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segunda-feira, 31 de maio de 2010

SONETO DE LA CARTA

Amor de mis entrañas,viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso,con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.

El aire es immortal,la piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna verte.

Pero yo te sufrí,rasgué mis venas,
tigre y paloma,sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.

Llena,pues,de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche del alma para siempre oscura.

De Frederico García Lorca

quarta-feira, 10 de março de 2010

DANÇA

A Carmen anda a bailar
pelas ruas de Sevilha.
Os seus cabelos são brancos
e brilhantes as pipilas.

Meninas,
correi as cortinas!

Em sua cabeça enrosca-se
uma serpente amarela,
e vai sonhando na dança
com os galãs de outras eras.

Meninas,
correi as cortinas!

As ruas estão desertas
e nos fundos adivinham-se
uns corações andaluzes
a buscar velhos espinhos.

Meninas,
correi as cortinas!

De García Lorca

sábado, 16 de janeiro de 2010

O MARTÍRIO


Flora nua vai subindo
por escadinhas de água.
O Cônsul pede a bandeja
para pôr os seios de Eulália.
Um jorro de veias verdes
brota de sua garganta.
Seu sexo treme enredado
como um pássaro nas silvas.
Sobre o chão,sem uma norma,
saltam suas mãos cortadas
que ainda se cruzam em ténue
oração decapitada.
Pelos buracos vermelhos
onde seus peitos estavam
vêem-se céus diminutos
e arroios de leite branco.
Mil arvorezinhas de sangue
cobrem as suas espáduas
e põem húmidos troncos
ante o bisturi das chamas.
Centuriões amarelos
de carne gris,desvelada,
chegam ao céu ressoando
as armaduras de prata.
E enquanto vibra confusa
paixão de crinas e espadas,
na bandeja o Cônsul leva
seios fumados de Eulália.

De Frederico Garcia Lorca
Tradução de José Bento
ed. Relógio d'Água

quinta-feira, 18 de junho de 2009

MORREU AO AMANHECER


Noite de quatro luas
e uma única árvore,
com uma única sombra
e um único pássaro.
Busco na minha carne as
pegadas de teus lábios.
Beija a nascente o vento
sem o tocar.
Levo o Não que me deste,
sobre a palma da mão,
como um limão de cera
quase branco.
Noite de quatro luas
e uma única árvore.
Na ponta de uma agulha
está meu amor -- girando!
De Frederico García Lorca
Fotografia "picada" de llena.com/blog/?m=200807

domingo, 24 de maio de 2009

CAMINHO


Cem ginetes enlutados,
onde irão,
além,pelo céu jacente
do laranjal?
A Córdova ou a Sevilha
não chegarão.
Nem a Granada,a que suspira
pelo mar.
Esses cavalos sonolentos
irão levá-los
ao labirinto das cruzes
onde tirita o cantar.
Com sete ais cravados,
- onde irão
os cem ginetes andaluzes
do laranjal?


De Frederico García Lorca

quarta-feira, 22 de abril de 2009

1910 (INTERMÉDIO)


Aqueles meus olhos de mil novecentos e dez
não viram enterrar os mortos,
nem a feira de cinza do que chora de madrugada,
nem o coração que treme retirado como um hipocampo.

Aqueles meus olhos de mil novecentos e dez
viram a branca parede onde urinavam as meninas,
o focinho do touro,o cogumelo venenoso
e uma lua incompreensível que iluminava nos recantos
os pedaços de limão seco sob o negro duro das garrafas.

Aqueles meus olhos no pescoço do garrano,
no seio vazado de Santa Rosa adormecida,
nos telhados de amor,com gemidos e frescas mãos,
num jardim onde os gatos comiam as rãs.

Sótão onde o velho pó reúne estátuas e musgos.
Caixões que guardam silêncio de caranguejos devorados.
No sítio onde o sonho tropeçava na sua realidade.
Ali meus pequenos olhos.

Não me perguntem nada. Vi que as coisas
quando buscam seu curso encontram seu vazio.
Há uma dor de ocos pelo espaço sem ninguém
e,em meus olhos,criaturas vestidas - mas sem corpo!

De Frederico García Lorca (tradução de José Bento;ed. Relógio de Água)
Pintura de P.Picasso.

sábado, 4 de abril de 2009

LA COGIDA Y LA MUERTE


Às cinco horas da tarde.
Eram as cinco em ponto da tarde.
Um menino trouxe o lençol branco
às cinco horas da tarde.
Uma ceira de cal já preparada
às cinco horas da tarde.
Tudo o mais era morte,apenas morte
às cinco horas da tarde.

O vento levou os algodões
às cinco horas da tarde.
E o óxido semeou cristal e níquel
às cinco horas da tarde.
Já lutam a pomba e o leopardo
às cinco horas da tarde.
E uma coxa com um chifre desolado
às cinco horas da tarde.
Começaram os acordes de bordão
às cinco horas da tarde.
Os sinos de arsénico e o fumo
às cinco horas da tarde.
Pelas esquinas grupos de silêncio
às cinco horas da tarde.
E o touro sozinho coração acima!
às cinco horas da tarde.
Quando o suor de neve foi chegando
às cinco horas da tarde,
quando a praça se cobriu de iodo
às cinco horas da tarde,
a morte pôs ovos na ferida
às cinco horas da tarde.
Às cinco horas da tarde.
Às cinco horas em ponto da tarde.

Um ataúde com rodas é a cama
às cinco horas da tarde.
Ossos e flautas soam em seus ouvidos
às cinco horas da tarde.
O touro já mugia por sua fronte
às cinco horas da tarde.
Irisava-se o quarto de agonia
às cinco horas da tarde.
Trompa de lírio pelas verdes virilhas
às cinco horas da tarde.
As feridas queimavam como sóis
às cinco horas da tarde,
e a multidão quebrava as janelas
às cinco horas da tarde.
Às cinco horas da tarde.
Ai que terríveis cinco da tarde!
Eram as cinco em todos os relógios!
Eram as cinco em sombra da tarde!

De Frederico Garcia Lorca (tradução de José Bento)
Desenho de P.Picasso