Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

VELHOS / 2


O Mataboches,o que deixou os alemães passarem em sucessivas vagas,
para,depois,do seu buraco,os dizimar pelas costas,
está que não pode.
Reformado da fábrica onde,até há poucos anos,
apoveitando as espertinas de ex-gaseado,
guardava as larápias sombras da noite,
o Mataboches já nem à taberna vai.
A filha,antes de sair para o trabalho,
deixa-o sentado à janela,entre canário e sardinheira,
com um mata-moscas à mão.
E o Mataboches passeia o curto-alcance dos seus olhos
do amarelo ao rosa,
vigiando mosca e varejeira.
Às vezes apanha chuva e larga a rir
(por ser regado ao mesmo tempo que as sardinheiras?)
um riso que põe o canário,espavorido,
a harpejar as barras da gaiola.
Penugem amarela rodeia o Mataboches.
Ele não dá por nada;dá a filha,
que lhe ralha e lhe faz ciúmes com o Hilário,o canoro.
Passa-se,então,um curioso ritual:
a filha tira o canário da gaiola,diz-lhe:"Ele foi mau pró meu Hilário!",
e enquanto o pai se agita,regouga,troca e destroca
seus gestos de meio paralítico,
ela,com um olho no velho,beija o passarinho,
alisa-lhe as penas,quase o come.
E o ritual só acaba quando o Mataboches
mistura a sua baba com o seu ranho.
O Mataboches,o do C.E.P.,
peneira o ar com o mata-moscas
e erra a última mosca.
De Alexandre O'Neill

Sábado, 4 de Julho de 2009

VOLTO JÁ!

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

EL FUGITIVO(1948) excerto


Por la alta noche,por la vida entera,
de lágrima a papel,de ropa en ropa,
anduve en estos días abrumados.
Fui el fugitivo de la polícia:
y en la hora de cristal,en la espesura
de estrellas solitarias,
crucé ciudades,bosques,
chacarerías,puertos,
de la puerta de un ser humano a otro,
de la mano de un ser humano a otro ser,a otro ser.
Grave es la noche,pero el hombre
ha dispuesto sus signos fraternales,
y a ciegas por caminos y por sombras
llegué a la puerta iluminada,al pequeño
punto de estrella que era mío,
al fragmento de pan que en el bosque los lobos
no habían devorado.

...

De Pablo Neruda

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

CURRICULUM



Eu não aceito cheques
Nem ando na contra-mão
Não passo embaixo de escadas
Não jogo papel no chão
Nunca passei dos oitenta
Nem avancei o sinal
Não posso comer pimenta
Nem abusar do sal
Eu não cometo adultério
Nem peço dinheiro emprestado
Só leio se for de mistério
Não compro nada fiado
Tenho amigos na polícia
Um filho no Colégio Militar
Não gosto de quem tem malícia
Rezo antes de me deitar
Nunca chego atrasado
E durmo antes das dez
Acordo num banho gelado
No chão eu não boto os pés
Mulher minha não trabalha fora
Por isso trabalho demais
Se a filha não chega na hora
Na outra vez não vai mais
Não bebo,não fumo,não jogo
Não falo mal do governo
Pragas pros outros não rogo
Nem mando ninguém pro inferno
Não gosto de comunistas
Odeio o jogo do bicho
Não passo nem assino listas
Não jogo comida no lixo
Comungo todo domingo
Lavo meu carro também
Não falo palavrão nem xingo
Adoro dizer amém
Eu não dispenso a gravata
Acordo sempre feliz
Adoro arroz com batata
Adoro também meu país
Mas sei que quando chegar no céu
São Pedro vai me dizer:
- Meu filho,bota o teu chapéu
E volta pra Terra,vai viver!

De Gerson Deslandes
O "boneco" foi-me enviado,sem menção ao autor

Domingo, 21 de Junho de 2009

O ÔNIBUS GRAYHOUND ATRAVESSA O NÔVO MÉXICO


TERRA SÊCA árvore sêca
E a bomba de gasolina
Casa sêca paiol sêco
E a bomba de gasolina
Serpente sêca na estrada
E a bomba de gasolina
Pássaro sêco no fio
(E a bomba de gasolina)
Do telégrafo: s.o.s.
E a bomba de gasolina
A pele sêca o olhar sêco
(E a bomba de gasolina
Do índio que não esquece
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina...
DeVinicius de Moraes

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

MORREU AO AMANHECER


Noite de quatro luas
e uma única árvore,
com uma única sombra
e um único pássaro.
Busco na minha carne as
pegadas de teus lábios.
Beija a nascente o vento
sem o tocar.
Levo o Não que me deste,
sobre a palma da mão,
como um limão de cera
quase branco.
Noite de quatro luas
e uma única árvore.
Na ponta de uma agulha
está meu amor -- girando!
De Frederico García Lorca
Fotografia "picada" de llena.com/blog/?m=200807

Sábado, 13 de Junho de 2009

GEOMETRIA


Daria,
Por teus planos de cor e de agonia,
Minha suspensa,abstracta geometria,
Que me canta nas veias noite e dia.
Em troca,
Nada mais do que o deserto.
Mas deserto de luz ao longe e ao perto,
Entre sulcos de neve e céu aberto,
Entre o meu desacerto e o meu acerto...
En troca,as formas ágeis,diluídas,
Entre a memória e a história de outras vidas,
Entre a saudade e a dor adormecidas,
A correr sobre faces esbatidas...
Em troca,pouco mais do que o regresso
Às salas onde em espectro me conheço,
Aos campos e às igrejas do começo,
Às naves voadoras do silêncio.
Em troca
Do absurdo onde me quis,
Incompleta,confusa e infeliz,
E viajante amável de um país
De fantasmas e deuses navegantes.
Em troca
Do infinito que se afunda
E se perde num escuro sem penumbra,
E que ninguém,nem tu,poderás dar-me,
Toca!, campainhas de alarme,
Cristais,de luz e cor
Riscando os ares!
Esse é o Mundo!
- O perdido,impossível,morto Mundo,
Pelo qual te daria
Minha suspensa,abstracta geometria,
Que me golpeia as veias noite e dia.
De Natércia Freire