sábado, 14 de maio de 2011

PRÉMIO CAMÕES

Vai pois,poema,procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob bastante literatura.

Se a escutares,porém,tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então,se puderes,pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.

Mas não olhes para trás,não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
o teu canto,insensato,será feito
só de melancolia e de despeito.

E de discórdia.E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?

in "Arte Poética" de Manuel António Pina

quarta-feira, 4 de maio de 2011

AS ROSAS

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.

De Eugénio de Andrade
Fotografia de António Dias

segunda-feira, 25 de abril de 2011

45 ANOS DEPOIS

Quarenta e cinco anos depois
o mundo deu muitas voltas
atravessámos muitos sóis
e deixámos pontas soltas
gostámos
sofremos
combatemos
resistimos e ganhámos
vale a pena viver
e em dose dupla comemorar
esta nossa data de liberdade
para ti
minha querida
rosas do campo com verdade.
25 de Abril de 1966

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A MORTE DE CALAR

As viagens que sou prenderam-se em redomas
Ao corpo das palavras.À morte de calar.
Do alfabeto meu ignoro as cristalinas
Formas de aladas letras nestes versos finais.
São fantasmas de sol.São fantasmas de sede
Que chegam alta noite para nenhum lugar.

Decifro nas entranhas das trevas migradoras
O solstício da vida além da morte clara.
Mas quem me vem cegar,com setas voadoras,
Nega-me agora a paz das secretas paisagens.

Meus Irmãos de astronaves,guiadas por um morto,
Que me esperam e estão,que me cantam e falam.
Que na vazia Cruz crucificam meu corpo
E abandonam a flor,mesmo a meio da sala.
À janela rasgada,para as cinzentas águas,
Encostam-me,sem olhos,e deixam-me ficar.

       Não tenho nada mais a escrever sobre as ondas.
       E,mesmo que tivesse,ninguém leria o Mar.

De Natércia Freire

segunda-feira, 21 de março de 2011

DESDE A AURORA

Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,

entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:

vai entrar o vento ou o violento
aroma duma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:

é tempo de colher:a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu,desde a aurora,
eu - a terra - que te procuro.

De Eugénio de Andrade