terça-feira, 4 de março de 2008

NÃO


Não formar nenhuma ideia

Do que somos ou seremos

Mas entre as vozes que fogem

Precisar o que dizemos.

Dormir sonos ante-céus

Abismos que são infernos.

Dormir em paz. Dormir em paz,

Enfim a nota segura.

Lembrar pessoas e dias

Que penetraram no espaço

De eventos primaveris.

E dar a mão aos espectros

Beijá-los lendas,perfis.

Amar a sombra,a penumbra

Correr janelas e véus.

Saber que nada é verdade.

Dizer amor ao deserto

Abraçar quem nos ignora

Dormir com quem não nos vê

Mas precisar do calor.

De quem nunca nos encontra.


De Natércia Freire

Ilustração de Mário Silva

sábado, 1 de março de 2008

ELEGIA DE TIPASÁ


As armas - me perguntam - e desarmado

sentado em Tipasá pergunto ao mar:

em que verso em que tempo em que país

se venceu desarmado o ódio armado?

E o Tempo passa em Tipasá e diz:

que só por minhas mãos me posso armar.


E pena a pena passa o Tempo enquanto

passo a passo não passa esta saudade

não do que foi mas só do que será

- tempo futuro e arma do meu canto.

Que desarmado eu vi em Tipasá

armar-se de saudade a liberdade.


Porque vais a correr Tempo que passas

em Tipasá onde há Romas e Parmas

nestas pedras que são tempo passado?

E caem-me das mãos como de taças

as palavras que são amor mudado

em versos desarmados - minhas armas.


E passa o Tempo aqui onde não passa

a saudade que pena a pena passo.

Sobre as pedras passadas tempo novo:

Argélia onde foi França em cada praça.

Tempo que passas:quando é que meu povo

terá o seu tempo no seu próprio espaço?


E vai-se uma gaivota para o sul

Como o Tempo se vai como ele voa

como o Tempo seu voo é uma saudade.

E como o Tempo deixa um rastro azul

a gaivota que deixa sobre a tarde

em Tipasá um rastro de Lisboa.


E as armas - me perguntam.E desarmado

sentado em Tipasá pergunto ao mar.

E doem-me os minutos como farpas

cravados na canção que é já passado.

Abre-se o Tempo em mim com suas harpas

que poderei fazer se não cantar?


E o Tempo é uma canção do Rei de Tule.

Não peçam aos meus versos madrugadas

que não posso cantar como quereis

e já o Tempo mais que um rastro azul

deixou desertos nas palavras. Eis

minhas palavras nuas como espadas.


Eis estas armas que não são auroras

nem as pombas da paz que me pedis

- só palavras (sem armas) pelo ar. Mas

se vos servir o sangue destas horas

armai-vos do meu canto - que são armas

meus versos a sangrar por meu país.


De MANUEL ALEGRE

in O CANTO E AS ARMAS

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

APAGÃO MUNDIAL


Cinco minutos de guerra

Cumprir o apagão mundial

Para podermos viver nesta Terra

Contra

Todas as vontades da moeda imperial.

Truz!Truz!

Apaga a luz!

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O POEMA ORIGINAL


Original é o poeta

que se origina a si mesmo

que numa sílaba é seta

noutra pasmo ou cataclismo

o que se atira ao poema

como se fosse ao abismo

e faz um filho às palavras

na cama do romantismo.

Original é o poeta

capaz de escrever em sismo.


Original é o poeta

de origem clara e comum

que sendo de toda a parte

não é de lugar algum.

O que gera a própria arte

na força de ser só um

por todos a quem a sorte

faz devorar em jejum.

Original é o poeta

que de todos for só um.


Original é o poeta

expulso do paraíso

por saber compreender

o que é o choro e o riso;

aquele que desce à rua

bebe copos quebra nozes

e ferra em quem tem juízo

versos brancos e ferozes.

Original é o poeta

que é gato de sete vozes.


Original é o poeta

que chega ao despudor

de escrever todos os dias

como se fizesse amor.


Esse que despe a poesia

como se fosse mulher

e nela emprenha a alegria

de ser um homem qualquer.


De Ary dos Santos

Imagem retirada de www.guia.heu.nona.br

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

E LEVANTAM-SE AS PESSOAS


E levantam-se as pessoas

Como quem se adormecesse.

Preparam-se para o sono

De uma vigília nas ruas

Nas casas e nos empregos.


E naufragam e sufocam

Nas avenidas do Tempo.

Conversam como quem fecha

Creches gaiolas enterros

- Crianças aves e mortos.


Nos sorrisos e nos risos

Na lucidez dos reflexos

Pensam os tristes dos homens

Ganhar os dias correndo.

Mas são retidos nas sombras.

São amarrados ao vento.

São sacudidos em potros

E forcas de entendimento.

Eles que são cabeleiras,

Nas chuvas de outros intentos

Nos rios e nas goteiras.


E levantam-se as pessoas

Como quem fosse viver.


Dá o Sol por sobre o Dia

Faz o dia apodrecer.


(Maduro quer dizer Morte

Com toda a sabedoria)


Deitam-se então as pessoas

Para a morte de outro dia


De Natércia Freire

Imagem retirada de lunatica.blogs.sapo.pt

domingo, 24 de fevereiro de 2008

HIMNO Y REGRESSO (1939)


Patria,mi patria,vuelvo hacia ti la sangre.

Pero te pido,como a la madre el niño

lleno de llanto.

Acoge

esta guitarra ciega

y esta frente perdida.

Salí a encontrarte hijos por la tierra,

salí a cuidar caídos con tu nombre de nieve,

salí a hacer una casa con tu madera pura,

salí a llevar tu estrella a los héroes heridos.


Ahora quiero dormir en tu substancia.

Dame tu clara noche de penetrantes cuerdas,

tu noche de navío,tu estatura estrellada.


Patria mía:quiero mudar de sombra.

Patria mía:quiero cambiar de rosa.

Quiero poner mi brazo en tu cintura exigua

y sentarme en tu piedras por el mar calcinadas,

a detener el trigo y mirarlo por dentro.

Voy a escoger la flora delgada del nitrato,

voy a hilar el estambre glacial de la campana,

y mirando tu ilustre y solitaria espuma

un ramo litoral tejeré a tu belleza.


Patria,mi patria

toda rodeada de agua combatiente

y nieve combatida,

en ti se junta el águila el azufre,

y en tu antártica mano de armiño y de zafiro

una gota de pura luz humana

brilla encendiendo el enemigo cielo.


Guarda tu luz,oh patria!,mantén

tu dura espiga de esperanza en medio

del ciego aire temible.

En tu remota tierra ha caído toda esta luz difícil,

este destino de los hombres,

que te hace defender una flor misteriosa

sola,en la inmensidad de América dormida.


De PABLO NERUDA

in CANTO GENERALE DE CHILE

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

APRENDIZAGEM DA POESIA


Durou muitos anos,aquele verão.

Crescíamos sem pressa com o trigo

e as abelhas. Com o sol

corríamos para a água,à noite

num verso de Shakespeare ou

na nossa boca uma estrela dançava.

Aprendíamos a amar,aprendíamos

a morrer. A todos os sentidos

pedíamos para escutar o rumor,

não do mundo,que ninguém abarca,

apenas da brancura duma folha

e outra folha ainda de papel.


De Eugénio de Andrade

Tela de Van Gogh