domingo, 22 de março de 2009

OPERALHO


Ele chegou muito cansado do trabalho
Tomou sopa de pacote e comeu alho
Viu novela e jogou cinza no soalho
E foi tentar algum por fora no baralho

A vizinha chamou ele de bandalho
Num golpe baixo: -deu-lhe um chute no bugalho
Transformou a roupa dela num retalho
Navalhou no rosto dela um belo talho

O delega do lugar,doutor Bicalho
Ouviu a queixa e mandou descer o malho
Mas quebrou o braço dele feito um galho
Saiu da cana parecendo um espantalho

Foi pela rua enxugando orvalho
Era motivo de chacota e de avacalho
Sentindo frio mas não tinha um agasalho
Perdendo sangue concluiu: eu nada valho

De Gerson Deslandes

quarta-feira, 18 de março de 2009

SER FELIZ


Posso ter defeitos,viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios,incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si,mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma crítica,mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas,um dia vou construir um castelo...
De Fernando Pessoa
Um contributo de MC

sexta-feira, 13 de março de 2009

quinta-feira, 12 de março de 2009

O CIO DA POESIA


É no verão das palavras
no suor
das coisasamassadas
no calor
de coxas esculturais e bem-amadas
que o poeta traz o cesto das entradas.

Um cabaz de morangos um almude
de vinho novo e grave um alaúde
de arcanjos e marujos profetas;
- é sempre o quarto da saúde
quando se acende a luz dos poetas.

Quando ela nasce tudo o mais se cala
navios nos pinhais pinheiros nas florestas
filhos no sémen dos pais aromas dentro das giestas;
- só quando o cio é demais
é que o parto tem arestas

Quando a sibila das cores
abre as pernas às palavras
os poetas têm dores
como crianças que ladram.
E fazem sulcos na carne
golpes dentro da ternura
até chegarem ao cerne
da primavera mais dura.

Então acendem-se os poemas
feitos de poesia pura.

De Ary dos Santos
Pintura de Dali

segunda-feira, 9 de março de 2009

CORPO


É quando a chuva cai,é quando
olhado devagar que brilha o corpo.
Para dizê-lo a boca é muito pouco,
era preciso que também as mãos
vissem esse brilho e o dissessem
a quem passa na rua,e cantassem.
Todas as palavras falam desse lume,
sabem à pele dessa luz molhada.
De Eugénio de Andrade
Pintura de Bonfanti Maurizio(2007)

quinta-feira, 5 de março de 2009

LEGO


Está tudo conformado

ao triste proprietário.

Mecânicas ovelhas,

na erva de plástico,

têm pastor de pilhas

e cão pré-fabricado.

Flores marginam esse

às peças-soltas do prado.

Eléctricas abelhas,

obreiras sem contrato,

daquele herbário extraem

um mel supermercado.

A malhada,no estábulo,

quase manga de alpaca

(é A VACA,sabias?),

dá leite engarrafado.

No céu (para colorir)

a nuvem (pontual),

aguarda a vez de ser

chovida no nabal,

enquanto o Sol dardeja

na eira proverbial.

Já tudo afeiçoado

ao bom do proprietário

(ervas,bichos,moral),

ele conta com os seus

e espera sempre em Deus.


("- Deste corda ao pardal?")


De Alexanre O'Neill

segunda-feira, 2 de março de 2009

AS VOLTAS DA POESIA


Borborigmo a expensas da dobrada.

Para uns,é a alma alcanceada:

para outros,quilo tão ronceiro

que lhes dá resmoneio o dia inteiro,

a conversa visceral fiada

que os versos são,primeiro.


Em qualquer dos casos,venham mas é versos,

bem tirados,acabados,tesos,

que a dobrada,essa,se por lá traquina,

é para coisa que se veja,chula ou fina.


De Alexandre O'Neill