segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

EM MEMÓRIA DE CHICO MENDES


Chegam notícias do Brasil,o Chico

Mendes foi assassinado,a morte

enrola-se agora nos primeiros frios,

nem sequer a tristeza tem sentido,

a bola continua em órbita,um dia

estoira,o universo ficará mais limpo.


De Eugénio de Andrade

Fotografia de Carlos Ruggi/se

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

CIDADEZINHA


No meu interior uma cidadezinha

Sem igrejas,sem bordeis,sem cinemas

Com muita luz do sol,com muita luz

Brilhando por um rio que atravessa

Junto à rua principal

Sem perfeituras,sem ditaduras

Sem ratos nas mesas

Nem gravatas lambendo sem parar


E para se chegar na minha casa

Tem que virar os olhos para mim

Tem que deixar de lado a goiabada

E me trazer o vinho

Beber pelo caminho

A alegria dos pardais

E a poesia envernizada de uma rua

Num subúrbio natural dentro de mim


De Gerson Deslandes,in Poetagem

Imagem retirada de baciadasalmas.com

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

CANÇÃO DO VERDADEIRO ABANDONO


Podem todos rir de mim,
Podem correr-me à pedrada,
Podem espreitar-me à janela
E ter a porta fechada.

Com palavras de ilusão
Não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
Não tem vislumbres de além.

Não sou irmã das estrelas,
Nem das pombas,nem dos astros.
Tenho uma dor consciente
De bicho que sofre as pedras
E se desloca de rastos.

De Natércia Freire
Gravura de Oswaldo Goeldi

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A FACA


A palavra será faca
o sentido será gume
a imagem será chama
mas a matéria é o lume.

Lume dos nervos riscados
pelo fósforo do medo
lume dos dentes cerrados
pela goma dum segredo.

Lume das faces de cera
lume dos dedos de cal
lume golpe lume pedra
lume silêncio metal.

Lume que se acende a frio
e nos devora por dentro
lume agulha lume fio
da faca do pensamento.

Lume navalha que rasga
o ventre da solidão
vingança de quem se gasta
queimando frases em vão.

Lume lembrança das coisas
que nos arderam na voz
cinza viva que nos corta
e nos separa de nós.

De Ary dos Santos

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

PARA VINICIUS


Há muita gente ainda por aí(tenho medo que aumente!) que de ti o que quer é o catorze,quer dizer o soneto, e rejeita teu outro meio de comunicar,que afinal é o mesmo:tocantar.
Perceba,por uma vez,essa gentalha,que o Vinicius poeta e o Vinicius sambista são da mesma igualha!
São
o operário
em construção.
Abração
Alexandre O'Neill

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

POEMA DO NATAL


PARA ISSO fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrêla a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo,pisar leve,ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso,talvez,de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem,graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais,esperaremos...
Hoje a noite é jovem;da morte,apenas
Nascemos,imensamente.

De Vinicius de Moraes
Incluido na edição inglesa "Penguin" de poesia latino-americana

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

PARÁBOLA


Poemas são como vitrais pintados!
Se olharmos da praça para a igreja,
Tudo é escuro e sombrio;
E é assim que o Senhor Burguês os vê.
Ficará agastado? - Que lhe preste!...
E agastado fique toda a vida!

Mas - vamos! - vinde vós cá para dentro,
Saudai a sagrada capela!
De repente tudo é claro de cores:
Súbito brilham histórias e ornatos;
Sente-se um presságio neste esplendor nobre;
Isto,sim,que é pra vós,filhos de Deus!
Edificai-vos,regalai os olhos!

De J.W.Goetthe (1794 - 1832)