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domingo, 5 de dezembro de 2010

AO IDEAL

A quem como a ti amei eu,ó sombra amada!
Atraí-te a mim,pra dentro de mim - e desde então
quase me fiz eu sombra,e corpo tu.
Todavia,os meus olhos não aprendem,
afeitos a ver as coisas fora de si;
pra eles és sempre o eterno "fora-de-mim".
Ah,estes olhos põem-me fora de mim!

De F.Nietzsche

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A MINHA DUREZA


Por sobre cem degraus tenho que avançar,
Tenho que subir -  e ouço-vos gritar:
"És duro! Acaso somos feitos de calhau?"
Por sobre cem degraus tenho que avançar,
E ninguém gosta de servir de degrau.

De F.Nietzsche

quarta-feira, 20 de maio de 2009

CANÇÃO NOCTURNA

É noite:agora falam mais alto todas as fontes jorrantes.E a minha alma é também uma fonte jorrante.
É noite:só agora acordam todas as canções dos amantes.E a minha alma é também a canção de um amante.
Há em mim algo de insaciado,de insaciável que quer ganhar voz.Um desejo de amor há em mim,um desejo que fala ele mesmo a língua do amor.
Sou luz:ai,quem me dera ser noite!Mas é esta a minha solidão,estar cingido de luz.
Ai,quem me dera ser escuro e nocturno!Como eu havia de mamar nos peitos da luz!
E também vos abençoaria mesmo a vós,pequeninas estrelas cintilantes e pirilampos lá no alto! - e seria feliz com os vossos presentes de luz.
Mas eu vivo na minha própria luz,reabsorvo em mim as chamas que de mim brotam.
Não conheço a ventura de quem recebe;e muitas vezes sonhei que roubar deve dar mais felicidade ainda do que receber.
É esta a minha pobreza:nunca a minha mão descansar de dar;é esta a minha inveja:ver olhos à espera e as noites iluminadas de saudade.
Ó infelicidade de todos os que dão! Ó eclipse do meu sol! Ó desejo de desejar! Ó fome ardente na saciedade!
Eles tomam o que lhes dou:mas toco eu ainda a sua alma?Há um abismo entre o dar e o receber;e o mais pequeno abismo é o último a transpor.
Cresce uma fome da minha beleza;gostaria de fazer mal àqueles a quem alumio,gostaria de roubar aqueles a quem dou - a tal ponto tenho fome de maldade.
Tal vingança imagina a minha abundância:tal perfídia jorra da minha solidão.
A minha ventura de dar morreu com o dar,a minha virtude cansou-se de si mesma com a sua profusão!
Quem sempre dá,corre o risco de perder o pudor;quem sempre reparte,as mãos e o coração lhe criam calos de tanto repartir.
Os meus olhos já não choram diante do pudor dos que pedem;a minha mão fez-se dura demais para o tremor das mãos que encho.
Pra onde foram as lágrimas dos meus olhos e a penugem macia do meu coração?Ó solidão de todos os que dão!Ó silêncio de todos os que iluminam!
Muitos sóis gravitam no espaço deserto:a tudo o que é escuro eles falam com a sua luz - para mim são mudos.
Oh!é esta a inimizade da luz a tudo o que ilumina;impiedosa segue ela as suas rotas.
Iníquo do fundo do coração contra tudo o que dá luz,frio para os outros sóis - assim gravita todo o sol.
Semelhantes a uma tormenta voam os sóis as suas órbitas,é esse o seu gravitar.Obedecem ao seu querer inexorável,é essa a sua frieza.
Oh!só vós,ó escuros,ó nocturnos,só vós é do geque tirais calor da luz! Oh,só vós bebeis leite e refrigério dos úberes da luz!
Ai!há gelo à minha volta,a minha mão queima-se ao contacto do gelo!Ai! há em mim sede que se consome pela vossa sede!
É noite: ai!ter eu de ser a luz! E sede de noite!E solidão!
É noite: agora,como uma fonte,jorra de mim o meu desejo - desejo de fala.
É noite: agora falam mais alto todas as fontes jorrantes. E a minha alma é também uma fonte jorrante.
É noite: agora acordam todas as canções dos amantes. E a minha alma é também a canção de um amante.

Assim cantou Zaratustra.

De F.Nietzsche
in Poemas em Prosa (cinco canções de Zaratustra)



sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A VERDADE


A Verdade -
uma mulher,nada melhor:
manhosa no seu pudor:
aquilo de que mais gosta,
não o quer saber:
põe os dedos diante...
A quem cede ela? Só à força! -
Usai pois da força,
sede duros,ó mais sábios!
Tendes de violentá-la,
à pudibunda Verdade...
Para a sua felicidade
é precisa a violência -
- ela é uma mulher,nada melhor.

De F.Nietzsche
Escultura de Henry Moore


terça-feira, 26 de agosto de 2008

A BARCA MISTERIOSA


Ontem à noite,quando tudo já dormia
E o vento com suspiros indecisos,
Pelas vielas mal corria,
Nenhum repouso me dava o travesseiro,
Nem a papoula,nem o que de resto
Dá sono profundo - a consciência tranquila.

Expulsei por fim da ideia do sono
E corri para a praia. Havia luar
E o tempo estava ameno, - encontrei
Homem e barco sobre a areia quente,
Sonolentos ambos,pastor e ovelha: -
Sonolento o barco se afastou de terra.

Uma hora,talvez mesmo duas,
Ou foi um ano? - Então,de súbito,
Espírito e pensamentos mergulharam
Numa eterna monotonia,
E um abismo sem limites
Se abriu: - e tudo acabou!

- A manhã chegou: sobre profundas negras
Está um barco que repousa,repousa...
Que aconteceu? Ouviu-se um grito,e em breve
Mais cem gritos: Que houve? Sangue? - -
Nada aconteceu! Dormimos,dormimos
Todos - ai,tão bem! tão bem!

De F. Nietzsche

segunda-feira, 21 de julho de 2008

MÉZINHA DE PESSIMISTAS


Queixas-te que nada te sabe bem?

Continuas,Amigo,co'as mesmas manias?

Barafustas,cospes,injurias --

Paciência e coração se me não contêm.

Dou-te um conselho,Amigo: Vê se um dia

Consegues engolir um sapo bem gordinho,

De repente e sem olhar um instantinho!

Vais ver como te passa essa dispepsia!


De F. Nietzsche

quinta-feira, 19 de junho de 2008

O ESCARNINHO


Deixo cair muitas coisas e rolar,

Por isso vós me chamais escarninho,

Quem bebe por copos muito cheios,

Muito ele deixa cair e rolar - ,

Mas nem por isso pensa mal do vinho.



De Nietzsche

Pintura:"Os bêbedos" de Malhoa

domingo, 1 de junho de 2008

A PALAVRA


À palavra viva é que eu tenho amor:
Salta tão jovial ao nosso encontro,
Saúda com gesto gracioso,
É bela mesmo sem jeito,
Tem sangue,é capaz de esbravejar com brio,
E então entra até nas orelhas de um surdo,
Encaracola-se e põe-se a voar,
E em tudo o que faz - a palavra encanta.

Mas a palavra é um ser delicado,
Ora doente,ora outra vez sadia.
Se lhe queres poupar a pequenina vida,
Tens de lhe pegar com leveza e graça,
Sem a apalpares nem a apertares à bruta,
Que ela morre por vezes já de um mau olhar
E aí fica ela,tão desfigurada,
Tão sem alma,tão pobre e fria,
O seu corpinho a tal ponto transformado,
Da morte e da agonia mal-tratado.

Uma palavra morta - feia coisa,
Um chocalhante e seco cling-ling-ling.
Fora esses ofícios hediondos
Que fazem morrer as palavrinhas!

De F.Nietzsche
Gravura de Durer,1514

quinta-feira, 1 de maio de 2008

HERACLITISMO


Da terra toda a sorte
A luta a dá,Amigos!
Sim,pra se ver amigo
Fumo de pólvora é preciso!
Uma das três são os amigos:
Irmãos ante o perigo,
Iguais ante o inimigo,
Livres - ante a morte!

De F.Nietzsche

sexta-feira, 4 de abril de 2008

SÓ LOUCO! SÓ POETA!


Em ar diáfano,
quando já o consolo do orvalho
ressuma sobre a terra,
invisível e também sem se ouvir
- pois o consolador orvalho traz,
como todos os suavizadores,calçado leve -
lembras-te então,lembras-te,ardente coração,
da tua sede de outrora,
sede de lágrimas celestes e de orvalhos,
tu crestado e cansado,
enquanto sobre atalhos de erva seca
maldosos olhares do sol da tarde
em torno a ti corriam por entre árvores negras,
olhares de sol em brasa,cegantes e cínicos.

"Pretendente da Verdade
- tu?" assim eles te escarneciam

"Não!só um Poeta!

um bicho,manhoso,de rapina,rastejante,
que tem de mentir,
que ciente e voluntàriamente tem de mentir,
ávido de presa,
de disfarces multiclores,
de si mesmo disfarce,
de si mesmo presa,
isso - Pretendente da Verdade?...

Só Louco! só Poeta!
Dizendo só coisas multiclores,
falando multiclor por máscaras de louco,
trepando sobre pontes mentirosas de palavras,
sobre arcos-íris de mentiras
entre falsos céus
vagueando,rastejando -
só Louco! só Poeta!...


Excertos de F.Nietzsche


segunda-feira, 17 de março de 2008

CONTRA AS LEIS


A partir de hoje pende-me ao pescoço

De um fio de cabelo o relógio das horas:

A partir de hoje cessa o curso dos astros,

E o sol,e o cantar do galo e as sombras;

E o que o tempo jamais me anunciou

É agora surdo e mudo e cego : -

Toda a Natureza agora se me cala

Ao tique-taque da lei e do relógio.


De F.Nietzsche

Foto de António Dias

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O ALBATRÓS


Que maravilha! Voa ele ainda?

Continua a subir,e co'as asas paradas!

Que é que o levanta e aguenta?

Qual é o seu fito,o seu curso,as suas rédeas?


Voou ao máximo - agora é o próprio céu

Que ergue ao alto o que voa triunfante:

Fica parado a pairar,

Esquecendo o triunfo e o que triunfa.


Como a estrela e a eternidade,

Vive agora em alturas de que a vida foge,

Com dó mesmo da inveja:

E alto voou mesmo quem só o vê pairar!


Ó pássaro Albatrós!

Um eterno desejo me impele pra as alturas.

Pensei em ti: e então correu

Lágrima após lágrima, - sim,amo-te!


De F.Nietzsche