sábado, 26 de julho de 2008

ELEGIA PARA A MINHA CAMPA



Agora,só,
que é o meu corpo terra confundida
na terra desta Serra minha Mãe;
agora,só,
a minha voz que sempre cantou mal
ao Céu se eleva...

Agora,só,
que no ventre da Serra minha Mãe repousa
meu corpo de Poeta,
de Poeta mudo em vida,por ausente
do ventre maternal os nove meses;
agora,só,claríssima se eleva
a minha voz-louvor,
a minha voz-carícia a minha Mãe,
ao Céu...

Agora,só,
que os meus lábios são terra de onde nascem
as moitas de folhado e de alecrim,
a minha voz saudosa de cantar
se elevará
até aonde o Céu tem cor e fim.
Se elevará a minha voz,perfume
desprendido,suavíssimo,dos matos
que surgiram de mim...

Agora,só,
que sou terra na terra misturada,
que a minha voz é voz de rosmaninho,
eu poderei tratar por tu
a meu irmão Frei Agostinho...
Agora,só,a meu Irmão,
que comigo nasceu naquele Dia
em que ao Céu se entregou,
ébria de Sol e Maresia,
nossa Mãe Serra...

De Sebastião da Gama (1924 - 1952)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O ESPAÇO LIVRE


Desocupado,livre,

sem vestígios,ao sol,

tronco devorado pela luz,

ondulada frescura no dorso,

sem laços,sem raízes,desabitado.


Conheço o tempo

e a demora

lenta,

o vazio da casa na manhã,

a manhã deserta ao sol,

a cegueira da luz tão leve,

o deserto simples,

o nome prolongado e nulo.


Estou

no silêncio,

na habitação do silêncio,

no mar imaginado,

na planura verde sussurrante,

na seara das brisas,

nos adeuses prolongados em ondas desfeitas,

no vazio da terra fresca,

no silêncio sempre novo,

nas vozes sobre o mar,

no sono sobre o mar.


Estou deitado

e alto.

Sou a tranquilidade dos montes,

a lenta curva das baías,

os olhos subterrâneos da água,

a liberdade dispersa do vento,

a claridade de tudo.


Escrevo sobre dunas

silenciosamente.

Oiço o tempo que não passa.

Um século de frescura

inunda-me.

Não esperava habitar esta vasta clareira

límpida.

Não esperava respirar esta brisa de paz,

de liberdade isenta,

de morte desvelada,

de vida renovada.


Abraço todo o espaço na liberdade viva.


De António Ramos Rosa

segunda-feira, 21 de julho de 2008

MÉZINHA DE PESSIMISTAS


Queixas-te que nada te sabe bem?

Continuas,Amigo,co'as mesmas manias?

Barafustas,cospes,injurias --

Paciência e coração se me não contêm.

Dou-te um conselho,Amigo: Vê se um dia

Consegues engolir um sapo bem gordinho,

De repente e sem olhar um instantinho!

Vais ver como te passa essa dispepsia!


De F. Nietzsche

sexta-feira, 18 de julho de 2008

SIEMPRE


Aunque los pasos toquen mil años este sitio,
no borrarán la sangre de los que aquí cayeron.

Y no se extinguirá la hora en que caísteis,
aunque miles de voces crucen este silencio.
La lluvia empapará las piedras de la plaza,
pero no apagará vuestros nombres de fuego.

Mil noches caerán con sus alas oscuras,
sin destruir el dia que esperan estos muertos.

El día que esperamos a lo largo del mundo
tantos hombres,el día final del sufrimiento.

Un día de justicia conquistada en la lucha,
y vosotros,hermanos caídos,en silencio,
estaréis con nosotros en ese vasto día
de la lucha final,en ese día inmenso.

De Pablo Neruda,in Los muertos de la plaza(28 de enero de 1946,Santiago de Chile)

terça-feira, 15 de julho de 2008

OS CÃES DA INFÂNCIA

Como indicado no marcador,é um poema de Ary dos Santos.

OS CÃES DA INFÂNCIA


São os cães da infância os cães dementes


ladrando-me às canelas do passado


cães mordendo-me a vida com os dentes


ferrados no meu sexo atormentado.




Paguei cada minuto do presente


com vergões de amor próprio vergastado


porém só fala quem se não consente


vencido temeroso ou amarrado.




Contra cães uivo. Não me fico assim.


Não tenho pai nem mãe. Nasci de mim


macho e fêmea gerando o desespero.




Lutar é tudo quanto sou capaz.


Não me pari para viver em paz.


Tudo o que sou é menos do que eu quero.