quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

BOULEVARD DELESSERT

Quando vivia em Paris,certa manhã fui despertado por três ou quatro pombos a bicar a vidraça da janela.Fui abrir,e um deles mais afoito entrava para o meu quarto,enquanto eu ia à cozinha procurar qualquer coisa para lhe dar.Enchi uma tijela de arroz,na esperança de o encontrar,embora não tivesse fechado a janela.Lá estava ainda,para minha alegria.Experimentei dar-lhe os grãos na mão,aceitou,e a sua confiança tornou-me também confiante.Quando saí,dei os bons dias à porteira com voz clara e fiz uma festa nos cabelos a um garoto vesgo e feio,que podia ser filho do Sartre,mas que seria neto dela,ou afilhado,já não me lembro.Regressei a casa,depois de comprar milho,pensando no meu visitante matinal.O meu pombo voltou,e durante uma semana vivemos um pequeno idílio feito de trocas simples:eu dava-lhe a mão-cheia de milho,ele deixava-me o excremento no peitoril da janela - não era nada do outro mundo,mas a dona da casa não gostava.Achava aquela relação anormal(talvez preferisse ser ela a receber o milho,matinalmente),e não deixou de mo fazer sentir.Nessa mesma noite deve ter acendido uma vela a Santo António de que era devota,e pedido com fervor a sua intervenção,porque na manhã seguinte o pombo não apareceu.Nem em nenhuma outra das que se lhe seguiram.
Não voltei a Paris,cidade que detesto.


De Eugénio de Andrade(29.12.85)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

NATAL


Tu que dormes na calçada de relento
Numa cama de chuvas com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão,do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um Homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher 
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poder comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que não vês na montra a tua fome que eu nem sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um Homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher


De Ary dos Santos
contributo de Manuela Curado

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

COMEM DE NOITE



Comem de noite pelos caixotes.
Comem de noite.
Grandes famílias,sob capotes
Que são açoites.

             Sob capotes de chuva e pranto,
             Pátrias perdidas.
             Chave na porta,a cama à espera,
             A fuga à terra das suas vidas.

Cumpriram sonhos e não mataram.
Cruzaram sangues e não traíram.
Filhos de humildes embarcações
Árvores soltas de Áfricas vivas.

               Quem corta fitas de liberdade
               A sua gruda em fundos poços.
               Sumam-se contas de ambiguidade:
               Milhares de mortes,milhões de ossos.

Antes que o tempo cobre a verdade
Crescem as teias entre as aranhas.

                E muitos comem pelos caixotes
                Enquanto engordam estranhas espanhas.


De Natércia Freire

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

(FLORIRAM POR ENGANO AS ROSAS BRAVAS)


Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas,meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos,alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos,que um momento
Perscutaram nos meus,como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda,em triunfo,pétalas,de leve
Juncando o chão,na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze - quanta flor - ,do céu,
Sobre nós dois,sobre os nossos cabelos?

De Camilo Pessanha (Coimbra, 1867 - 1926)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

SE...


Se é possível conservar a juventude
Respirando abraçado a um marco de correio;
Se a dentadura postiça se voltou contra a pobre senhora e a mordeu
Deixando-a em estado grave;
Se ao descer do avião a Duquesa do Quente
Pôs marfim a sorrir;
Se o Baú-Cheio tem acções nas minas de esterco;
Se na América um jovem de cem anos
Veio de longe ver o Presidente
A cavalo na mãe;
Se um bode recebe o próprio peso em aspirina
E a oferece aos hospitais do seu país;
Se o engenheiro sempre não era engenheiro
E a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;
Se reentrante,protuberante,perturbante,
Lola domina ainda os portugueses;
Se o Jorge(o "ponto" do Jorge!)tentou beber naquela noite
O presunto de Chaves por uma palhinha
E o Eduardo não lhe ficou atrás
Ao saír com a lagosta pela trela;
Se "ninguém me ama porque tenho mau hálito
E reviro os olhos como uma parva";
Se Mimi Travessuras já não vem a Lisboa
Cantar com o Alberto...

...Acaso o nosso destino,tac!,vai mudar?


De Alexandre O'Neill

sábado, 28 de novembro de 2009

CHUVA



É quando a chuva cai,é quando
olhado devagar que brilha o corpo.
Para dizê-lo a boca é muito pouco,
era preciso que também as mãos
vissem esse brilho e o dissessem
a quem passa na rua,e cantassem.
Todas as palavras falam desse lume,
sabem à pele dessa luz molhada.

De Eugénio de Andrade

sábado, 21 de novembro de 2009

DE ARY



Em Portugal o mal é ancestral
tem raízes no sal   tem ruído nasal
desde que uns olhos se partiram                tristes
                    Esta nossa saudade lacrimal
                    é hoje um mineral:
                    otorrinolaringoestalactite.

                     


quarta-feira, 11 de novembro de 2009

VENTO VENTO



Gosto do barulho do vento
Qualquer vento voador
Serve pro meu encantamento
Vento de chuva é o de calor
Vento mais fresco é o da flor
E aquele,frio de bater queixo
Traz a saudade de meu amor
E é nele que eu me deixo
Levar como se nada existisse
Como se andasse nu
E ninguém me visse
Como se eu fosse apenas alma
E essa nunca partisse
E a vida fosse como era antes
Gosto do vento
Somos velhos amantes

De Gerson Deslandes

sábado, 7 de novembro de 2009

NADA MAIS


Não há mais que inventar.
Não há mais que dizer.
A sintaxe está gasta.
As imagens estão gastas.
Mesmo a Morte está gasta
E todos os poetas
O deviam saber.

A moral está já gasta.
Gasta a anormalidade,
E a imoralidade,
E a amoralidade.

Gastos os sentimentos
E todos os tormentos,
Mais os grandes amores
E todos os pavores.
Gastos rios e serras,
Mais os erros das guerras.
Gasta a Ciência e a Arte.

Gastos,lutos,enterros,
Cemitérios,jazigos,
Lágrimas,desesperos,
Sacrilégios e perigos,
Crimes,roubos e monstros,
Lirismos e fardins,
Naufrágios,terramotos
E o dilúvio do Fim,
Planetas e vigílias
De mortes pressentidas,
Mais o amor das famílias,
Gastas todas as vidas!

Que tudo está já gasto
Porque morreste um dia.
Porque à tua paixão
Opuseram traição.
Aos teus braços de mel
Só opuseram fel.
Ao teu canto,ao teu riso
De ave do Paraíso,
Opuseram cegueiras,
-  Monte das Oliveiras!


E se à minha paixão
Opuserem traição;
Se ao meu canto,aos meus risos,
Negarem Paraísos,
E cegarem meus olhos
Com pedradas certeiras,
Foi bem mais triste o teu
Monte das Oliveiras.
Todo o futuro é gasto
Porque morreste um dia.


Procurar-te,é bem pouco.
Achar-te,era demais.
Em mim,em qualquer ponto,
Te escondes e te esvais...


De Natércia Freire


terça-feira, 3 de novembro de 2009

RETRATO DO PRONOME POSSESSIVO



O meu é teu. O teu é meu
e o nosso é nosso quando posso
dizer que um dente nos cresceu
roendo o mal até ao osso.

O teu é nosso. O nosso é teu.
O nosso é meu. O meu é nosso
e tudo o mais que aconteceu
é uma amêndoa sem caroço.

Dizem que sou. Dizem que faço
que tenho braços e pescoço
- que é da cabeça que desfaço
que é dos poemas que eu não ouço?

O meu é teu. O teu é meu
e o nosso,nosso quando posso
e sem o ver  galgar o fosso
e sem o ver  galgar o fosso.

De Ary dos Santos

domingo, 25 de outubro de 2009

CRISTÓBAL MIRANDA

Te conocí,Cristóbal,en las lanchas
de la bahía,cuando baja
el salitre,hacia el mar,en la quemante

vestidura de un día de Noviembre.
Recuerdo aquella extática apostura,
los cerros de metal,el agua quieta.
Y sólo el hombre de las lanchas,húmedo
de sudor,moviendo nieve.
Nieve de los nitratos,derramada
sobre los hombros del dolor,cayendo
a la barriga ciega de las naves.
Allí,paleros,héroes de una aurora
carcomida por ácidos,sujeta
a los destinos de la muerte,firmes,
recibiendo el nitrato caudaloso.
Cristóbal,este recuerdo para ti.
Para los camaradas de la pala,
a cuyos pechos entra el ácido
y las emanaciones asesinas,
hinchando como  águilas aplastadas
los corazones,hasta que cae el hombre,
hasta que rueda el hombre hacia las calles,
hacia las cruces rotas de la pampa.
Bien,no digamos más,Cristóbal,ahora
este papel que te recuerda,a todos,
a los lancheros de bahía,al hombre
ennegrecido de los barcos,mis ojos
van con vosotros en esta jornada
y mi alma es una pala que levanta
cargando y descargando sangre y nieve,
junto a vosotros,vidas del desierto.


De Pablo Neruda (Palero-Tocopilla),in "Canto General"

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

ODE DE AMOR À FLORIANÓPOLIS


Bendita seja a trilha dos Naufragados,
Bendito seja o bar do Arantes,seus bilhetinhos,sua culinária e energia,
Bendita seja a Costa da Lagoa e o por do sol visto do Restaurante do Jajá,
Bendita a Barra da Lagoa na prainha,
Bendito TAMAR na Barra da Lagoa,
Bendita praia do Matadeiro e o ecológico bar do Marcão,
Bendito Spinoza no mercado,à tardinha,para ver os manezinhos pós-expediente e fazer novos amigos,
Bendito cineminha em qualquer sala Cinemark do Shopping Floripa,
Bendito seja o passeio no Ribeirão da Ilha,
Bendito centrão e a figueira da praça XV e o calçadão ao entardecer,
Bendita feirinha dominical na Lagoa e seus produtos naturebas,
Bendita UFSC e as universidades particulares,onde se pode conhecer gente de todo o Brasil e do mundo inteiro,
Bendito fato de poder subir à serra,ir a Lages e curtir a neve e o povo hospitaleiro,
Benditas massagens,sauna e águas termais públicas de Santo Amaro da Imperatriz,
Bendita e linda Guarda e seu mirante na última pousada,
Bendita praia da Rosa para ver as baleias,
Bendita praia Brava e sua angelitude fora da temporada,
Bendita trilha da Galheta,
Bendita ciclovia na avenida Beira-mar e as lindas gurias de byke,
Benditas exposições e cafezinho no Angeloni,
Bendita lojinha do presídio com suas redes artesanais feitas de madeira,
Bendita Casa Ecológica da UFSC,
Bendito shopizinho da Trindade e o bar da praça à tardinha,
Bendito o Kobrasol e o divino camarão à milanesa do Bocas,
Bendito seja o Morro das Pedras e o botequinho à beiramar,
Bendito "El Mexicano" para dançar e "John Bull" e seus shows maravilhosos,
Bendito casario e casa de artesanato ao lago da igreja em Santo António de Lisboa,assim como todos os artistas de Floripa e o seu imperdível café,
Bendita beleza de Sambaqui,
Bendita quietude da Cachoeira do Bom Jesus,
Bendita peixaria do Negrão,nos Ingleses,
Bendita abundância de comida no restaurante Terezas,em Canasvieiras,
Bendita beleza das imensas rochas na Armação,
Benditas dunas gigantes da Joaquina,
Bendito povo nativo que me acolheu com carinho,
Bendito seja Deus que me permitiu morar aqui,a dez metros do mar,nesta bela e Santa Catarina.
Amém.
Poema e fotografia de James Pizarro



segunda-feira, 12 de outubro de 2009

LISBOA


Esta névoa sobre a cidade,o rio,

as gaivotas doutros dias,barcos,gente

apressada ou com o tempo todo para perder,

esta névoa onde começa a luz de Lisboa,

rosa e limão sobre o Tejo,esta luz de água,

nada mais quero de degrau em degrau.


De Eugénio de Andrade

terça-feira, 6 de outubro de 2009

PRESENÇA DE ULISSES


...
- Procuro-te porque os Poetas não gostam de encontrar.
São poetas porque a Poesia lhes foge. Foge,Ulisses.Procuro-te,Poesia.
De Natércia Freire

sábado, 3 de outubro de 2009

O OLHAR...


A claridade coroa-se de cinza,eu sei:
é sempre a tremer que levo o sol à boca.

O olhar desprende-se,cai de maduro.
Não sei que fazer de um olhar
que sobeja na árvore,
que fazer desse ardor

que sobra na boca,
no chão aguarda subir à nascente.
Não sei que destino é o da luz,
mas seja qual for

é o mesmo do olhar:há nele
uma poeira fraterna,
uma dor retardada,alguma sombra
fremente ainda

de calhandra assustada.

De Eugénio de Andrade

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

SONETO PRESENTE


Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.

De Ary dos Santos

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O ROMPIMENTO À BEIRA-LÁGRIMA


Enquanto a vela respirava,

Ela suspirava elan-

guescida.


Que esvaziava ela com a vela?

Que enchia eu com ela e com a vela?


Tão efluvial,meudeus,a despedida!


No empranchado dessa fragata,

numa panela (ou numa lata?)

a caldeirada

(ao lado,o vergas com o vinho)

que um ganga acocorado,enquanto assobiava,

mexia com um pauzinho.


De Alexandre O'Neill

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

PUNHO


Por isso o punho ponho
em vez do sonho
no rascunho.
Por isso a soco saco
o que é de facto:
Uma mulher com ancas de cidade
uma prensa um ruído uma cilada.
O que for outro nome
o que se possa
dizer escrevendo nada.
De Ary dos Santos

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A MULTIDÃO DAS SOMBRAS


A multidão das sombras
As hostes das visões
Computadores cruéis
Mais os homens robots
Instalaram nos lares
Ouvidos espiões.
Em corações de corda
Em frios corações
Deitaram a paixão.
- Trituram as paixões.
Mas o massacre aguarda
As ordens implacáveis.
De Natércia Freire
Fotografia de dnmatos.blogspot.com

domingo, 13 de setembro de 2009

RETRATO DE LUÍS DE CAMÕES


Não do mar meu Luís mas dessa mágoa
marchetada de tudo apartada de quem
não mais trouxer os olhos rasos de água
por esta terra de ninguém.

Não do mar meu Luís mas da raiz
da nossa amada pátria portuguesa
chulando o mal de bernardim
até à última grandeza.

Não do mar meu Luís mas da galega
couve do pranto aberta pranto raro
pranto tão canto que a cantar te quero
neste deserto de quem fala claro.

De Ary dos Santos

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

LOS HOMBRES DE PISAGUA


Pero la mano que te acaricia se detiene
junto al desierto,al borde de la costa maritima,
en un mundo azotado por la muerte.
Eres tú,Patria,eres ésta,éste es tu rostro?
Este martirio,esta corona roja
de alambres oxidados por el agua salobre?
Es Pisagua también tu rostro ahora?
Quién te hizo daño,cómo atravesaron
con un cuchillo tu desnuda miel?

Antes que a nadie,a ellos mi saludo,
a los hombres,al plinto de dolores,
a las mujeres,ramas de mañio,
a los niños,escuelas transparentes,
que sobre las arenas de Pisagua
fueron la patria perseguida,fueron
todo el honor de la tierra que amo.
Será el honor sagrado de mañana
haber sido arrojado a tus arenas,
Pisagua:haber sido de pronto
recogido a la noche del terror
por orden de un felón envilecido
y haber llegado a tu calcáreo infierno
por defender la dignidad del hombre.

....

De Pablo Neruda

domingo, 6 de setembro de 2009

SEI DE UMA PEDRA


Sei de uma pedra onde me sentar

à sombra de setembro

e vou falar dos girassóis,

essa flor quase de areia

que ombro a ombro com o sol

faz do peso da solidão

o ardor

e a glória dos grandes dias de verão.


De Eugénio de Andrade

Fotografia retirada de "floresnaweb"

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

FIM DE SEMANA


Estirado na areia,a olhar o azul,

ainda me treme o parvalhão do corpo,

do que houve que fazer para ganhar o nosso,

do que houve para esburgar para limpar o osso,

do que houve que descer para alcançar o céu,

já não digo esse de Vossa Reverência,

mas este onde estou,de azul e areia,

para onde,aos milhares,nos abalançamos,

como quem,às pressas,o corpo semeia.


De Alexandre O'Neill

domingo, 2 de agosto de 2009

A CASA


A Casa. Há-de o meu ser
Afeiçoar-se à Casa.
Como a pedra ao escultor,
A palavra ao poeta.
Nos silêncios,no escuro,
Nos sonos e nos sonhos,
Sugada pela casa,
Estarei presente em tudo.

Os recados de luz,
Os contos de Chopin,
Recolhem-me no espaço,
Adejam-me sem data.

Um murmúrio de amor
Saltita na penumbra
Das vozes juvenis.
Junto do toucador
Há uma tarde feliz.

Espreito as sombras na hora
Em que a Casa é deserta
Alguém deixou no Tempo
A grande porta aberta...

O mármore,a madeira,
As flores,a terra,a água,
O pássaro cantor e as lanternas
Da escada,
Houve um dia em que sim,
Nasceram e ficaram
Como quem abre a luz
Numa sala arrumada.

A Casa vê o Tejo.
Debruça-se à varanda,
Quer-me levar consigo...

Não sou fácil nem mansa.

De Natércia Freire

quarta-feira, 29 de julho de 2009

MEU CAMARADA E AMIGO


Revejo tudo e redigo
meu Camarada e Amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.
É por dentro desta selva
desta raiva deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.
Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.
Calculo até os moinhos
puxados a óleo e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
---mas um poeta só fala
por sofrimento total!
Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde não me revejo
é o que eu sofro o meu país.
De Ary dos Santos

domingo, 26 de julho de 2009

O MAR


O mar. O mar novamente à minha porta.
Vi-o pela primeira vez nos olhos
de minha mãe,onda após onda,
perfeito e calmo depois,
contra as falésias,já sem bridas.
Com ele nos braços,quanta,
quanta noite dormira,
ou ficara acordado ouvindo
seu coração de vidro bater no escuro,
até a estrela do pastor
atravessar a noite talhada a pique
sobre o meu peito.
Este mar,que de tão longe me chama,
que levou na ressaca,além dos meus navios?
De Eugénio de Andrade
Fotografia de JR

quarta-feira, 22 de julho de 2009

SAUDAÇÃO DO COSMONAUTA


- Olá,Mãe!
Daqui,deste areal tranquilo,que é a lua,
te mando o beijo mais longo e mais profundo,
até agora concebido,
por homens deste Mundo!
Que te encontres bem,
junto à lareira,
a desfiar o rosário da tua Cruz,
ou a dizer os versos que te oferecia,
quando era pequenino,
do tamanho de uma noz...
Hoje a minha poesia
é mais distante,e mais verdadeira,
porque imprime à minha voz
o mais sentido hino
à Fé da Humanidade.
Um poeta com os pés firmes na lua,
tem a obrigação de ver as coisas
com mais objectividade
e com uma coragem só igual à tua.
Os versos de criança,
são como botões de rosa,ainda por abrir;
inspiram ternura,
mesmo antes de florir,
e murcham a um simples sopro do suão.
Mas os versos do teu Cosmonauta,
estão semeados de glória e d'amargura
e levam-te uma enorme Esperança
no AMANHÃ deste meu galope ardente,
para DEUS omnipotente.
De coração,de coração,
de quais
gostas mais,
MÃE?
De Lopes Sebastião(1972),in "Segunda Praça"

sexta-feira, 17 de julho de 2009

VELHOS / 2


O Mataboches,o que deixou os alemães passarem em sucessivas vagas,
para,depois,do seu buraco,os dizimar pelas costas,
está que não pode.
Reformado da fábrica onde,até há poucos anos,
apoveitando as espertinas de ex-gaseado,
guardava as larápias sombras da noite,
o Mataboches já nem à taberna vai.
A filha,antes de sair para o trabalho,
deixa-o sentado à janela,entre canário e sardinheira,
com um mata-moscas à mão.
E o Mataboches passeia o curto-alcance dos seus olhos
do amarelo ao rosa,
vigiando mosca e varejeira.
Às vezes apanha chuva e larga a rir
(por ser regado ao mesmo tempo que as sardinheiras?)
um riso que põe o canário,espavorido,
a harpejar as barras da gaiola.
Penugem amarela rodeia o Mataboches.
Ele não dá por nada;dá a filha,
que lhe ralha e lhe faz ciúmes com o Hilário,o canoro.
Passa-se,então,um curioso ritual:
a filha tira o canário da gaiola,diz-lhe:"Ele foi mau pró meu Hilário!",
e enquanto o pai se agita,regouga,troca e destroca
seus gestos de meio paralítico,
ela,com um olho no velho,beija o passarinho,
alisa-lhe as penas,quase o come.
E o ritual só acaba quando o Mataboches
mistura a sua baba com o seu ranho.
O Mataboches,o do C.E.P.,
peneira o ar com o mata-moscas
e erra a última mosca.
De Alexandre O'Neill

quarta-feira, 1 de julho de 2009

EL FUGITIVO(1948) excerto


Por la alta noche,por la vida entera,
de lágrima a papel,de ropa en ropa,
anduve en estos días abrumados.
Fui el fugitivo de la polícia:
y en la hora de cristal,en la espesura
de estrellas solitarias,
crucé ciudades,bosques,
chacarerías,puertos,
de la puerta de un ser humano a otro,
de la mano de un ser humano a otro ser,a otro ser.
Grave es la noche,pero el hombre
ha dispuesto sus signos fraternales,
y a ciegas por caminos y por sombras
llegué a la puerta iluminada,al pequeño
punto de estrella que era mío,
al fragmento de pan que en el bosque los lobos
no habían devorado.

...

De Pablo Neruda

sexta-feira, 26 de junho de 2009

CURRICULUM



Eu não aceito cheques
Nem ando na contra-mão
Não passo embaixo de escadas
Não jogo papel no chão
Nunca passei dos oitenta
Nem avancei o sinal
Não posso comer pimenta
Nem abusar do sal
Eu não cometo adultério
Nem peço dinheiro emprestado
Só leio se for de mistério
Não compro nada fiado
Tenho amigos na polícia
Um filho no Colégio Militar
Não gosto de quem tem malícia
Rezo antes de me deitar
Nunca chego atrasado
E durmo antes das dez
Acordo num banho gelado
No chão eu não boto os pés
Mulher minha não trabalha fora
Por isso trabalho demais
Se a filha não chega na hora
Na outra vez não vai mais
Não bebo,não fumo,não jogo
Não falo mal do governo
Pragas pros outros não rogo
Nem mando ninguém pro inferno
Não gosto de comunistas
Odeio o jogo do bicho
Não passo nem assino listas
Não jogo comida no lixo
Comungo todo domingo
Lavo meu carro também
Não falo palavrão nem xingo
Adoro dizer amém
Eu não dispenso a gravata
Acordo sempre feliz
Adoro arroz com batata
Adoro também meu país
Mas sei que quando chegar no céu
São Pedro vai me dizer:
- Meu filho,bota o teu chapéu
E volta pra Terra,vai viver!

De Gerson Deslandes
O "boneco" foi-me enviado,sem menção ao autor

domingo, 21 de junho de 2009

O ÔNIBUS GRAYHOUND ATRAVESSA O NÔVO MÉXICO


TERRA SÊCA árvore sêca
E a bomba de gasolina
Casa sêca paiol sêco
E a bomba de gasolina
Serpente sêca na estrada
E a bomba de gasolina
Pássaro sêco no fio
(E a bomba de gasolina)
Do telégrafo: s.o.s.
E a bomba de gasolina
A pele sêca o olhar sêco
(E a bomba de gasolina
Do índio que não esquece
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina
E a bomba de gasolina...
DeVinicius de Moraes

quinta-feira, 18 de junho de 2009

MORREU AO AMANHECER


Noite de quatro luas
e uma única árvore,
com uma única sombra
e um único pássaro.
Busco na minha carne as
pegadas de teus lábios.
Beija a nascente o vento
sem o tocar.
Levo o Não que me deste,
sobre a palma da mão,
como um limão de cera
quase branco.
Noite de quatro luas
e uma única árvore.
Na ponta de uma agulha
está meu amor -- girando!
De Frederico García Lorca
Fotografia "picada" de llena.com/blog/?m=200807

sábado, 13 de junho de 2009

GEOMETRIA


Daria,
Por teus planos de cor e de agonia,
Minha suspensa,abstracta geometria,
Que me canta nas veias noite e dia.
Em troca,
Nada mais do que o deserto.
Mas deserto de luz ao longe e ao perto,
Entre sulcos de neve e céu aberto,
Entre o meu desacerto e o meu acerto...
En troca,as formas ágeis,diluídas,
Entre a memória e a história de outras vidas,
Entre a saudade e a dor adormecidas,
A correr sobre faces esbatidas...
Em troca,pouco mais do que o regresso
Às salas onde em espectro me conheço,
Aos campos e às igrejas do começo,
Às naves voadoras do silêncio.
Em troca
Do absurdo onde me quis,
Incompleta,confusa e infeliz,
E viajante amável de um país
De fantasmas e deuses navegantes.
Em troca
Do infinito que se afunda
E se perde num escuro sem penumbra,
E que ninguém,nem tu,poderás dar-me,
Toca!, campainhas de alarme,
Cristais,de luz e cor
Riscando os ares!
Esse é o Mundo!
- O perdido,impossível,morto Mundo,
Pelo qual te daria
Minha suspensa,abstracta geometria,
Que me golpeia as veias noite e dia.
De Natércia Freire

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Excerto da "Carta a António Pereira,Senhor do Basto,Quando se Partiu para a Corte co`a Casa Toda"



Como eu vi correr pardaus
Por Cabeceiras de Basto,
cresceram cercas e gasto,
vi,por caminhos tão maus,
tal trilha e tamanho rasto.

Logo os meus olhos ergui
à casa antiga e à torre,
e disse comigo assi:
"Se Deus não nos val aqui,
perigoso imigo corre!"

Não me temo de Castela,
donde inda guerra não soa;
mas temo-me de Lisboa,
que,ao cheiro desta canela,
o Reino nos despovoa.

E que algum embique e caia,
(afora vá o mau agouro!)
falar por aquela praia
da grandeza de Cambraia,
Narsinga das torres d'ouro!

Ouves,Viriato,o estrago
que cá vai dos teus costumes?
Os leitos,mesas e os lumes,
todo cheira: eu óleos trago;
vem outros,trazem perfumes.

E ao bom trajo dos pastores,
com que saíste à peleja
dos Romãos tam vencedores,
são mudados os louvores;
não há quem t'haja enveja.

...

De Sá de Miranda
Publicado em "A Morte de Portugal",de Miguel Real(Campo das Letras)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

QUE VERGONHA,RAPAZES!


Que vergonha,rapazes! Nós pràqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no "diz que"
e a desnalgar a fêmea ("Vist'?Viii!")
Que miséria,meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me soergo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.
Desejo recalcado,com certeza...
Mas logo desço à rua,encontro o Roque
("O Roque abre-lhe a porta,nunca toque!")
e desabafo: - Ó Roque,com franqueza:
Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria,Snr. O'Neill! E... as varizes?
De Alexandre O'Neill

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O PESO DA SOMBRA


Atravessara o verão para te ver

dormir,e trazia doutros lugares

um sol de trigo na pupila;

às vezes a luz demora-se

em mãos fatigadas; não sei em qual

de nós explodiu uma súbita

juventude,ou cantava:

era mais fresco o ar.

Quem canta no verão espera ver o mar.


De Eugénio de Andrade
Fotografia retirada de botecoliterario.wordpress.com

domingo, 31 de maio de 2009

NÃO PASSAM MAIS


Em nome dos nossos braços
em nome das nossas mãos
em nome de quantos passos
deram os nossos irmãos.
Em nome das ferramentas
que nos magoaram os dedos
das torturas das tormentas
das sevícias dos degredos.
Em nome daquele nome
que herdámos dos nossos pais
em nome da sua fome
dizemos: não passam mais!

E em nome dos milénios
de prisão adicionada
em nome de tantos génios
com a voz amordaçada
em nome dos camponeses
com a terra confiscada
em nome dos Portugueses
com a carne estilhaçada
em nome daqueles nomes
escarrados nos tribunais
dizemos que há outros nomes
que não passam nunca mais!

Em nome do que nós temos
em nome do que nós fomos
revolução que fizemos
democracia que somos
em nome da unidade
linda flor da classe operária
em nome da liberdade
flor imensa e proletária
em nome desta vontade
de sermos todos iguais
vamos dizer a verdade
dizendo: não passam mais!

Em nome de quantos corpos
nossos filhos foram feitos.
Em nome de quantos mortos
vivem nos nossos direitos.
Em nome de quantos vivos
dão mais vida à nossa voz
não mais seremos cativos:
o trabalho somos nós.

Por isso tornos enxadas
canetas frezas dedais
são as nossas barricadas
que dizem: não passam mais!

E em nome das conquistas
vindas nos ventos de Abril
reforma agrária controlo
operário no meio fabril
empresas que são do estado
porque o seu dono é o povo
em nome de lado a lado
termos feito um país novo.

Em nome da nossa frente
e dos nossos ideais
diante de toda a gente
dizemos: não passam mais!

Em nome do que passámos
não deixaremos passar
o patrão que ultrapassámos
e que nos queria trespassar.
E por onde a gente passa
nós passamos a palavra:
Cada rua cada praça
é o chão que o povo lavra.
Passaremos adiante
com passo firme e seguro.
O passado é já bastante
vamos passar ao futuro.

De Ary dos Santos

quinta-feira, 28 de maio de 2009

CÂNTICO DO PAÍS EMERSO (Excerto)


Desta vez havia turistas a bordo,turistas

Quase sempre cardíacos hepáticos às vezes;

Funcionários dos cruzeiros anuais que fazem

O périplo da África jogando bridge no salão;

Almas correctamente vestidas por alfaiates

Ingleses. Antípodas da virilidade

Demonstrada em actos de prestidigitação

(Meter no bolso um paquete de luxo e tirá-lo

Do peito transformado em Nação);


Desta vez havia os corvos civilizados

Do bloqueio. As gralhas metálicas dos linotipos

As câmaras dos deputados e as da televisão

A rádio,o cabo submarino,o veio

Do desencanto,do tédio,das tolices,

Duma humanidade que tem por condenação

Descrer da moderna possibilidade do Ulisses;

Os campos magnéticos para a propagação

Do folhetim lamechas do paquete. O paquete

Donzela pùblicamente desonrada. A empresa

Proprietária viúva do paquete

A subscrição para os órfão do paquete

O paquete o paquete o paquete

O paquete a troco das verdades omissas

As novenas as missas por alma do paquete

A coroa funerária dos sonhos adiados

Dos sonhos feriados por causa dessas missas...


De Natália Correia

domingo, 24 de maio de 2009

CAMINHO


Cem ginetes enlutados,
onde irão,
além,pelo céu jacente
do laranjal?
A Córdova ou a Sevilha
não chegarão.
Nem a Granada,a que suspira
pelo mar.
Esses cavalos sonolentos
irão levá-los
ao labirinto das cruzes
onde tirita o cantar.
Com sete ais cravados,
- onde irão
os cem ginetes andaluzes
do laranjal?


De Frederico García Lorca

quarta-feira, 20 de maio de 2009

CANÇÃO NOCTURNA

É noite:agora falam mais alto todas as fontes jorrantes.E a minha alma é também uma fonte jorrante.
É noite:só agora acordam todas as canções dos amantes.E a minha alma é também a canção de um amante.
Há em mim algo de insaciado,de insaciável que quer ganhar voz.Um desejo de amor há em mim,um desejo que fala ele mesmo a língua do amor.
Sou luz:ai,quem me dera ser noite!Mas é esta a minha solidão,estar cingido de luz.
Ai,quem me dera ser escuro e nocturno!Como eu havia de mamar nos peitos da luz!
E também vos abençoaria mesmo a vós,pequeninas estrelas cintilantes e pirilampos lá no alto! - e seria feliz com os vossos presentes de luz.
Mas eu vivo na minha própria luz,reabsorvo em mim as chamas que de mim brotam.
Não conheço a ventura de quem recebe;e muitas vezes sonhei que roubar deve dar mais felicidade ainda do que receber.
É esta a minha pobreza:nunca a minha mão descansar de dar;é esta a minha inveja:ver olhos à espera e as noites iluminadas de saudade.
Ó infelicidade de todos os que dão! Ó eclipse do meu sol! Ó desejo de desejar! Ó fome ardente na saciedade!
Eles tomam o que lhes dou:mas toco eu ainda a sua alma?Há um abismo entre o dar e o receber;e o mais pequeno abismo é o último a transpor.
Cresce uma fome da minha beleza;gostaria de fazer mal àqueles a quem alumio,gostaria de roubar aqueles a quem dou - a tal ponto tenho fome de maldade.
Tal vingança imagina a minha abundância:tal perfídia jorra da minha solidão.
A minha ventura de dar morreu com o dar,a minha virtude cansou-se de si mesma com a sua profusão!
Quem sempre dá,corre o risco de perder o pudor;quem sempre reparte,as mãos e o coração lhe criam calos de tanto repartir.
Os meus olhos já não choram diante do pudor dos que pedem;a minha mão fez-se dura demais para o tremor das mãos que encho.
Pra onde foram as lágrimas dos meus olhos e a penugem macia do meu coração?Ó solidão de todos os que dão!Ó silêncio de todos os que iluminam!
Muitos sóis gravitam no espaço deserto:a tudo o que é escuro eles falam com a sua luz - para mim são mudos.
Oh!é esta a inimizade da luz a tudo o que ilumina;impiedosa segue ela as suas rotas.
Iníquo do fundo do coração contra tudo o que dá luz,frio para os outros sóis - assim gravita todo o sol.
Semelhantes a uma tormenta voam os sóis as suas órbitas,é esse o seu gravitar.Obedecem ao seu querer inexorável,é essa a sua frieza.
Oh!só vós,ó escuros,ó nocturnos,só vós é do geque tirais calor da luz! Oh,só vós bebeis leite e refrigério dos úberes da luz!
Ai!há gelo à minha volta,a minha mão queima-se ao contacto do gelo!Ai! há em mim sede que se consome pela vossa sede!
É noite: ai!ter eu de ser a luz! E sede de noite!E solidão!
É noite: agora,como uma fonte,jorra de mim o meu desejo - desejo de fala.
É noite: agora falam mais alto todas as fontes jorrantes. E a minha alma é também uma fonte jorrante.
É noite: agora acordam todas as canções dos amantes. E a minha alma é também a canção de um amante.

Assim cantou Zaratustra.

De F.Nietzsche
in Poemas em Prosa (cinco canções de Zaratustra)



domingo, 17 de maio de 2009

O OBJECTO


Para Tomaz Kim

Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa dum cão.

Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo forem janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?

E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.

E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.

E se o prato for de merda
e o literato for da esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão

Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são.

De Ary dos Santos


quarta-feira, 13 de maio de 2009

O MORTO


O morto,assim barbeado,
assim vestido,calçado,
está pronto a ser enterrado,
está pronto a ser olvidado,
que ele agora é uma coisa,
é de fora para dentro.
Só aos vivos falta o tempo.
A ele não,que é uma coisa.
Não tem lazer,que fazer,
nem aflição ou dívida.
Qualquer destino lhe serve
à maravilha.
E tanto se lhe daria
ser o defunto na sala,
como carcaça na vala
ou objecto de poesia.
Mas não se esquecem os vivos
de condimentar o morto.
Para que dele não fique
mais que o osso?
De Alexandre O'Neill

domingo, 10 de maio de 2009

VERÃO SOBRE O CORPO


...
Entre os amieiros escondíamos a roupa e nus os olhos caíam sobre a tímida erecção o sexo ladeado já por uma sombra leve e crespa diáfano labirinto dos dedos corríamos pela relva assim os cães se perseguiam se lambem uns aos outros caíamos sobre a boca entre as pernas um rumor de saliva uma áspera doçura pois era o tempo dos medronhos.

Entre a poeira que o rebanho levanta,onde vais,meu ténue rapazinho,o coração de águas estreitas,um pássaro que o costil estrangulou ainda quente por dentro da camisa..

Como se houvesse um incêndio de giestas para atravessar,eu não dormia.
....

excertos de Eugénio de Andrade

terça-feira, 5 de maio de 2009

AVISO AO POETA


Não procures o eterno,
O eterno sol,
Mas procura reter asa e momento.
Não o que volve em pulsação cansada,
Mas o que é nunca em vastidão e nada.

Não procures reter a mão estendida
Mas a que esconde a incógnita penumbra.
Chama as Irmãs da Morte
Como chamasses por Irmãs na Vida.
Tu sabes do Aviso que te envolve.

Tu sabes - ou não sabes? - dessa Grécia
Onde te deram a beber cicuta?
Tu sabes - ou não sabes? - da permuta
Entre o preço das auras e do pó?
Tu sabes o que viste e o que escolheste?
Tu sabes. E andas tonta,como a pomba
No altar do sacrifício a querer voar.
Tu sabes o que queres saber de mais
E conheces a próxima Estação.

Tu sabes tudo. E finges
Como a Esfinge
Que dormes o mistério do Deserto
E a dormir viverás.

Tu sabes o que viste e o que escolheste.
Tu te sabes. E sabes que morreste
E morrias em paz.


De Natércia Freire

terça-feira, 28 de abril de 2009

AOS MORTOS-VIVOS DO TARRAFAL


Ao cabo de Cabo Verde
dobrado o cabo da guerra
quando o mar sabia a sede
e o sangue cheirava a terra
acabou por ser mais forte
a esperança perseguida
porque aconteceu a morte
sem que se acabasse a vida.

Ao cabo de Cabo Verde
no campo do Tarrafal
é que o futuro se ergue
verde-rubro Portugal
é que o passado se perde
na tumba colonial.
Ao cabo de Cabo Verde
não morreu o ideal.

Entre o chicote e a malária
entre a fome e as bilioses
os mártires da classe operária
recuperam suas vozes.
E vêm dizer aqui
do cabo de Cabo Verde
que não morrem ali
porque a esperança não se perde.

Bento Gonçalves torneiro
ainda trabalhas o ferro
deste povo verdadeiro
sem a ferrugem do erro.

Caldeira de nome Alfredo
fervilham no teu caixão
contra o ódio e contra o medo
gérmens de trigo e de pão.

E tu também Araújo
e tu também Castelhano
e também cada marujo
que morreu a todo o pano.

Todos vivos!Todos nossos!
vinte trinta cem ou mil
nenhum de vós é só ossos
sois todos cravos de Abril!

No campo do Tarrafal
no sítio da frigideira
hasteava Portugal
a sua maior bandeira.

Bandeira feita em segredo
com as agulhas das dores
pois o tempo do degredo
mudava o sentido às cores:
o verde de Cabo Verde
o chão da reforma agrária
e o Sol vermelho esta sede
duma água proletária.

Do cabo de Cabo Verde
chegam tão vivos os mortos
que um monumento se ergue
para cama dos seus corpos.
Pois se o sono é como o vento
que motiva um golpe de asa
é a vida o monumento
dos que voltaram a casa.

De Ary dos Santos

sábado, 25 de abril de 2009

AS MIL ÁGUAS DE ABRIL


sob as pontes
correm
águas
mágoas
em abril
cerra o punho
companheiro
somos muitos mil
marinheiros de águas mil
com esperança
em abril
tempo de mudança
em abril
somos muitos mil
marinheiros de águas mil
somos muitos mil
em abril
esperança
mudança
águas
mágoas
em abril
águas mil

para a Miguel
Fotografia de António Dias

quarta-feira, 22 de abril de 2009

1910 (INTERMÉDIO)


Aqueles meus olhos de mil novecentos e dez
não viram enterrar os mortos,
nem a feira de cinza do que chora de madrugada,
nem o coração que treme retirado como um hipocampo.

Aqueles meus olhos de mil novecentos e dez
viram a branca parede onde urinavam as meninas,
o focinho do touro,o cogumelo venenoso
e uma lua incompreensível que iluminava nos recantos
os pedaços de limão seco sob o negro duro das garrafas.

Aqueles meus olhos no pescoço do garrano,
no seio vazado de Santa Rosa adormecida,
nos telhados de amor,com gemidos e frescas mãos,
num jardim onde os gatos comiam as rãs.

Sótão onde o velho pó reúne estátuas e musgos.
Caixões que guardam silêncio de caranguejos devorados.
No sítio onde o sonho tropeçava na sua realidade.
Ali meus pequenos olhos.

Não me perguntem nada. Vi que as coisas
quando buscam seu curso encontram seu vazio.
Há uma dor de ocos pelo espaço sem ninguém
e,em meus olhos,criaturas vestidas - mas sem corpo!

De Frederico García Lorca (tradução de José Bento;ed. Relógio de Água)
Pintura de P.Picasso.