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quarta-feira, 1 de abril de 2009

O OBJECTO


NASCER com ele,
ponte a descer,
à água e ao pó.
Vivo,imóvel.
Nascer com ele,
sede e gomo,
sabê-lo,sumo,
olhar sem nome.
Nascer com ele,
soprá-lo,pluma,
chama de ar.
Nascer com ele,
envolto e nu,
o corpo elástico
- salto e silêncio.
Renovo o sopro
de árido vento:
áspide,gume,
vácuo de amor.
De António Ramos Rosa,in "Chama de ar",para Natércia Freire
Fotografia Reuters

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

GOETZ


São os troncos troncos e um monte
puxado para o sol oblìquamente.
E a terra é de carvão,mar de raízes
e o sol dourado de limão,quse oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.

Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta,o espaço era verde acinzentado
E duas cordas ao lado,atravassadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.

A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multliplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul,praia vermelha,
voos de andorinha negros.


De António Ramos Rosa

domingo, 14 de setembro de 2008

À BAILARINA



Ela dança com todos os anos
desperta e serena
e sem perguntas sorri

ela caminha
ela vive e respira
comigo convosco
em qualquer parte do mundo

nasceu na infância e acordou hoje

Se escrevo este poema
onde ela dança
é tão-só porque vi hoje o mar
e corri na areia a seu lado

Se existe um pouco de ar
ou todo o ar
e nele apenas somos sem disfarce
para sermos quem somos
é porque pisei a praia dura e fresca
e rolámos como as ondas na areia

Ela dança e vive
na claridade do amigo
no espaço da cozinha
na luz do mosaico
na madeira brilhante

ao sol que entrou em casa

A flor estava na mesa
e eu vi a flor
e vi o raio de sol
e as suas pernas de bailarina
ao longo do corredor

Hoje ainda é dia
diz o seu rosto
Amanhã é dia
diz o seu andar
Um dia diferente
o que há-de vir

Amanhã será diferente

Ó bailarina minha
dou-te esta rosa hoje
por ser o dia de hoje
e por tu existires

tão amanhã em mim

De António Ramos Rosa
Pintura de Degas

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O ESPAÇO LIVRE


Desocupado,livre,

sem vestígios,ao sol,

tronco devorado pela luz,

ondulada frescura no dorso,

sem laços,sem raízes,desabitado.


Conheço o tempo

e a demora

lenta,

o vazio da casa na manhã,

a manhã deserta ao sol,

a cegueira da luz tão leve,

o deserto simples,

o nome prolongado e nulo.


Estou

no silêncio,

na habitação do silêncio,

no mar imaginado,

na planura verde sussurrante,

na seara das brisas,

nos adeuses prolongados em ondas desfeitas,

no vazio da terra fresca,

no silêncio sempre novo,

nas vozes sobre o mar,

no sono sobre o mar.


Estou deitado

e alto.

Sou a tranquilidade dos montes,

a lenta curva das baías,

os olhos subterrâneos da água,

a liberdade dispersa do vento,

a claridade de tudo.


Escrevo sobre dunas

silenciosamente.

Oiço o tempo que não passa.

Um século de frescura

inunda-me.

Não esperava habitar esta vasta clareira

límpida.

Não esperava respirar esta brisa de paz,

de liberdade isenta,

de morte desvelada,

de vida renovada.


Abraço todo o espaço na liberdade viva.


De António Ramos Rosa

domingo, 6 de julho de 2008

ESTOU VIVO E ESCREVO SOL



ao Ruy Belo

Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida

Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

De António Ramos Rosa,in ESTOU VIVO ESCREVO SOL