sexta-feira, 4 de julho de 2008

UMA VIDA DE CÃO



Não

não é poesia caixa de música

ou a poesia piolho místico enterrado no sebo destes dias

ou qualquer outra

que podem dissolver a tua alma

tão problemática

no vinho da beatitude


Ah

o "mistério" da poesia a poesia

técnica da confusão

a capelista poética e os primeiros fregueses

ainda a medo ainda receosos

de te pedirem a Dor em alfinetes que não tenhas

logo ali à mão


E quando dizes "Poesia" eu tenho nojo

aquele nojo violento que me dá

o olhar furtivo a atenção desatenta

dos que se demoram nos lavabos nas salas dos cinemas

de mãos distraídas procurando

a solução da noite


Instalaram-me em ti

a mesma contracção suspeita

a mesma hipocrisia o mesmo sobressalto

a mesma curva obscena

que o olhar descreve

goza

e disfarça


Quando dizes "Poesia" dizes medo

dizes família tradição classe

e a vida de cão que te esperava

e que é hoje a tua vida a tua "trancendente"

vida de cão

....


Excerto de Alexanre O'Neill

2 comentários:

Lilás disse...

Oh, mais uma linda surpresa no dia!
Adoro poesias, sim e terei que ter tempo para ler todos os posts deste bonito pedaço.
Parabéns!
abraço carioca

Anônimo disse...

Nada convencional, nem no fundo nem na forma, a poesia de O'Neill.
Ah! Mas grande, enorme é este bardo!

mc