Feito só,na máscara paterna,
Sua máscara tosca,de acre-doce
Feição,sua máscara austerizou-se
Numa preclara decisão eterna.
Feito só,feito pó,desencantou-se
Nele o último arcanjo,a chama eterna
Da paixão em que sempre se queimou
Seu duro corpo que ora longe inverna.
Feito pó,feito pólen,feito fibra
Feito pedra,feito o que é morto e vibra
Sua máscara enxuta de homem forte.
Isto revela em seu silêncio à escuta:
Numa severa afirmação de luta,
Uma impassível negação de morte.
De Vinicius de Moraes
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segunda-feira, 7 de novembro de 2011
domingo, 21 de junho de 2009
O ÔNIBUS GRAYHOUND ATRAVESSA O NÔVO MÉXICO

TERRA SÊCA árvore sêca
E a bomba de gasolina
Casa sêca paiol sêco
E a bomba de gasolina
Serpente sêca na estrada
E a bomba de gasolina
Pássaro sêco no fio
(E a bomba de gasolina)
Do telégrafo: s.o.s.
E a bomba de gasolina
A pele sêca o olhar sêco
(E a bomba de gasolina
Do índio que não esquece
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina...
DeVinicius de Moraes
segunda-feira, 13 de abril de 2009
CREPÚSCULO EM NEW YORK

Com um gesto fulgurante o Arcanjo Gabriel
Abre de par em par o pórtico do poente
Sobre New York. A gigantesca espada de ouro
A faiscar simetria,ei-lo que monta guarda
A Heavens,Incorporations. Do crepúsculo
Baixam serenamente as pontes levadiças
De U.S.A. Sun até a ilha da Manhattan.
Agora é tudo anúncio,irradiação,promessa
Da Divina Presença. No imo da matéria
Os átomos aquietam-se e cria-se o vazio
Em cada coração de bicho,coisa e gente.
E o silêncio se deixa assim,profundamente...
Mas súbito sobe do abismo um som crestado
De saxofone,e logo a atroz polifonia
De cordas e metais,síncopas,arreganhos
De jazz negro,vindos de Fifty Second Street.
New York acorda para a noite.Oito milhões
De solitários se dissolvem pelas ruas
Sem manhã. New York entrega-se.
Do páramos
Balizas celestiais põem-se a brotar,vibrantes
À frente da parada,enquanto anjos em nylon
As asas de alumínio,as coxas palpitantes
Fluem langues da Grande Porta diamantina.
Cai o câmbio da tarde. O sublime Arquiteto
Satisfeito,do céu admira sua obra
A maquete genial reflete em cada vidro
O ôlho meigo de Deus a dardejar ternuras.
Como é bela New York! Aço e concreto armado
A erguer sempre mais alto eternas estruturas!
Deus sorri complacente. New York é muito bela!
Apesar do East Side, e da mancha amarela
De China Town, e da mancha escura do Harlem
New York é muito bela!
As primeiras estrelas
Afinam na amplidão cantilenas singelas...
Mas Deus,que mudou muito,desde que enriqueceu
Liga a chave que acende a Broadway e apaga o céu
Pois às constelações que no céu esparziu
Prefere hoje os ersatze sôbre La Guardia Field.
De Vinicius de Moraes
domingo, 22 de fevereiro de 2009
RETRATO À SUA MANEIRA (João Cabral de Melo Neto)
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
BALADA DAS MENINAS DE BICICLETEA


MENINAS de bicicleta
Que fagueiras pedalais
Quero ser vosso poeta!
Ó transitórias estátuas
Esfusiantes de azul
Louras com peles mulatas
Princesas da zona sul:
As vossas jovens figuras
Retesadas nos selins
Me prendem,com serem puras
Em redondilhas afins.
Que lindas são vossas quilhas
Quando as praias abordais!
E as nervosas pantorrilhas
No rotação dos pedais:
Que douradas maravilhas!
Bicicletai,meninada
Aos ventos do Arpoador
Sôlta a flâmula agitada
Das cabeleiras em flor
Uma correndo à gandaia
Outra com jeito de séria
Mostrando as pernas sem saia
Feitas da mesma matéria.
Permanecei! vós que sois
O que o mundo não tem mais
Juventude de maiôs
Sobre máquinas da paz
Enxames de namoradas
Ao sol de Copacabana
Centauresas transpiradas
Que o leque do mar abana!
A vós o canto que inflama
Os meus trint'anos,meninas
Velozes massas em chama
Eçplodindo em vitaminas.
Bem haja a vossa saúde
À humanidade inquieta
Vós cuja ardente virtude
Preservais muito amiúde
Com um selim de bicicleta
Vós que levais tantas raças
Nos corpos firmes e cruz:
Meninas: soltai as alças
Bicicletais seios nus!
No vosso rastro persiste
O mesmo eterno poeta
Um poeta - essa coisa triste
Escravizada à beleza
Que em vosso rastro persiste
Levando a sua tristeza
No quadro da bicicleta.
De Vinicius de Moraes
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
RECEITA DE MULHER

AS MUITO FEIAS que me perdoem
Mas beleza é fundamental.É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul como na República Popular Chinesa)
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa côr só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser,mas que se reflita
a desabroche
No olhar dos homens. É preciso,é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas
pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne:que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah,deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola
ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um
templo e
Seja leve como um rosto de nuvem :mas que seja
uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos
então
Nem se fala. que olhem com uma certa maldade inocente.
Uma bôca
Fresca (nuca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem,sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo porém o problema das saboneteiras:uma
mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha,e em seguida
A mulher se alteie em cálice,e que os seus seios
Sejam uma expressão greco-romana,mais que gótica ou
barrôca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima
de cinco velas
Sobretudo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista o grande latifúndio
dorsal.
Os membros que terminem como hastes,mas bem haja
um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas,lisas como a pétala e cobertas de
suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma
próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo,e a mulher não lembre
Flõres sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos
góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos,nos braços,
no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma
temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados,podendo eventualmente provocar
queimaduras
Do 1º grau. Os olhos que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro
de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio
alta
Ou caso baixa,que tenha a atitude moral dos altos
píncaros.
Ah,que a mulher dê sempre a impressão de que se
fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja,não
venha;parta,não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer
subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh,sobretudo
Que ela não perca nunca,não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias,a sua infinita
volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder a sua graça de ave;
e que exale sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
A sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna
dançarina
Do efêmero e eu sua incalculável imperfeição.
Constutua a coisa mais bela e mais perfeita de tôda a
criação inumerável.
De Vinicius de Moraes
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
POEMA DO NATAL

PARA ISSO fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrêla a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo,pisar leve,ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso,talvez,de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem,graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais,esperaremos...
Hoje a noite é jovem;da morte,apenas
Nascemos,imensamente.
De Vinicius de Moraes
Incluido na edição inglesa "Penguin" de poesia latino-americana
segunda-feira, 12 de maio de 2008
O FALSO MENDIGO

Minha Mãe,manda comprar um quilo de papel almaço na venda
Quero fazer uma poesia.
Diz a Amélia para preparar um refresco gelado
E me trazer muito devagarinho.
Não corram,não falem,fechem todas as portas a chave
Quero fazer uma poesia.
Se me telefonarem,só estou para Maria
Se fôr o Ministro,só recebo amanhã
Se fôr um trote,me chame depressa
Tenho um tédio enorme da vida.
Diz a Amélia para procurar a Patética no rádio
Se houver um grande desastre vem logo contar
Se o aneurisma de dona Ãngela arrebentar,me avisa
Tenho um tédio enorme da vida.
Liga para vovó Nenen,pede a ela uma ideia bem inocente
Quero fazer uma grande poesia.
Quando meu pai chegar tragam-me logo os jornais da tarde
Se eu dormir,pelo amor de Deus,me acordem
Não quero perder nada na vida.
Fizeram bicos de rouxinol para o meu jantar?
Puseram no lugar meu cachimbo e meus poetas?
Tenho um tédio enorme de vida.
Minha Mãe estou com vontade de chorar
Estou com taquicardia,me dá um remédio
Não,antes me deixa morrer,quero morrer,a vida
Já não me diz mais nada
Tenho horror da vida,quero fazer a maior poesia do mundo
Quero morrer imediatamente.
Fala para o Presidente para fecharem todos os cinemas
Não aguento mais ser censor.
Ah,pensa uma coisa,minha Mãe,para distrair teu filho
Teu falso,teu miserável,teu sórdido filho
Que estala em fôrça,sacrifício,violência,devotamento
Que podia britar pedra alegremente
Ser negociante cantando
Fazer advocacia com o sorriso exato
Se com isso não perdesse o que por fatalidade de amor
Saber ser o melhor,o mais doce e o mais eterno da tua puríssima carícia.
De Vinicius de Moraes
Pintura de Rembrandt
segunda-feira, 24 de março de 2008
BALANÇO DO FILHO MORTO

HOMEM SENTADO na cadeira de balanço
Sentado na cadeira de balanço
Na cadeira de balanço
De balanço
Balanço do filho morto.
Homem sentado na cadeira de balanço
Todo o teu corpo diz que sim
Teu corpo diz que sim
Diz que sim
Que sim,teu filho está morto.
Homem sentado na cadeira de balanço
Como um pêndulo,para lá e para cá
O pescoço fraco,a perna triste
Os olhos cheios de areia
Areia do filho morto.
Nada restituirá teu filho à vida
Homem sentado na cadeira de balanço
Tua meia caída,tua gravata
Sem nó,tua barba grande
São a morte
são a morte
A morte do filho morto.
Silêncio de uma sala: e flôres murchas,
Além,um pranto frágil de mulher
Um pranto...o olhar aberto sobre o vácuo
E no silêncio a sensação exacta
Da voz,do riso,do reclamo débil.
Da órbita cega os olhos dolorosos
Fogem,moles,se arrastam como lesmas
Empós a doce,inexistente marca
Do vómito,da queda,da mijada.
Do braço foge a tresloucada mão
Para afagar a imponderável luz
De um cabelo sem som e sem perfume.
Fogem da boca lábios pressurosos
Para o beijo incolor na pele ausente.
Nascem ondas de amor que se desfazem
De encontro à mesa,à estante,à pedra mármore.
Outra coisa não há senão o silêncio
Onde com pés de gêlo uma criança
Brinca,perfeitamente transparente
Sua carne de leite,rosa e talco.
Pobre pai,pobre,pobre,pobre,pobre
Sem memória,sem músculos,sem nada
Além de uma cadeira de balanço
No infinito vazio... o sofrimento
Amordaçou-te a boca de amargura
E esbofeteou-te palidez na cara.
Ergues nos braços uma imagem pura
E não teu filho; jogas para cima
Um bocado de espaço e não teu filho
Não são cachos que sopras,porém cinzas
A asfixiar o ar onde respiras.
Teu filho é morto; talvez fosse um dia
A pomba predileta,a glória,a messe
O teu porvir de pai; mas nôvo e tenro
Anjo,levou-o a morte com cuidado
De vê-lo tão pequeno e já exausto
De penar - e eis que agora tudo é morte
Em ti,não tens mais lágrimas, e amargo
É o cuspo do cigarro em tua boca.
Mas deixa que eu te diga,homem temente
Sentado na cadeira de balanço
Eu que moro no abismo,eu que conheço
O interior das entranhas das mulheres
Eu que me deito à noite com os cadáveres
E liberto as auroras do meu peito:
Teu filho não morreu! a fé te salva
Para a contemplação da sua face
Hoje tornada a pequenina estrêla
Da tarde,a jovem árvore que cresce
Em tua mão: teu filho não morreu!
Uma eterna criança está nascendo
Da esperança de um mundo em liberdade.
Serão teus filhos,todos,homem justo
Iguais ao filho teu; tira a gravata
Limpa a unha suja,ergue-te,faz a barba
Vai consolar tua mulher que chora...
E que a cadeira de balanço fique
Na sala,agora viva,balançando
O balanço final do filho morto.
De Vinicius de Moraes
sábado, 16 de fevereiro de 2008
A ÚLTIMA VIAGEM DE JAYME OVALLE

OVALLE não queria a Morte
Mas era dele tão querida
Que o amor da Morte foi mais forte
Que o amor de Ovalle à vida.
E foi assim que a Morte,um dia
Levou-o em bela carruagem
A viajar - ah,que alegria!
Ovalle sempre adora viagem.
Foram por montes e por vales
E tanto a Morte se aprazia
Que fosse o mundo só de Ovalles
E nunca mais ninguém morria.
A cada vez que a Morte,a sério
Com cicerônica prestança
Mostrava a Ovalle um cemitério
Ele apontava uma criança.
A Morte,em Londres e Paris
Levou-o à forca e à guilhotina
Porém em Roma,Ovalle quis
Tomar a sua cangebrina.
Mostrou-lhe a Morte as catacumbas
E suas ósseas prateleiras
Mas riu-se muito,tais zabumbas
Fazia Ovalle nas caveiras.
Mais tarde,Ovalle satisfeito
Declara à Morte,ambos de porre:
- Quero enterrar-me,que é um direito
Inalienável de quem morre!
Custou-lhe esforço sobre-humano
Chegar à última morada
De vez que a morte,a todo o pano
Queria dar uma esticada.
Diz o guardião do campo-santo
Que noite alta,ainda se ouvia
A voz da Morte,um tanto ou quanto
Que ria,ria,ria,ria...
De Vinicius de Moraes
Imagem:"Morte de Inês de Castro" de Columbano Bordalo Pinheiro
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
SONETO DA DESPEDIDA

Uma lua no céu apareceu
Cheia e branca;foi quando,emocionada
A mulher a meu lado estremeceu
E se entregou sem que eu dissesse nada.
Larguei-as pela jovem madrugada
Ambas cheias e brancas e sem véu
Perdida uma,a outra abandonada
Uma nua na terra,outra no céu.
Mas não partira delas;a mais louca
Apaixonou-me o pensamento;dei-o
Feliz - eu de amor pouco e vida pouca
Mas que tinha deixado em meu enleio
Um sorriso de carne em sua boca
Uma gota de leite no seu seio.
De Vinicius de Moraes
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