quarta-feira, 25 de março de 2009

OS ENJEITADOS


Carregando os caixões nos magros ombros

Enterrando na polpa das montanhas

Os tornozelos de aço,

Rasgando no ar fino agudas frestas

Caminham lentamente os enjeitados.


Escasseia-lhes emprego nas florestas

Nas bancas da cidade revoluta

E transportam a morte com cuidado.


Os pais ocultam-se em locais limites.

Levam aos ombros mitos sem limites

Com seus nomes em cera desenhados.


Ao pôr do sol escutaram a chamada

Que vinha sempre errada.

E sentaram-se à mesa num lugar

Entre desconhecidos e estrangeiros.


Vinha um sopro de lar

De uma língua de tempos derradeiros.


Os silêncios depois cavaram vales.

As margens sepultaram os seus leitos.

Escalaram as montanhas sem vontade.

Fabricaram metralha no seu peito.

Pediram filhos a planetas mortos.

Dormiram com saudades mutiladas.


Beberam sonhos pelo mesmo copo.

Fugiram das cidades em partilha.

Deram as mãos.Sentaram-se a chorar

No choro de uma ilha.


Chove-lhes fogo em dias de criança.

Chove-lhes fel em dias ensombrados.

Jovem povo sem esperança

Desde o ventre da mãe,os enjeitados.


Ocupados no mapa das viagens,

Exaltados no tempo de ir a Marte.

Todos heróis,políticos e pajens

De Herodes e Medeia,

Abrem os pais as veias.


No ar,jorra em cadeias de cadência,

O sangue colectivo de uma ausência.


De Natércia Freire

Fotografia de autor desconhecido:Roda dos Expostos ou Enjeitados,no Poço de Borratém

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