantam e falam.
Que na vazia Cruz crucificam meu corpo
E abandonam a flor,mesmo a meio da sala.
À janela rasgada,para as cinzentas águas,
Encostam-me,sem olhos,e deixam-me ficar.

       Não tenho nada mais a escrever sobre as ondas.
       E,mesmo que tivesse,ninguém leria o Mar.

De Natércia Freire

segunda-feira, 21 de março de 2011

DESDE A AURORA

Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,

entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:

vai entrar o vento ou o violento
aroma duma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:

é tempo de colher:a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu,desde a aurora,
eu - a terra - que te procuro.

De Eugénio de Andrade

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

TRÊS CARNEIROS DO TEJO

Nasce na serra de Albarracim,em Espanha,
entra-nos em casa pelo Ródão,
arremeda-nos a sua galadela,
depois acalma,vai deitando corpo,
e aqui,já todo ancho,o atravesso
diariamente,eu,o ribeirinho
que traz a mão na estiva de palavras
no outro lado e a cabeça algures.

Cada um com sua nuvem rente à boca,
que em alguns é o cúmulo da prosápia,
das leiras do sono nós todos arrancamos
pra Lisboa,a tão estremecida,
e ao barbeirinho opomos catadura
de quem está zangado com a vida.


E estamos.


                               *


Dragado de conversas,Tejo,darias mais calado
à nossa companhia,
mas calados só eu e a rapariga
que passou a noite a vadrulhar,
deu um pulo à tia e volta prà cidade
já quase na pele de outra pessoa,
retocado o bâton,aproveitada a olheira,
reposto o seio no lugar,tão sobranceiro!


É de dia caixeira,aposto eu.
Não vale que tu viste,digo eu.


                                  *


Ó Tejo nunca inaugurado,nesta praça
devia haver comércio,esplanadas,mesas
onde eu assentaria o cotovelo e,a cafés,
diria,versejando,quem não és.


Com as Dez Odes do Dr.Armindo,
que,aliás,são um poema lindo,
ó Tejo vaidosão tu transbordaste,
tu não te contiveste,tu não te aguentaste!
Mas eu,Tejo continuado,nesta praça
minist'rial que mais te posso dar,
a ti que vens de Albarracim,meu espanhol,
que passaste Almourol,
que passaste Pereira Gomes e Redol,
senão a frase sim ou não ouvida,
com este meu ouvido,com esta minha vida,
a um rapaz que,sem malícia,veio,
da sombra de sei lá de que sobreiro,
para dar em alguém,cá na cidade:


Ser da polícia,
dá cantina,barbeiro,autoridade.

De Alexandre O'Neill

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

TRÊS ADEREÇOS RECEBIDOS COMO HERANÇA

A Peliça
Catarina da Rússia,minha prima
pela fronteira travessa,
deixou-me,além do gosto pela esgrima
com a moral avessa,
um casaco de marta sibilina
que desabafa muita viscondessa.

O Chicote
Meu tetravô polaco que era conde
de Nãossesabedonde
legou-me em testamento
uma lança de vento
e um chicote cossaco

uma lança que lanço quando invento
um galope que páro quando estaco.

O Espelho
Meu padrinho de crisma,Dom Quixote,
que morreu ainda eu era criança,
deixou-me em usufruto
Sancho Pança.

De Ary dos Santos

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O ÚLTIMO DIA DO ANO

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas,rasgarás papeis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário,formatura,promoção,glória,
doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereces viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu,teu avô também.
Em ti mesmo muitas coisas já expirou,outras espreitam a morte,
mas estás vivo.Ainda uma vez vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar
o recurso da doença e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles...e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas,ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos,a calçada.
A vida é gorda,oleosa,mortal,sub-reptícia.

De Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

NA LUZ A PRUMO

Se as mãos pudessem (as tuas,
as minhas) rasgar o nevoeiro,
entrar na luz a prumo.
Se a voz viesse. Não uma qualquer:
a tua,e na manhã voasse.
E de júbilo cantasse.
Com as tuas mãos,e as minhas,
pudesse entrar no azul,qualquer
azul: o do mar,
o do céu,o da rasteirinha canção
de água corrente. E com elas subisse.
(A ave,as mãos,a voz.)
E fossem chama. Quase.

De Eugénio de Andrade