domingo, 13 de julho de 2008

EU ESCREVI UM POEMA TRISTE


Eu escrevi um poema triste

E belo,apenas de sua tristeza.

Não vem de ti essa tristeza

Mas das mudanças do Tempo,

Que sejas fiel ou infiel...

Eu fico,junto à correnteza,

Olhando as horas tão breves...

E das cartas que me escreves

Faço barcos de papel!


De Mário Quintana

Ilustração retirada do blog O itinerário do olhar

sábado, 12 de julho de 2008

AMIGOS


Aos meus amigos do mundo virtual








Nas palavras,nos momentos de magia,


de loucura... onde o sentimento


não se afunda,onde o credo da palavra


Amizade,não é uma palavra vã,


é solidariedade transformada em lágrimas,


é sorrisos transformados em flor,


que se colhem na bruma do dia que está a nascer.




Avisto o mar e o meu pensamento


corre naquele mar azul,imaginando


presenças sentidas... nas palavras,


na vontade de dizer:




Mesmo no mundo virtual,


a palavra Amizade tem sentido


tem beleza,tem profundidade.




De Otília Martel,in "Menina Marota um desnudar da alma"

quinta-feira, 10 de julho de 2008

SOBRE OUTROS LÁBIOS


Eu crescia para o verão.

Para a água

antiquíssima da cal

crescia violento e nu.


Podiam ver-me crescer

rente ao vento,

podiam ver-me em flor,

exasperado e puro.


À beira do silêncio,

eu crescia para o ardor

calcinado dos cardos

e da sede.


Morre-se agora

entre contínuas chuvas,

os lábios só lembrados

de um verão sobre outros lábios.


De Eugénio de Andrade

Imagem retirada do blog A ESSÊNCIA DAS COISAS

segunda-feira, 7 de julho de 2008

O DIREITO - TORTO


Da comédia musical,com o título acima,a 1ª canção de "Zeferino":


Quem quiser ser deputado

N'este tempo tão bicudo,

Há-de mentir descarado

Prometter arranjar tudo!


E fingir-se um sabichão.

D'outrem decorar discurso,

P'ra mostrar erudição

Sendo aliás um grande urso!


E se acaso o não puder

Lá no caco introduzir

Dê apoiados a valer

E á maioria va-se unir!


Peça lá p'ra os da panella

Aos ministros um rebuçado,

E conte sempre co'aquella,

Sim senhor,sê deputado!


E o doutor em medicina

Que tiver fraca cachola,

Off'reça gratis vacina

Na maré da variola!


Falle mal dos seus collegas,

Proclame-os brutos chapados,

Diga que - corujas cegas,

Só na morte são formados!


Quanto ao doutor em direito,

Pouco tem esse a fazer,

Chicanando tudo a eito,

Não tem mais que defender!


Chame ao reu - um inculpado,

Sendo acaso ... generoso;

Ao innocente malvado,

Se não passa d'um tinhoso!


De Gaudêncio Carneiro,Lisboa 1878


domingo, 6 de julho de 2008

ESTOU VIVO E ESCREVO SOL



ao Ruy Belo

Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida

Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

De António Ramos Rosa,in ESTOU VIVO ESCREVO SOL

sexta-feira, 4 de julho de 2008

UMA VIDA DE CÃO



Não

não é poesia caixa de música

ou a poesia piolho místico enterrado no sebo destes dias

ou qualquer outra

que podem dissolver a tua alma

tão problemática

no vinho da beatitude


Ah

o "mistério" da poesia a poesia

técnica da confusão

a capelista poética e os primeiros fregueses

ainda a medo ainda receosos

de te pedirem a Dor em alfinetes que não tenhas

logo ali à mão


E quando dizes "Poesia" eu tenho nojo

aquele nojo violento que me dá

o olhar furtivo a atenção desatenta

dos que se demoram nos lavabos nas salas dos cinemas

de mãos distraídas procurando

a solução da noite


Instalaram-me em ti

a mesma contracção suspeita

a mesma hipocrisia o mesmo sobressalto

a mesma curva obscena

que o olhar descreve

goza

e disfarça


Quando dizes "Poesia" dizes medo

dizes família tradição classe

e a vida de cão que te esperava

e que é hoje a tua vida a tua "trancendente"

vida de cão

....


Excerto de Alexanre O'Neill

terça-feira, 1 de julho de 2008

CANTO PENINSULAR


Estar aqui dói-me. E eu estou aqui

há novecentos anos. Não cresci nem mudei.

Apodreci.

Doem-me as próprias raízes que criei.


Foi a guerra e a paz. E veio o sol. Veio e passou

a tempestade.

Muita coisa mudou. Só não mudou

este monstro que tem a minha idade.


E foi de novo a guerra e a paz. Muita coisa mudou

em novecentos anos.

Eu é que não mudei. Neste monstro que sou

só os olhos ainda são humanos.


Quantas vezes gritei e não me ouviram

quantas vezes morri e me deixaram

nos campos de batalha onde depois floriram

flores de pão que do meu sangue se criaram.


Andei de terra em terra

por esse mundo que de certo modo descobri.

E fui soldado contra a minha própria guerra

eu que fui pelo mundo e nunca saí daqui.


Mil sonhos eu sonhei. E foram mil enganos.

Tive o mundo nas mãos. E sempre passei fome.

Eis-me tal como sou há novecentos anos

em que não sei escrever sequer o meu próprio nome.


Falam de mim e dizem: é um herói.

(Não sei se por estar morto ou porque ainda não morri)

Mas nunca ninguém disse a razão por que me dói

estar aqui.


De Manuel Alegre,in A Praça da Canção