Com um nervoso no pé
E uma aflição na mão
Sem saber direito o que é
Fui consultar o cirurgião
Que já veio marcando a sangria
Para aquele mesmo dia
Mas eu
Saí de fininho
Fui visitar minha tia
Num terreiro lá da Olaria
Onde ela dá plantão
Depois de ouvir meus lamentos
Me benzeu com todo o sentimento
De amor que tem pelos seus
Falou com todo o respeito
A receita em nome de Deus:
- Tu tá com tesão de samba
Saudade pegou de jeito
De samba na mão
De samba no pé
Não vejo outra solução
Aproveita que é sexta-feira
Vai para a gafieira
Mas leva tua mulher!
De Gerson Deslandes,in Poetagem
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domingo, 21 de novembro de 2010
sexta-feira, 23 de julho de 2010
ERA UMA VEZ...
O que uma casa pensa de si
Se nunca foi moradia?
Nunca mais de alguns dias
Nunca mais que um feriado?
O que pensa de si o sobrado?
Que passou os natais fechados
E desfilou carnavais alugados
O que pensa de si a varanda
Que mesmo olhando pro oceano
Só tinha uma rede de pano
Para desbotar com os anos?
- Porque não nasci quitanda?
Teria talvez a esperança
De um dia virar mercado!
Ou continuar armazém
De secos e molhados.
O que pensou de nós aquela casa?
Quando a deixamos sozinha
Do dia pra noite?
Batemos asas como andorinhas
Em busca de outro verão
Virou só uma fotografia
Solar,do que não mais existe
Perdeu o mar na janela
O luar na soleira da porta
Ela nem é mais ela
E ninguém mais se importa
Como se a casa não tivesse coração
Hoje eu descobri,muito triste
Que coração,a casa tinha
Nós é que não.
De Gerson Deslandes
Se nunca foi moradia?
Nunca mais de alguns dias
Nunca mais que um feriado?
O que pensa de si o sobrado?
Que passou os natais fechados
E desfilou carnavais alugados
O que pensa de si a varanda
Que mesmo olhando pro oceano
Só tinha uma rede de pano
Para desbotar com os anos?
- Porque não nasci quitanda?
Teria talvez a esperança
De um dia virar mercado!
Ou continuar armazém
De secos e molhados.
O que pensou de nós aquela casa?
Quando a deixamos sozinha
Do dia pra noite?
Batemos asas como andorinhas
Em busca de outro verão
Virou só uma fotografia
Solar,do que não mais existe
Perdeu o mar na janela
O luar na soleira da porta
Ela nem é mais ela
E ninguém mais se importa
Como se a casa não tivesse coração
Hoje eu descobri,muito triste
Que coração,a casa tinha
Nós é que não.
De Gerson Deslandes
quarta-feira, 16 de junho de 2010
FEMININAS
Mulheres e cidades
Tem familiaridades
Um misto de prazer
E sutil crueldade
Atraem iguais e opostos
Tem beleza e horror
No mesmo rosto
São cheias de charme
E mau gosto
Protegem o criminoso
Mas tocam o alarme
As melhores são as que tem
Mais defeitos que qualidades
Uma simplicidade vaidosa
Uma validade espartana
Que acerta quando nos engana
E ri dos nossos equívocos
E nessa receita improvável
Nascem tão femininas
que seu grande mistério
é ter um coração habitável
Num frágil peito de menina.
De Gerson Deslandes,in Poetagem
Tem familiaridades
Um misto de prazer
E sutil crueldade
Atraem iguais e opostos
Tem beleza e horror
No mesmo rosto
São cheias de charme
E mau gosto
Protegem o criminoso
Mas tocam o alarme
As melhores são as que tem
Mais defeitos que qualidades
Uma simplicidade vaidosa
Uma validade espartana
Que acerta quando nos engana
E ri dos nossos equívocos
E nessa receita improvável
Nascem tão femininas
que seu grande mistério
é ter um coração habitável
Num frágil peito de menina.
De Gerson Deslandes,in Poetagem
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
VENTO VENTO

Gosto do barulho do vento
Qualquer vento voador
Serve pro meu encantamento
Vento de chuva é o de calor
Vento mais fresco é o da flor
E aquele,frio de bater queixo
Traz a saudade de meu amor
E é nele que eu me deixo
Levar como se nada existisse
Como se andasse nu
E ninguém me visse
Como se eu fosse apenas alma
E essa nunca partisse
E a vida fosse como era antes
Gosto do vento
Somos velhos amantes
De Gerson Deslandes
sexta-feira, 26 de junho de 2009
CURRICULUM

Eu não aceito cheques
Nem ando na contra-mão
Não passo embaixo de escadas
Não jogo papel no chão
Nunca passei dos oitenta
Nem avancei o sinal
Não posso comer pimenta
Nem abusar do sal
Eu não cometo adultério
Nem peço dinheiro emprestado
Só leio se for de mistério
Não compro nada fiado
Tenho amigos na polícia
Um filho no Colégio Militar
Não gosto de quem tem malícia
Rezo antes de me deitar
Nunca chego atrasado
E durmo antes das dez
Acordo num banho gelado
No chão eu não boto os pés
Mulher minha não trabalha fora
Por isso trabalho demais
Se a filha não chega na hora
Na outra vez não vai mais
Não bebo,não fumo,não jogo
Não falo mal do governo
Pragas pros outros não rogo
Nem mando ninguém pro inferno
Não gosto de comunistas
Odeio o jogo do bicho
Não passo nem assino listas
Não jogo comida no lixo
Comungo todo domingo
Lavo meu carro também
Não falo palavrão nem xingo
Adoro dizer amém
Eu não dispenso a gravata
Acordo sempre feliz
Adoro arroz com batata
Adoro também meu país
Mas sei que quando chegar no céu
São Pedro vai me dizer:
- Meu filho,bota o teu chapéu
E volta pra Terra,vai viver!
De Gerson Deslandes
O "boneco" foi-me enviado,sem menção ao autor
domingo, 22 de março de 2009
OPERALHO

Ele chegou muito cansado do trabalho
Tomou sopa de pacote e comeu alho
Viu novela e jogou cinza no soalho
E foi tentar algum por fora no baralho
A vizinha chamou ele de bandalho
Num golpe baixo: -deu-lhe um chute no bugalho
Transformou a roupa dela num retalho
Navalhou no rosto dela um belo talho
O delega do lugar,doutor Bicalho
Ouviu a queixa e mandou descer o malho
Mas quebrou o braço dele feito um galho
Saiu da cana parecendo um espantalho
Foi pela rua enxugando orvalho
Era motivo de chacota e de avacalho
Sentindo frio mas não tinha um agasalho
Perdendo sangue concluiu: eu nada valho
De Gerson Deslandes
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
CIDADEZINHA

No meu interior uma cidadezinha
Sem igrejas,sem bordeis,sem cinemas
Com muita luz do sol,com muita luz
Brilhando por um rio que atravessa
Junto à rua principal
Sem perfeituras,sem ditaduras
Sem ratos nas mesas
Nem gravatas lambendo sem parar
E para se chegar na minha casa
Tem que virar os olhos para mim
Tem que deixar de lado a goiabada
E me trazer o vinho
Beber pelo caminho
A alegria dos pardais
E a poesia envernizada de uma rua
Num subúrbio natural dentro de mim
De Gerson Deslandes,in Poetagem
Imagem retirada de baciadasalmas.com
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
PRESÍDIO DE SEGURANÇA MÍNIMA

A paixão é presídio
De segurança mínima
Tem toda a sorte
De jogos de azar
Tem quem fala
Tem quem ouve
Sem celular
Tem corredor da morte
Tem faltas de ar
Tem quem nem se importe
Tem quem corte os pulsos
Tem quem consegue fugir
Tem quem é expulso
Tem quem não tem
Pra onde ir
A paixão é presídio sagrado
De segurança mínima
Quando cheguei nessa vida
Já estava condenado
De Gerson Deslandes
Fotografia de Andreia Cruz
domingo, 21 de setembro de 2008
IMAGINANDO

Nesses dias deitados
Eu pessoalmente gostaria
De dizer a você
O quanto realmente se chora na noite
O quanto se ri de dia da própria desgraça de amar
Não reclamo de nada
Estou até muito bem assim
Imaginando-te sempre doce,sempre boa
Sempre emaranhada
Nos diversos cabelos do meu corpo
Sei muito bem que isso é besteira
Sei muito bem o quanto me abandonas
A cada dia. Mas por isso mesmo
Sei muito bem que nunca mais
É sinónimo de sempre
E imaginar-te comigo é te ter ainda um pouco
Pensar em teu corpo é te amar novamente
Tanto que fico até rouco,como você sabe quando.
Ainda tomo sorvete de coco com você - peço duas
E vou para o carro vazio! O sorveteiro ri!
Não faz mal se o teu derrete no banco
Você não sabia mesmo tomar sorvete sem lambuzar
Vê como já estou imaginando? Mas é assim
Que eu gosto de ficar: imaginando!
Você e tudo o mais que compõe você
Como um samba feliz do Cartola
Eu tenho que continuar pensando em você
A gente só fica mesmo sozinho
Quando não tem ninguém no coração.
De Gerson Deslandes
Fotografia retirada de olhares.aeiou.pt
quarta-feira, 9 de abril de 2008
ÚLTIMO BILHETE

(um samba para Noel Rosa)
Este é o último bilhete
Que eu mando pra você
Afinal,não pega bem
Mandar recados
Para moça tão requintada
Podem pensar que é macete
De um cara mal intencionado...
Nesses tempos de amor de proveta
Um bom dia é cantada!
Amizade é coisa perigosa
Solidariedade nem se fala
É coisa do capeta
Melhor receber à bala
Pessoa tão perniciosa
E nunca foi minha intenção
Abalar sua reputação!
Muito pelo contrário
No fundo,sou um otário
Um gago apaixonado
Que acredita que o amor
É um bilhete premiado
E cai no conto do vigário
Compra gato por lebre
E canta sua paixão
Desafiando a febre
Dispensa o pára-quedas:
Fica no avião
Até beijar o chão
Tudo bem,é coisa minha
É,e sempre será
Uma questão de opção
E minha opção agora
É deixar em paz essa senhora
"Sem retrato,sem bilhete
Sem luar,sem violão."
De Gerson Deslandes,in Poetagem
sexta-feira, 14 de março de 2008
ANTES DA PÁSCOA

Eu sou um poeta
Não tenho passado
Nem tenho futuro
Sou iluminado
E vivo no escuro
A calma me inquieta
Vivo do sol
Do vento,das chuvas
Das mulheres que imagino
Estátuas nuas
Ou vestidas de linho fino
Dedos vivos nas luvas
E pernas meio quentes
Olho a cidade
Da minha janela
Penso muito mais nela
Do que ela em mim
Tudo é meio assim
Sombrio,ardente,pateta
Sou mesmo o poeta?
A vida nasce e morre
No poente.
De Gerson Deslandes,in POETAGEM
Foto "Início da noite em Ipanema" de John Kirchhofer
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Auto - retrato nº 58468795 - 0025/a

Eu
O cidadão sem cor que entra diariamente
Pela porta de vidro e aço transparente
Assina o ponto pontualmente
E sorri ao redor com todos os dentes
E senta-se na mesa marrom bovinamente
Olha os papéis com duas lentes
Começa a carimbar maquinalmente
Passa as mãos nos cabelos feito pente
Engole de uma vez o cafezinho quase quente
Bate na máquina cada vez mais rapidamente
Com os olhos a brilhar loucamente
O juízo querendo escapar da mente
E conversa com todos suavemente
Recitando com língua de serpente
Olha o tempo passando velozmente
Cada vez sentindo-se mais carente
Amando com os olhos indecentes
Cada bunda que lhe passa pela frente
Pensando na morte muito constantemente
Um pavor que aumenta e se faz presente
A certeza chegando lentamente
De um futuro tão deprimente
Que só sabe dizer,infelizmente
Que um dia irá solenemente
Vingar-se de toda essa gente
Não sou
Eu
Que queria por tudo ser poeta
E se esse desejo é muita pretensão
Ser pelo menos uma pessoa aberta
Sem ter que camuflar o coração
Ter um sorriso de batom na boca
E um papagaio do ombro ao dedo
Queria ser aquele eterno arlequim
Que entra sem medo na roda das crianças
Amigo bem chegado em qualquer botequim
Na ponta da língua sempre uma esperança
De mudar esse mundo de porradas e torturas
Onde o dinheiro vale mais que a palavra
A empresa vale mais que a pessoa
A máquina vale mais que o ser humano
E nada valem as festas e as missas
Quero ser simples e doce como rapadura
Lutar para que a terra seja de quem a lavra
E a vida sobre ela seja boa
E não se alimente mais a fome
Nem se precise implorar por justiça
De GERSON DESLANDES,in POETAGEM
(Vencedor do V Prêmio Literário Livraria Asabeça 2006/Categoria POESIA)
Foto do poeta,apresentando a sua "punheta" no Reveillon familiar de 2007/2008)
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