domingo, 12 de outubro de 2008

ASSIM


Assim por muito mais e muito menos
Assim por heroísmo e cobardia.
Assim a tarde a noite no momento,
Assim pensar em mim quando vivias.

Assim os dedos longos nos cabelos
Dos mortos abraçados e cativos.
Assim esta miséria de estar viva
E não saber estar viva quando vivo.

Assim nas brancas árvores o tempo
Assim ter acabado o meu destino
E ler-me noutros versos,noutros nomes,
Assim desconhecer onde habito.

Assim por muito mais e muito menos
Se acaba,em vida,a vida ao suicida.

Assim por ser a hora mais cinzenta,
O desamparo assim da minha vida.

De Natércia Freire
Fotografia retirada de anomalias.weblog.com.pt

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

PIM PAM PUM


Cada bola mata um
Que leve as coisas a peito
Pim Pam Pum
Cada taxa mata um
Que à banca esteja sujeito
Pim Pam Pum
Cada bala mata um
Que se ponha a jeito
Pim Pam Pum
Não tenho medo algum
De quem ao sujeito
Presta preito
Pim Pam Pum
Inda acerto nalgum

PRESÍDIO DE SEGURANÇA MÍNIMA


A paixão é presídio
De segurança mínima
Tem toda a sorte
De jogos de azar
Tem quem fala
Tem quem ouve
Sem celular
Tem corredor da morte
Tem faltas de ar
Tem quem nem se importe
Tem quem corte os pulsos
Tem quem consegue fugir
Tem quem é expulso
Tem quem não tem
Pra onde ir
A paixão é presídio sagrado
De segurança mínima
Quando cheguei nessa vida
Já estava condenado

De Gerson Deslandes
Fotografia de Andreia Cruz

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

AMADOR CEA



Como habían detenido a mi padre
y pasó el Presidente que elegimos
y dijo que todos éramos libres,yo pedí que a mi viejo lo soltaran.
Me llevaron y me pegaron todo un día.
No conozco a nadie en el quartel. No sé,no puedo
ni recordar sus caras. Era la policía.
Cuando perdía el conocimiento,me tiraban
agua en el cuerpo y me seguían pegando.
En la tarde,antes de salir,me llevaron
arrastando a una sala de baño,
me empujaron la cabeza adentro de una taza
de W.C. llena de excrementos. Me ahogaba.
"Ahora,sal a pedir libertad al Presidente,
que te manda este regalo",me decían.
Me siento apaleado,esta costilla me la rompieron.
Pero por dentro estoy como antes,camarada.
A nosotros no nos rompen sino matándonos.

De Pablo Neruda
Pintura de Malangatana

domingo, 28 de setembro de 2008

LUGARES DO OUTONO


Outono,labirinto de silvas,
de sílabas,digo: pupila lenta,
rio de inumeráveis águas
e de amieiros onde canta
a derradeira luz das cigarras,
de vidro ainda,e leve, e branca.

De Eugénio de Andrade
Fotografia retirada de lua.weblog.pt

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

COM CINCO LETRAS DE SANGUE


De súbito três tiros na memória.
Apagaram-se se luzes. Noite. Noite.
De súbito três tiros nas palavras
um poeta calou-se apagou-se a canção.

De súbito um poema foi bombardeado
um poeta fechou-se nas vogais
cercado por consoantes que talvez
caminhassem cantando para um verso.

Eram granadas? Eram sílabas de fogo?
E de súbito a guerra. Noite. Noite. E um poeta
com cinco letras escreveu no chão: PORQUÊ?
Com cinco letras do seu próprio sangue.

De Manuel Alegre,in A Praça da Canção

domingo, 21 de setembro de 2008

IMAGINANDO


Nesses dias deitados
Eu pessoalmente gostaria
De dizer a você
O quanto realmente se chora na noite
O quanto se ri de dia da própria desgraça de amar
Não reclamo de nada
Estou até muito bem assim
Imaginando-te sempre doce,sempre boa
Sempre emaranhada
Nos diversos cabelos do meu corpo
Sei muito bem que isso é besteira
Sei muito bem o quanto me abandonas
A cada dia. Mas por isso mesmo
Sei muito bem que nunca mais
É sinónimo de sempre
E imaginar-te comigo é te ter ainda um pouco
Pensar em teu corpo é te amar novamente
Tanto que fico até rouco,como você sabe quando.
Ainda tomo sorvete de coco com você - peço duas
E vou para o carro vazio! O sorveteiro ri!
Não faz mal se o teu derrete no banco
Você não sabia mesmo tomar sorvete sem lambuzar
Vê como já estou imaginando? Mas é assim
Que eu gosto de ficar: imaginando!
Você e tudo o mais que compõe você
Como um samba feliz do Cartola
Eu tenho que continuar pensando em você
A gente só fica mesmo sozinho
Quando não tem ninguém no coração.

De Gerson Deslandes
Fotografia retirada de olhares.aeiou.pt