domingo, 8 de maio de 2011
quarta-feira, 4 de maio de 2011
AS ROSAS
Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.
Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.
De Eugénio de Andrade
Fotografia de António Dias
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.
Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.
De Eugénio de Andrade
Fotografia de António Dias
segunda-feira, 25 de abril de 2011
45 ANOS DEPOIS
Quarenta e cinco anos depois
o mundo deu muitas voltas
atravessámos muitos sóis
e deixámos pontas soltas
gostámos
sofremos
combatemos
resistimos e ganhámos
vale a pena viver
e em dose dupla comemorar
esta nossa data de liberdade
para ti
minha querida
rosas do campo com verdade.
25 de Abril de 1966
o mundo deu muitas voltas
atravessámos muitos sóis
e deixámos pontas soltas
gostámos
sofremos
combatemos
resistimos e ganhámos
vale a pena viver
e em dose dupla comemorar
esta nossa data de liberdade
para ti
minha querida
rosas do campo com verdade.
25 de Abril de 1966
segunda-feira, 11 de abril de 2011
A MORTE DE CALAR
As viagens que sou prenderam-se em redomas
Ao corpo das palavras.À morte de calar.
Do alfabeto meu ignoro as cristalinas
Formas de aladas letras nestes versos finais.
São fantasmas de sol.São fantasmas de sede
Que chegam alta noite para nenhum lugar.
Decifro nas entranhas das trevas migradoras
O solstício da vida além da morte clara.
Mas quem me vem cegar,com setas voadoras,
Nega-me agora a paz das secretas paisagens.
Meus Irmãos de astronaves,guiadas por um morto,
Que me esperam e estão,que me cantam e falam.
Que na vazia Cruz crucificam meu corpo
E abandonam a flor,mesmo a meio da sala.
À janela rasgada,para as cinzentas águas,
Encostam-me,sem olhos,e deixam-me ficar.
Não tenho nada mais a escrever sobre as ondas.
E,mesmo que tivesse,ninguém leria o Mar.
De Natércia Freire
Ao corpo das palavras.À morte de calar.
Do alfabeto meu ignoro as cristalinas
Formas de aladas letras nestes versos finais.
São fantasmas de sol.São fantasmas de sede
Que chegam alta noite para nenhum lugar.
Decifro nas entranhas das trevas migradoras
O solstício da vida além da morte clara.
Mas quem me vem cegar,com setas voadoras,
Nega-me agora a paz das secretas paisagens.
Meus Irmãos de astronaves,guiadas por um morto,
Que me esperam e estão,que me cantam e falam.
Que na vazia Cruz crucificam meu corpo
E abandonam a flor,mesmo a meio da sala.
À janela rasgada,para as cinzentas águas,
Encostam-me,sem olhos,e deixam-me ficar.
Não tenho nada mais a escrever sobre as ondas.
E,mesmo que tivesse,ninguém leria o Mar.
De Natércia Freire
segunda-feira, 21 de março de 2011
DESDE A AURORA
Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,
entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:
vai entrar o vento ou o violento
aroma duma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:
é tempo de colher:a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.
Sou eu,desde a aurora,
eu - a terra - que te procuro.
De Eugénio de Andrade
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,
entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:
vai entrar o vento ou o violento
aroma duma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:
é tempo de colher:a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.
Sou eu,desde a aurora,
eu - a terra - que te procuro.
De Eugénio de Andrade
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
TRÊS CARNEIROS DO TEJO
Nasce na serra de Albarracim,em Espanha,
entra-nos em casa pelo Ródão,
arremeda-nos a sua galadela,
depois acalma,vai deitando corpo,
e aqui,já todo ancho,o atravesso
diariamente,eu,o ribeirinho
que traz a mão na estiva de palavras
no outro lado e a cabeça algures.
Cada um com sua nuvem rente à boca,
que em alguns é o cúmulo da prosápia,
das leiras do sono nós todos arrancamos
pra Lisboa,a tão estremecida,
e ao barbeirinho opomos catadura
de quem está zangado com a vida.
E estamos.
*
Dragado de conversas,Tejo,darias mais calado
à nossa companhia,
mas calados só eu e a rapariga
que passou a noite a vadrulhar,
deu um pulo à tia e volta prà cidade
já quase na pele de outra pessoa,
retocado o bâton,aproveitada a olheira,
reposto o seio no lugar,tão sobranceiro!
É de dia caixeira,aposto eu.
Não vale que tu viste,digo eu.
*
Ó Tejo nunca inaugurado,nesta praça
devia haver comércio,esplanadas,mesas
onde eu assentaria o cotovelo e,a cafés,
diria,versejando,quem não és.
Com as Dez Odes do Dr.Armindo,
que,aliás,são um poema lindo,
ó Tejo vaidosão tu transbordaste,
tu não te contiveste,tu não te aguentaste!
Mas eu,Tejo continuado,nesta praça
minist'rial que mais te posso dar,
a ti que vens de Albarracim,meu espanhol,
que passaste Almourol,
que passaste Pereira Gomes e Redol,
senão a frase sim ou não ouvida,
com este meu ouvido,com esta minha vida,
a um rapaz que,sem malícia,veio,
da sombra de sei lá de que sobreiro,
para dar em alguém,cá na cidade:
Ser da polícia,
dá cantina,barbeiro,autoridade.
De Alexandre O'Neill
entra-nos em casa pelo Ródão,
arremeda-nos a sua galadela,
depois acalma,vai deitando corpo,
e aqui,já todo ancho,o atravesso
diariamente,eu,o ribeirinho
que traz a mão na estiva de palavras
no outro lado e a cabeça algures.
Cada um com sua nuvem rente à boca,
que em alguns é o cúmulo da prosápia,
das leiras do sono nós todos arrancamos
pra Lisboa,a tão estremecida,
e ao barbeirinho opomos catadura
de quem está zangado com a vida.
E estamos.
*
Dragado de conversas,Tejo,darias mais calado
à nossa companhia,
mas calados só eu e a rapariga
que passou a noite a vadrulhar,
deu um pulo à tia e volta prà cidade
já quase na pele de outra pessoa,
retocado o bâton,aproveitada a olheira,
reposto o seio no lugar,tão sobranceiro!
É de dia caixeira,aposto eu.
Não vale que tu viste,digo eu.
*
Ó Tejo nunca inaugurado,nesta praça
devia haver comércio,esplanadas,mesas
onde eu assentaria o cotovelo e,a cafés,
diria,versejando,quem não és.
Com as Dez Odes do Dr.Armindo,
que,aliás,são um poema lindo,
ó Tejo vaidosão tu transbordaste,
tu não te contiveste,tu não te aguentaste!
Mas eu,Tejo continuado,nesta praça
minist'rial que mais te posso dar,
a ti que vens de Albarracim,meu espanhol,
que passaste Almourol,
que passaste Pereira Gomes e Redol,
senão a frase sim ou não ouvida,
com este meu ouvido,com esta minha vida,
a um rapaz que,sem malícia,veio,
da sombra de sei lá de que sobreiro,
para dar em alguém,cá na cidade:
Ser da polícia,
dá cantina,barbeiro,autoridade.
De Alexandre O'Neill
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
TRÊS ADEREÇOS RECEBIDOS COMO HERANÇA
A Peliça
Catarina da Rússia,minha prima
pela fronteira travessa,
deixou-me,além do gosto pela esgrima
com a moral avessa,
um casaco de marta sibilina
que desabafa muita viscondessa.
O Chicote
Meu tetravô polaco que era conde
de Nãossesabedonde
legou-me em testamento
uma lança de vento
e um chicote cossaco
uma lança que lanço quando invento
um galope que páro quando estaco.
O Espelho
Meu padrinho de crisma,Dom Quixote,
que morreu ainda eu era criança,
deixou-me em usufruto
Sancho Pança.
De Ary dos Santos
Catarina da Rússia,minha prima
pela fronteira travessa,
deixou-me,além do gosto pela esgrima
com a moral avessa,
um casaco de marta sibilina
que desabafa muita viscondessa.
O Chicote
Meu tetravô polaco que era conde
de Nãossesabedonde
legou-me em testamento
uma lança de vento
e um chicote cossaco
uma lança que lanço quando invento
um galope que páro quando estaco.
O Espelho
Meu padrinho de crisma,Dom Quixote,
que morreu ainda eu era criança,
deixou-me em usufruto
Sancho Pança.
De Ary dos Santos
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