domingo, 3 de fevereiro de 2008

PEDRA ATIRADA


Quando eu tiver a certeza

De que nada foi verdade,

E que dentro da tristeza

Da minha serenidade

Nunca o sonho foi beleza,

Nem a Poesia certeza,

Nem o Amor foi verdade...


Quando eu souber,bem a fundo,

Que era cinza a minha pele;

Que ninguém me viu no mundo

E que não passei por ele...


Quando,de brumas envolta,

Só vir casarões vazios,

E só as vozes,à solta,

Me despertem arrepios...


Quando o frio me despir

As ilusões que julguei,

As vitórias que criei,

Os movimentos sagrados,

E já nada me entristeça...

E nem na sombra,em retratos,

Eu sequer me reconheça

- Se nem retratos tirei! -

Nos olhos me apagarei.


Quando eu tiver a certeza

De que nada foi verdade:

Nem os Céus nem a Beleza,

Nem a minha imensidade,

Nem os braços que estendi,

Nem os espaços que viajei,

Nem ilhas que nunca vi,

Mas chão onde descansei,

Nem noites de danças lentas

Em que me vinham buscar

- Madrugadas nevoentas

De ir com Eles para o mar...


Nem esse gosto impreciso,

Ténue gosto de salgado,

Que há-de haver no Paraíso

Quando está longe o pecado...


Quando eu tiver a certeza

De que nada foi Verdade,

Pedra me sinta atirada

Entre as coisas sem idade.


De NATÉRCIA FREIRE

Um comentário:

moitacarrasco disse...

Belíssimo poema...
Grande Natércia!