Lancei ao mar um madeiro, espetei-lhe um pau e um lençol. Com palpite marinheiro medi a altura do Sol. Deu-me o vento de feição, levou-me ao cabo do mundo. pelote de vagabundo, rebotalho de gibão. Dormi no dorso das vagas, pasmei na orla das prais arreneguei, roguei pragas, mordi peloiros e zagaias. Chamusquei o pêlo hirsuto, tive o corpo em chagas vivas, estalaram-me a gengivas, apodreci de escorbuto. Com a mão esquerda benzi-me, com a direita esganei. Mil vezes no chão, bati-me, outras mil me levantei. Meu riso de dentes podres ecoou nas sete partidas. Fundei cidades e vidas, rompi as arcas e os odres. Tremi no escuro da selva, alambique de suores. Estendi na areia e na relva mulheres de todas as cores. Moldei as chaves do mundo a que outros chamaram seu, mas quem mergulhou no fundo do sonho, esse, fui eu.
POESIA
Aqui vou publicando os poemas de que mais gosto. A poesia mantem-nos vivos.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Poema da malta das naus
sábado, 17 de dezembro de 2011
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Máscara mortuária de Graciliano Ramos
Feito só,na máscara paterna,
Sua máscara tosca,de acre-doce
Feição,sua máscara austerizou-se
Numa preclara decisão eterna.
Feito só,feito pó,desencantou-se
Nele o último arcanjo,a chama eterna
Da paixão em que sempre se queimou
Seu duro corpo que ora longe inverna.
Feito pó,feito pólen,feito fibra
Feito pedra,feito o que é morto e vibra
Sua máscara enxuta de homem forte.
Isto revela em seu silêncio à escuta:
Numa severa afirmação de luta,
Uma impassível negação de morte.
De Vinicius de Moraes
Sua máscara tosca,de acre-doce
Feição,sua máscara austerizou-se
Numa preclara decisão eterna.
Feito só,feito pó,desencantou-se
Nele o último arcanjo,a chama eterna
Da paixão em que sempre se queimou
Seu duro corpo que ora longe inverna.
Feito pó,feito pólen,feito fibra
Feito pedra,feito o que é morto e vibra
Sua máscara enxuta de homem forte.
Isto revela em seu silêncio à escuta:
Numa severa afirmação de luta,
Uma impassível negação de morte.
De Vinicius de Moraes
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
quinta-feira, 14 de julho de 2011
A FORÇA DO HÁLITO
A força do hálito é como o que tem que ser.
E o que tem que ser tem muita força.
Vai(ou vem) um sujeito,abre a boca e eis que a gente,
que no fundo é sempre a mesma,
desmonta a tenda e vai halitar-se para outro lado,
que no fundo é sempre o mesmo.
Sovacos pompeando vinagres e bafios
não são nada - bah.... - em comparação
com certos hálitos que até parece que sobem do coração.
Ai onde transpira agora
o bom sovaco de outrora!
Virilhas colaborando com parêntesis ou cedilhas
são autênticas (e sem hálito!) maravilhas.
Quando muito alguns pingos nos refegos,nas braguilhas,
amoniacal bafor que suporta sem dor
aquele que está ao rés de tal teor.
Mas o mau hálito é pior que a palavra,
sobretudo se não for da tua lavra.
Da malvada,da cárie ou,meudeus,do infinito,
o mau hálito é sempre na narina,
como o baudelaireano,desesperado grito
da "charogne" que apodrecer não queria...
De Alexandre O'Neill
E o que tem que ser tem muita força.
Vai(ou vem) um sujeito,abre a boca e eis que a gente,
que no fundo é sempre a mesma,
desmonta a tenda e vai halitar-se para outro lado,
que no fundo é sempre o mesmo.
Sovacos pompeando vinagres e bafios
não são nada - bah.... - em comparação
com certos hálitos que até parece que sobem do coração.
Ai onde transpira agora
o bom sovaco de outrora!
Virilhas colaborando com parêntesis ou cedilhas
são autênticas (e sem hálito!) maravilhas.
Quando muito alguns pingos nos refegos,nas braguilhas,
amoniacal bafor que suporta sem dor
aquele que está ao rés de tal teor.
Mas o mau hálito é pior que a palavra,
sobretudo se não for da tua lavra.
Da malvada,da cárie ou,meudeus,do infinito,
o mau hálito é sempre na narina,
como o baudelaireano,desesperado grito
da "charogne" que apodrecer não queria...
De Alexandre O'Neill
sábado, 11 de junho de 2011
SOBRE O CAMINHO
Nada.
Nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila
dos pássaros
te dirão a palavra.
Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença.
Não colecciones dejectos o teu destino és tu.
Despe-te
não há outro caminho.
De Eugénio de Andrade
Nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila
dos pássaros
te dirão a palavra.
Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença.
Não colecciones dejectos o teu destino és tu.
Despe-te
não há outro caminho.
De Eugénio de Andrade
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