sexta-feira, 16 de novembro de 2007

REQUIEM PARA PIER PAOLO PASOLINI


Eu pouco sei de ti mas este crime

torna a morte ainda mais insuportável.

Era novembro,devia fazer frio,mas tu

já nem o ar sentias,o próprio sexo

que sempre fora fonte agora apunhalado.

Um poeta,mesmo solar como tu,na terra

é pouca coisa:uma navalha,o rumor

de abril podem matá-lo - amanhece,

os primeiros autocarros já passaram

as fábricas abrem os portões,os jornais

anunciam greves,repressão,dois mortos na

primeira

página,o sangue apodrece ou brilhará

ao sol,se o sol vier,no meio das ervas.

O assassino,esse seguirá dia após dia

a insultar o amargo coração da vida;

no tribunal insinuará que respondera apenas

a uma agressão (moral) com outra agressão,

como se alguém ignorasse,excepto claro

os meritíssimos juízes,que as putas desta espécie

confundem moral com o próprio cu.

O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores

como móbil de um crime que os fascistas,

e não só os de Salô,não se importariam de

assinar.

Seja qual for a razão,e muitas há

que o Capital a Igreja e a Polícia

de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,

Pier Paolo Pasolini está morto,

A farsa,a nojenta farsa,essa continua.



De Eugénio de Andrade(Novembro,75)

Um comentário:

moitacarrasco disse...

Não é bem o Eugénio de Andrade que eu conhecia...
Gostei, claro.